#68 Ricardo Araújo Pereira pt2 - Da sátira ao humor auto-depreciativo; da posição do...

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José Maria Pimentel
Olá, o meu nome é José Maria Pimentel e este é o 45°. Neste episódio, como prometido, trago-vos a segunda parte da conversa que gravei com o Ricardo Araújo Pereira sobre humor. Durante esta quase hora e meia, fizemos uma viagem ainda mais alargada do que na primeira parte ao mundo do humor. Falámos sobre os vários tipos e funções do humor, desde a sátira ao chamado humor autodepreciativo, o que nos levou à dimensão da comédia enquanto transgressão e ao modo como quando se faz de um determinado assunto ou tema um terreno sagrado, isso o torna automaticamente, enquanto objeto de humor, ainda mais apetecível. Conversámos também sobre o que está por trás desta nossa capacidade para achar graça a determinadas coisas e que, pelo menos para algum tipo de humor, pode ser descrita como uma capacidade para fazer uma suspensão da compaixão ou uma suspensão da emoção. E isso levou-nos a um assunto que já tínhamos aflorado na primeira parte da conversa. O papel da moral no humor. Isto é, se a ética do humorista e do espectador tem ou não influência no humor que o comediante decide fazer e naquilo que nós, deste lado, achamos graça. Por exemplo, será que é verdade, como os comediantes insistem, que dizem qualquer coisa desde que isso provoque o riso na audiência? Isto é, que vão até onde for preciso para provocar o riso na audiência? E do nosso lado, enquanto espectadores, há temas ou abordagens restritos ou tudo é ingrediente passível para o humor? Esta questão toca em temas que nos podem tornar difíceis fazer a tal suspensão da emoção como piadas racistas, xenófobas ou ainda o humor desviante. É uma discussão muito interessante e ao editar a conversa fica com a sensação de que a poderíamos ter aprofundado mais. No fundo eu partilho a perspectiva do Ricardo, mas acho que há algumas cambiantes que é interessante discutir. E pronto, foi uma excelente dupla dose de conversa. A vantagem de ter sido uma conversa longa é que pudemos cobrir muitos assuntos, mas ainda assim mais havia a discutir, como por exemplo os desafios da escrita humorística ou do guionismo, ou ainda por exemplo a comparação do humor com outras formas de criação humana e de arte. Enfim, talvez numa próxima conversa. Uma última nota antes de passarmos à conversa para partilhar convosco uma novidade. Encontram a partir de hoje, em qualquer aplicação, uma versão alternativa deste podcast. Chama-se 45° Express. É, como o nome indica, uma espécie de versão curta do 45° em que vou publicar, semanalmente, certos destas conversas, com duração reduzida, em que se vai poder ouvir uma passagem especialmente interessante da conversa que foi originalmente gravada para o 45° com aquele convidado ou convidada. A ideia de lançar este podcast paralelo, digamos assim, é chegar àquelas pessoas que não têm tempo ou por aí simplesmente não têm interesse em ouvir conversas longas como estas, mas que não deixam de se interessar por estes temas e pela abordagem que se faz neste podcast. Portanto, se conhecerem pessoas destas, A quem já quiseram recomendar o podcast ou até se calhar já recomendaram, não deixem de partilhar com elas e de divulgar este 45° Express. E se me quiserem ajudar a escolher os certos a selecionar para este podcast, enviem-me um e-mail para 45graus arroba gmx.com, indicando a passagem entre que gostaram mais ou passagens, a indeterminada conversa e idealmente indicando em que minuto da conversa começa e acaba esse momento. Muito obrigado. E agora fiquem com o Ricardo Araújo Pereira. Ontem, isto é, na primeira parte desta conversa, falámos de uma série de coisas e eu gostava de cobrir mais algumas faces do PoliEDro, para usar a analogia de ontem do humor, e por outro lado também ainda voltar algumas coisas que ficaram por acabar. Até vinha cá, vinha para cá pensar sobre isto. É engraçado, se nós olharmos para as funções do humor, para aquilo, para que o humor serve, no fundo, pelo menos para mim, assim, de uma maneira um bocadinho tosca, acho que a pessoa consegue dividir entre basicamente três tipos. Há um lado do humor que é um exercício intelectual, puro, e eu acho que tu és sensível a isto no sentido em que é um exercício intelectual como outro qualquer, como a poesia, como a matemática, como outra coisa qualquer do género. Há outro lado do humor que tem que ver com, que é um lado puramente emocional no sentido de nos dar uma emoção positiva que pode servir de estado paliativo em relação à tragédia, aquela história dos generais de que falavas ontem, pode servir de falar de tabus, por exemplo, coisas inomináveis e que de repente num contexto de humor podes falar sobre elas, uma série de coisas. E depois há ainda um lado, que é se calhar o mais importante de todos, sendo que estes três obviamente não deixam estar interligados, que é um lado social, no sentido de facilitar a cooperação em sociedade, facilitar o... Criar união entre as pessoas, também obviamente o lado de tu usares o humor enquanto poder sobre outras pessoas, obviamente, ou seja, no fundo tudo, o humor está presente em quase todas as interações sociais que nós podemos ter. E até se calhar, engraçado que começamos por aqui, porque a mais básica de todas e se calhar aquilo que é verdadeiramente o proto-humor, no sentido daquilo que veio antes do humor. Tem que ver com uma coisa que tu falavas ontem, antes de terminarmos, que é a história da brincadeira dos cães. O humor está muito ligado à brincadeira e a brincadeira é uma coisa que existe em quase todos os mamíferos. Sim,
Ricardo Araújo Pereira pt2
tem uma noção de jogo.
José Maria Pimentel
Exatamente, precede-nos por milhões de anos. O próprio riso tem 10 milhões de anos, ou quer seja, o riso precede a linguagem e o humor. E a brincadeira serve entre os animais, aquilo que dizias, entre os cães, aquilo tem basicamente duas funções. Tem, entre eles, eles estão a dizer eu não faço mal, eles estão a dizer, eles estão a treinar a interação social quando for a série e estão a dizer para fora não se preocupem que isto é uma situação passiva. E eu acho que o humor tem muitas vezes essa finalidade, que é tu estás numa situação e dizes, por exemplo, se tu estiveres acima, usando o humor, muitas vezes o humor auto-depressivo, podes te colocar ao nível da pessoa acima no sentido de numa situação em que tu és tido como autoridade. Exato, exato. Aliás, acho que tu usas isso muitas vezes. Imagina que estás a falar sobre um determinado tema, a intervir e para aliviar um bocadinho o ambiente mandas uma piada ou outra para a coisa fluir de forma mais fluida. Digo eu, não sei. Sim, pás, fazes muitas questões a tudo a tudo. Pois, faz sempre isso. Não
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faz mal, não faz mal. Em primeiro lugar, queria dizer que, sim, claro, há uma noção, os animais todos têm uma noção de jogo, toda a gente sabe isso, toda a gente tem gatos e cães, não precisa ser mais do que isto. Gatos e cães, percebe que os animais têm uma noção de jogo. Essa noção de jogo é diferente daquilo de que estamos a falar, acho eu. Por exemplo, quando aquelas autores de que falámos ontem, o Aristóteles, o Rabelais, o William Hazlitt, o Umberto Eco, dizem que o homem é o único animal que ria e como é óbvio referem-se ao riso humorístico e o riso humorístico que é aquele que me pagam para produzir, há vários tipos de riso, não é? Esse é específico, ou seja, por exemplo, os jogadores de futebol marcam um golo e riem-se. Ou, por exemplo, a gente tem 20 no exame. Festeja rindo, provavelmente. Mas esse
José Maria Pimentel
não é o riso que me pagam para produzir. E podes achar graça sem rir. Também tens o contrário. E também
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podes achar graça sem rir. A questão é, o riso humorístico é outra coisa. O riso humorístico é... Não sei se viste... Há um filme chamado A Guerra do Fogo, que é sobre homens primitivos, passa-se na pré-história, não é? E naquele momento em que aqueles seres começam a tornar-se humanos. E então os autores do filme fizeram lá uma coisa engraçada que é registram o momento em que eles começam a rir e o momento em que eles começam a rir é quando eles, lá aqueles seres meio amacacados ainda, estão reunidos e de repente uma pedra cai na cabeça de um e faz-lhe sangue. E ele, e a tribo dele começam a rir-se daquilo. Isso é interessante, porque é um tipo específico
José Maria Pimentel
de riso.
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É como diz no livro, há uma epígrafa do Beckett, que é uma personagem que aparece no Watt, acho eu, que diz, o riso, a gente ri do que é mau, do que está errado e do que é triste. São os três tipos, digamos, de riso humorístico. São esses. É do que é mal, do que é... A minha avó, não sendo do Beckett, assinalava sempre, tu só te risdo mal. Exato, exatamente. É isso. É disso que a gente... O riso humorístico é sobre isso. As comédias são... As comédias não são sobre filantropos. São sobre misantropos, sobre hipocondríacos, sobre... Os bons sentimentos não têm graça. Podem ser relativamente neutros, não é?
José Maria Pimentel
Falámos do Seinfeld há bocado. É relativamente neutro desse ponto de vista. Não necessariamente. Pode ser que é o que está mal.
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Eu concordo. O que estás a dizer é que, por exemplo, quando se diz, e é verdade, lá está mais uma daquelas coisas que a gente diz sobre o humor e imediatamente a seguir a gente diz, ah, então e... Que é, por exemplo, todas as piadas são feitas à custa de alguém. Ou seja, são... Não necessariamente. Sim, claro. Por exemplo, aquela frase do Groucho Marx que é Time flies like an arrow, fruit flies like a banana. É um jogo entre... Fruit flies like a banana, agora percebi. Sim. Portanto, é um jogo entre as palavras flies e like. As palavras flies e like têm significados diferentes na primeira parte da frase e na segunda parte da frase. Mas, essa frase, essa piada, que não é feita à custa de ninguém, no sentido em que uma piada de Alentejanos é, diríamos, à custa de Alentejanos. Essa frase aponta a uma lacuna, que aponta por exemplo à lógica, ou à linguagem. Ou o que essa frase diz é, atenção, a linguagem tem esta ambiguidade. Eu consigo explorar esta ambiguidade da linguagem. A linguagem não é inexpugnável. E, portanto, aí também há essa ideia de, olha, olha aqui um buraco por onde eu posso entrar. Uma imperfeição. E, portanto, certo. A questão é, o que Tu disseste, e eu sou sensível a essa escolha de palavras, que é as coisas para as quais o humor serve. E eu tenho muito pudor em dizer que o humor serve para coisas, no sentido em que uma esfergona
José Maria Pimentel
serve para coisas. Tem que servir-se, nós não tínhamos humor. Não tenho ideia disso. Não é 100% verdade. Pelo menos não teria o peso que tem.
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A minha questão é, para que é que serve a Mona Lisa? Para que é que serve uma sinfonia? Ninguém diz, então esta sinfonia para que é que serve? A
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sinfonia não necessariamente, mas a música sim.
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Certo, mas ninguém diz para que é que serve a Mona Lisa, ninguém diz para que é que serve este poema. Aquele
José Maria Pimentel
poema especificamente não, mas
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a habilidade de fazer poesia... Sim, mas eu não sei se servir é o verbo correto, não sei se é essa, se a terminologia é essa, ou seja, eu não sei se uma piada serve para alguma coisa desse ponto de vista? Há pessoas que acham que serve, que acham que serve, por exemplo, um propósito concreto, que é o de... Que esperam que a sua comédia transforme as coisas, transforme, ou seja, intervenha politicamente, digamos assim.
José Maria Pimentel
Sim, eu sei que tu tens uma visão...
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Sim, quer dizer, eu acho, quer dizer, neste momento, depois da eleição de Donald Trump, que foi eleito, digamos, à revelia de 99% dos humoristas americanos, eu, tirando, sei lá, o Dennis Miller talvez, todos os... Era óbvio, todas as noites aquela gente satirizou impiedosamente o Donald Trump. E a gente até pode supor que parte do sucesso do Trump se deveu a isso, paradoxalmente.
José Maria Pimentel
Sim, sim, sim. Sabes que eu já te ouvi falar sobre isso e lembro-me de, quando te ouvi falar sobre isso, que não estávamos presencialmente, eu não podia intervir, agora já posso. Lembro-me de pensar numa, de me interrogar se tu terias apanhado um episódio de um podcast do Malcolm Gladwell, que chama-se Revisionist History, acho que. Certo, sim. Ele é aquele tipo que tem um livro em que fala até daquela questão das 10 mil horas que tu citas
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muitas vezes. Sim, sei, sei.
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E ele tem um episódio do podcast em que ele fala exatamente sobre isso. Não sei, para ser honesto, se é pré ou pós-Trump, mas ele fala do papel da sátira e ele usou o exemplo da Thatcher, por exemplo, no Reino Unido e de como, paradoxalmente, lá está muitos comediantes, eu já não sei qual é o exemplo do comediante que ele usa lá, mas era um tipo que fazia uma personagem que imitava um daqueles novos ricos, no sentido de daquelas pessoas que tinham tido mais ascensão relativamente rápida durante o tempo em que a Thatcher teve no poder. E ele falava com esse tipo e ele... Já não sei exatamente quem é que explicava, mas no fundo a conclusão era que algo a usar com a Thatcher e algo a usar com aquelas pessoas que eram no fundo o paradigma daquele tempo, que seria, não é muito diferente do fenómeno que nós tivemos durante o cavaquismo, de repente as pessoas a ascenderem. Ele dizia, aquilo de certa forma estava a humanizar a Thatcher, em vez de a ridicularizar, estava a humanizar e estava a aproximá-la. E nos Estados Unidos eram esse exemplo, com o Trump e com a, com o Trump e quem o imitou que foi o... O Alec Baldwin. E com a Sarah Palin que foi imitada pela Tina Fey. E eles diziam que aquilo de certa forma está a humanizar
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aquela figura. É verdade, sim. Isso é muito interessante porque é... É contraproducente. Exato. Ou seja, o que é que o humor faz é que por um lado por um lado a gente pode dizer viste mas a tira mesmo a zeda sobre aquilo por outro lado também pode dizer é pá isto tira peso tira peso ao a figura satirizada e tirando peso ela torna-se mais fácil de suportar. A gente não devia deixá-la em paz para que o peso dela se tornasse insuportável. Uma vez eu tive essa...
José Maria Pimentel
E aproxima, desculpa interromper-te, aproxima, torna-se familiar. Sim,
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uma vez uma moça negra, eu tinha ido falar a uma universidade, e ela... Já contei essa história várias vezes porque é de facto impressionante e ela tinha razão, tinha razão neste sentido, que aí ela dizia, quando vocês puseram o cartaz do Marquês de Pombal a satirizar o cartaz dos nazis, A vossa intenção era satirizar o cartaz ou era chamar a atenção sobre ele? E sabes aquele murmúrio que percorre a sala quando as pessoas dizem, ah que disparate, então não era óbvio? Sim, sim, era óbvio, mas a moça tem razão. Não se prestou tanta atenção ao cartaz do PNR como desde que a gente pôs o nosso. Ou seja, a sátira tem sempre uma componente de homenagem. Porque reconhece a existência do objeto satirizado e mais do que isso, revela que o estudou pormenorizadamente. Ou seja, deu-lhe muita atenção. Revela que lhe deu muita atenção. E portanto, sim, as coisas são muito mais complicadas do que parecem, não é? Bom, já sei, como é que a gente vai atacar este tipo, corroer a sua fundação, os seus elicerces? Uma piada sobre ele. A piada sobre ele pode ter vários efeitos e às vezes simultâneos ou às vezes numa primeira faz um e numa segunda faz outro. Isso é interessante, sim. E
José Maria Pimentel
pode ter o efeito... Atenção, eu acho, não sei se tu concordas com isso, mas eu acho que pode... Eu não estou com isto a querer dizer que não pode ter o efeito, que não pode ter esse efeito que se tende a ver na sátira de deitar abaixo daquela pessoa. Eu julgo que pode ter. Sim, pode. Acho que é que muitas vezes na prática não tem, até porque há aquela questão de que tu estás a pregar aos evangelizados. Exatamente, é isso.
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A maior parte dos estudos que eu conheço sobre, por exemplo, o programa do John Stewart, vão concluindo que aquela ideia de que o John Stewart é muito influente, que até a gente de direita tinha, o Bill O'Reilly disse na segunda eleição do Bush, antes da segunda eleição do Bush, o Bill O'Reilly disse isto é triste, o mais triste disto é que tu vais ter uma influência clara nestas eleições. E depois não tinha razão, porque o Bush foi reeleito com mais 10 milhões de votos do que tinha sido eleito. E portanto, a grande influência que o John Stuart se dizia que tinha, Consubstanciou-se nisso, ou seja, no facto de ele ser não só reeleito, como com mais 10 milhões de votos do que na primeira vez. E a questão é essa. A maior parte dos estudos indicam que o Jon Stewart está a pregar a convertidos. Não há tipos que liguem para o Jon Stewart e digam Ah, de facto, eu estava enganado
José Maria Pimentel
Eu achava o Trump ótimo até ontem, não
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é? Exato, o Trump era ótimo, mas achava que sim, afinal não Sim, eu duvido que tenha esse efeito também por essa razão Além de que, por exemplo ainda no outro dia estava aí, não sei onde está agora, um livro chamado Fools are Everywhere, está aqui aliás, Fools are Everywhere, de uma senhora chamada Beatrice Otto, sobre a figura do bobo ao longo da história. Uma das histórias que ela conta é, eu acho que é em Rainha Vitória, que invetivava o seu bobo para ser mais duro com ela, mais azedo, faz piadas mais azedas. Porquê? Porque quanto mais o bobo fosse ofensivo, maior era o poder dela, mais se tornava óbvio que o poder dela era tão grande que ela até permite que este tipo seja agressivo a este ponto com
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ele. Exatamente, mas esse ponto é muito engraçado, porque essa é outra característica do humor, que acho que falámos um bocadinho ontem, que é... Ontem nós falámos da questão do humor poder ser uma forma de agressão, ou um micro-agressão, para usar aquela expressão da sociologia, mas dependendo de quem o faz, E por exemplo, nós falámos do humor daquilo que seria a agressão em causa própria, que era o humor autodepreciativo. O humor autodepreciativo pode ser, pelo menos parece-me, parece-me que pode ser numa pessoa, por exemplo, um miúdo na escola, naquela fase da pobredade, que é uma fase difícil e que não se afirma de outra forma, usar o humor autoapreciativo pode ser uma maneira de fazer os
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outros gostarem dele. Sim. E também uma forma de defesa.
José Maria Pimentel
De defesa, exatamente. Uma forma de protecção,
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que é, por muito que tu faças, não consegues fazer pior do que eu. Imagina que vais num beco escuro para transpor a questão para a violência física. Vais num beco escuro e vêm uns tipos que tu pensas, ui, vai haver zargata. Imagina que tu começas a agredir-te a ti próprio como naquele filme, acho que há um filme do Jim Carrey em que ele dá uma carga de pancada em si próprio. Pois é,
José Maria Pimentel
já estou a ver.
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Isso faz com que os outros digam, o que é que se passa aqui? O que é que se passa? As pessoas deixam de ter vontade de te agredir porque primeiro pensam, há aqui alguma coisa relativamente perigosa neste tipo, isto é bizarro, é desarmante, Aquilo é desarmante. Ou seja, se tu és capaz...
José Maria Pimentel
Sim, desarmante é a palavra certa.
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Se tu és capaz de fazer uma piada sobre ti próprio, o que é que deixas para os outros? Como é que os outros vão... Ah mas eu acho que tu não sei o quê... Sim, sim, e além disso mais ainda. Ou seja... E
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faz-los rir também. Exato. Estás a fazê-los rir. São as duas coisas, acho eu, não é? Sim, as duas. Por um lado estás a provocar uma emoção positiva na outra pessoa, que acha que ela gosta mais de ti. E por outro lado estás-te a defender...
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Exato. Eu percebo que seja contra-intuitivo, mas lá que é eficaz.
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E o engraçado disso é que depois o outro lado, que é... Viste o engraçado? A expressão? Sim, sim, sim. Assim usa-se às vezes, engraçado, no sentido de interessante. Sim, aliás, vou fazer aqui um parênteses sobre o perigo de me esquecer de um dia, mas aquela hipótese do Dennett e do outro tipo que eu falava ontem. Do seu discípulo. Do seu discípulo, porque na verdade é o primeiro autor do livro. É o Matthew Hurley, é o nome dele. Devia tê-lo nomeado em primeiro lugar porque ele é o primeiro autor do livro. Aquilo surgiu-lhe porque ele se apercebeu que em várias línguas, inclusivamente no português, a palavra engraçado, tem graça, que giro, e palavras mais ou menos análogas, surgiam muitas vezes em situações aparentemente não humorísticas. Situações esquisitas e pássaro, mas não humoristas. Quer que tu chegas a casa e vezes uma coisa fora do seu sítio, tipo, era aqui engraçado, não me lembro disto aqui, estava aqui ontem. E foi daí que eles partiram para a função mais cognitiva do humor, percebendo, porque a língua muitas vezes é uma maneira de estudar isso, não é? Porque a língua é um processo orgânico que é um reflexo de várias coisas, da nossa cognição conjunta enquanto sociedade. E foi exatamente por isso. E eu, por exemplo, noto muitas vezes no podcast que eu uso a expressão é engraçado, é giro, às vezes até em coisas que a partida não teria... A falar de situações, sei lá, eu posso estar a falar de racismo e dizer, pois é, é engraçado.
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Coisas que não têm graça nenhuma. Fazer
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uma pausa e dizer engraçado, que é curioso. Mas eu achei esse um ponto interessante porque mostra que há, o facto de nós usarmos a palavra engraçado noutras situações, mostra que há ali um contínuo de engraçado humoristicamente, é um engraçado que nos dá que pensar,
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que é mais ou menos curioso. Mas lá está, esses efeitos que eu acho que o humorista não controla, o humorista não faz ideia do efeito que aquilo que está a fazer vai ter. Há várias, quer dizer, estou farto de contar histórias sobre isso, mas há várias. Uma vez que a gente não controla esse efeito, o melhor é focarmos na única coisa que eu acho que me interessa a mim, que é, isto tem ou não tem graça? Tem. Então vamos a isso. Mas vais arriscar chamar a atenção sobre o cartaz do PNR. Está bem, mas tem graça.
José Maria Pimentel
É um efeito colateral que, em certo sentido, não é tu que tens que exigir. E
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eu acho que esse efeito colateral também não é assim, nunca é tão, mesmo a atenção que nós chamamos sobre o PNR a ser verdade isso, que efeito produzido.
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Mas tu não achas que, por exemplo, mas isso não tem a ver com o humor em si, tem a ver com quem faz. Por exemplo, no caso dos Estados Unidos, que nós falávamos do... Depois tenho que voltar à história da Rainha Vitória, que era onde eu... Sim, for�a a ver. No caso dos Estados Unidos, que nós falávamos há bocadinho, há uma grande endogamia entre as pessoas que fazem humor. Pois é. Ou seja, é um microcosmo. Exato. E faz com que eles estejam, no fundo, a fazer coisas para eles próprios e a pintar uma personagem do Trump que muitas vezes tem um tal grau de exagero que pode acontecer que a pessoa média aqui estamos a falar da pessoa média que não é nem o pro-Trump nem o anti-Trump a pessoa média olha para aquilo e diz epá, esse gajo também não é assim tão mal. Que exagero. E há esse risco, e já não tem só a ver com o efeito colateral, tem a ver com a miopia, uma miopia que deriva do facto de serem pessoas que pensam que têm uma determinada maneira de viver e que é muito parecida.
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Sim, e é uma, digamos que é uma perversão relacionada com a... Ela está se calhar com um excesso de entusiasmo em provocar um determinado efeito. Se calhar a avalanche de comédia, muita e muito violenta sobre o Trump, pode ter provocado esse efeito. Quem é que pode
José Maria Pimentel
garantir que não? Até porque tu não tens humor. Entre outras coisas, ali a personalidade tem um efeito de grande personalidade de quem faz, de quem faz a comédia. Tu não tens humoristas, não tens praticamente humoristas de direito. Não, exatamente. Porquê é que te fizeram esta pergunta? Ah,
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ali, olha, tenho ali uma coisa chamada A Conservative Walks Into A Bar. É um livro de uma senhora que está precisamente debruçada sobre essa questão. Sobre porquê que a generalidade dos humoristas são de esquerda, havendo vários de direita são uma clara minoria E ainda fazendo uma pergunta que é interessante, que é, uma vez que, digamos, o establishment cómico é de esquerda, se a rotura não seria ser, Ou seja, se a transgressão não viria de um comediante
José Maria Pimentel
de direita,
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se a comédia é também transgressão e dizer aquilo que não se está à espera que seja dito, se não é contraproducente que num meio em que toda a gente é quase unanimemente de esquerda, a gente junta as nossas vozes.
José Maria Pimentel
Eu acho que tens um bocadinho isso. Quer dizer, nos Estados Unidos, que é sempre aquele macrocosmo de onde é fácil ir buscar essas coisas. Tu tens alguns humoristas que de uma maneira mais séria divergiram um bocado disso. Toma a lembrada do caso do Dave Rubin, que eu não conheço muito como humorista, nem sei se ele é grande humorista, mas é um tipo que agora tem feito uma espécie de talcochoso, não sei se apanhaste.
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Não conheço, não.
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E que virou para uma... Não é bem de direita, direita liberal, se tu quiseres. Não é propriamente a direita conservadora. E depois tu tens... Nós ontem falávamos da questão do... Tu até fazias aquela analogia que é muito bem esgalhada da história da tirar uma maçã ao rei ou a tirar uma maçã a uma pessoa qualquer. À partida tem mil vezes mais piada a tirar ao rei, mas tu dizes atenção que há aquele, ninguém a tira a maçã de repente passa até muito mais piada a tirar ao
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outro. Exatamente, ou passa também a ter piada. Exatamente, e se calhar até mais do que ao rei
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porque ao rei tu já podias. E eu acho que tu notas isso do ponto de vista dos digamos das causas identitárias tu tens muitos humoristas rebeldes que pegam por aí e isso é o efeito perverso porque eu acho, não sei se tu concordas com isso, mas eu acho que havia temas, por exemplo relacionados com diferença entre sexo, homossexualidade, uma série de coisas, que estavam a fazer o seu caminho de deixar de ter graça, porque as coisas depois deixam de ter graça, quando se vão resolvendo socialmente e de repente parece que voltam a ter
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piada por serem subversivos. Porque de repente é sagrado. Se de repente é sagrado, se de repente um tema, um grupo de pessoas se torna sagrado, intocável, volta a ser
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engraçado transgredir. Eu acho, por exemplo, no treino estava a haver uma espécie de Louis CK, que eu não sou o grande especialista em humor, digamos assim, especialista no sentido de, não sou nada aquela pessoa que conhece tipo 100 stand-up comedians e coisas do género. Mas daqueles que eu conheço, continuo a achar o Luís Iquei o mais completo. Acho que ele usa um bocadinho as neiras em exagero, para mim a partir de certo ponto já não acrescenta, mas acho um tipo brilhante. Ele tem um ponto, ele tinha lá uma parte em que ele usava a palavra nigger. Nos Estados Unidos ninguém usa, um branco não usa. Nós estivéssemos a gravar isto nos Estados Unidos, teríamos que estar a dizer de um jeito ou outro. Como estamos em Portugal e ninguém nos percebe, podemos fazer isso à vontade. E ele, um tipo que é branco, usa a palavra várias vezes. Sem nenhum rebuço. Exatamente, sem nenhum rebuço, à vontade, mas ao mesmo tempo capitalizando no facto de a audiência, a partir do momento em que ele lisa a primeira vez, o que é que está a pensar? Opa, este gajo está a andar ao pé coxinho, vai-se estampar ou não? Será que ele consegue chegar? Olha agora sem braços, agora sem pernas, será que ele consegue? E depois é que ele tem muito mais
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piada. Ou seja, isso joga com... Ou seja, eu acho que o atual ambiente de alguns interditos, de algum puritanismo do género... Essa palavra... Então diz-se essa palavra, menino. Então faz-se piadas sobre essa pessoa. Esse ambiente é muito vantajoso para nós, é muito vantajoso porque quanto mais interditos as pessoas forem instituindo melhor, não é? Melhor. Mais divertido se torna dizer aquilo que é inapropriado. A metade das coisas que eu digo à mesa de jantar que fazem rir as minhas filhas são porque elas não esperam que o pai, a figura do pai, diga um disparate daqueles. Diga uma coisa inapropriada daquela maneira.
José Maria Pimentel
Numa sociedade amoral e sem hierarquias, provavelmente não haveria humor. Exatamente. É possível. Ou pelo
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menos não haveria a grande parte dele. Sim. Assim como, por exemplo, se a religião católica não me tivesse feito o grande favor de considerar o sexo pecaminoso, eu provavelmente não me divertia tanto na cama. Quer dizer, a ideia de que aquilo que eu estou a fazer é... É aquilo que o Woody Allen diz, não é? O sexo é sujo se for bem feito. Sim, a ideia de que aquilo é de algum modo transgressor, é claro que acrescenta gozo à prática. E portanto, sim, eu acho que isso é... Por exemplo, a Sarah Silverman contou uma história na sua autobiografia, muito engraçada, que é... Ela vai fazer stand-up a um programa de televisão. Antes de ir para o ar, ela tem de mostrar aos produtores do programa o que é que vai fazer. E ela tinha uma piada que era assim, ela disse, eu tenho de ir fazer, fui convocada para ser jurada, ou seja, fazer jury duty, ou seja, tenho de ir a um julgamento e ela me chateasse, tenho de ir a tribunal, lá, júri, não sei o quê, ela não quer, é chato, não quer ser jurada. E então, uma amiga minha sugeriu que eu, na carta a responder, eles fazem umas perguntas sobre a pessoa, na carta a responder, eu dissesse uma coisa absolutamente inaceitável, que eles dissessem, pá, esta não pode ser jurada, então a minha amiga sugeriu-me que eu escrevesse I hate niggers. E a Sarah Silverman dizia, pá, eu como é óbvio não seria capaz de fazer isso e por isso escrevi I love niggers. Esta piada é sobre a Sarah Silverman, é sobre o facto da Sarah Silverman não perceber que a frase I love niggers não é muito diferente da frase I hate niggers porque a palavra niggers contamina o resto. Porquê que ela usa a palavra niggers? Porque há abominação completa. Ela precisa... A piada não tem nada a ver com racismo. Ela precisa de uma piada que simbolize a abominação. Porque só aí é que a frase se torna tão má com o verbo love como era com o verbo hate. Os produtores do programa disseram, alto, desculpa o senhor não pode dizer niggers, porque é que você não diz, e ela diz, então como é que eu faço esta piada? E eles dizem, porque é que você não diz dirty jew? E ela diz, eu não digo dirty jew porque eu sou uma dirty jew, isso não tem graça. E então chegaram a uma posição de consenso, que era chinks. Chinks deve ser o nosso equivalente a chinoco, uma palavra desagradável, pejorativa para asiáticos. Qual é o problema? É que não tem a mesma graça, não porque se refira a chineses, é porque não tem o peso, não tem a carga negativa da palavra nigger, é a única razão. Resultado, ela disse a piada com a palavra chinks, a piada tem menos graça com a palavra chinks do que teria com uma palavra mais grave e ainda assim foi alvo da fúria das associações asiáticas de defesa dos direitos asiáticos, etc, etc. E isso é engraçado porque, lá está, é não compreender sobre o que é que a piada é, é não perceber que naquele contexto uma determinada palavra está a ser usada com uma determinada intenção e não com outra. E pronto, é isso. Eu acho que, em princípio, também tem a ver com isso, que quando se fala de liberdade de expressão e não sei o quê, haja vários humoristas a, como disseste, a reagir a essa questão. Não é por uma questão corporativa, é por de facto profissional, quer dizer, é porque de facto o discurso humorístico é um âmbito tradicionalmente mais amplo, em que os limites são mais elásticos do que eram antes.
José Maria Pimentel
É porque aquele fruto torna-se mais fumarento. Do
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que eram antes não, do que eram noutro tipo de discurso. Do que são noutro tipo de discurso. E porque aquele fruto torna-se mais fumarento com aquela... É isso. Diz-lhe isto, desculpa. Era só uma nota que é. No outro dia fiz um exercício Engraçado. Lá está, engraçado. Exato. Que é o seguinte, tu vais... Hás de reparar numa coisa. Põe no Google a frase, entre aspas, que é para te aparecer exatamente aquilo, entre aspas põe a sacro santo da liberdade de expressão. E tu vê, aparece-te um friso de pessoas que usa essa expressão e depois para confirmares que o exercício é válido põe o sacrosante antirracismo e a sacrosante a identidade de género e vais ver o tipo de pessoas que dizem isso. Torna muito claro que sempre que alguém usa, ironicamente, a expressão o sacro santo de qualquer coisa, a pessoa que escreve isso não tem nenhum apreço pelo qualquer coisa. Mesmo que diga, não, não, eu sou a favor da liberdade de expressão, mas isto agora com a sacrosante da liberdade de expressão, assim como eu sou a favor da igualdade de género, mas isto agora com a sacrosante da igualdade... Tu vês, imediatamente, por muito que a pessoa diga, não, eu sou a favor, a favor. Até tenho amigos. Até tenho amigos, mas realmente agora o sacrosante antirracismo, uma pessoa, é muito interessante. É
José Maria Pimentel
um exercício que eu recomendo, recomendo. Agora vou fazer isso quando estiver
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a editar o episódio.
José Maria Pimentel
É assim uma coisa fácil. Ainda em relação a isso que estávamos a falar, eu não sei se tu notas ou se partilhas esta perceção, sendo que tu fez isto de dentro, de quem tem esse ofício, mas parece-me que há temas que fizeram o caminho inverso, que eram temas muito apetecíveis, lá está, frutos muito sumerentes, para usar a mesma analogia de antigamente, e que por terem, mais ou menos, deixado de ter que eu os defendesse, deixaram de ter, deixou de ter piada a pegar neles. Um deles, por exemplo, parece-me a Igreja. Exato, mas também tem a ver
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com o facto...
José Maria Pimentel
Deixou de ter piada é um exagero, passou o tempo, não tem tanta piada. Sim,
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Eu suponho que se o sketch da última ceia do Herman fosse hoje, em princípio não teria
José Maria Pimentel
provocado aquilo que provocou.
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Também porque me parece que a igreja já aprendeu. Eles perceberam que é uma luta que a gente não ganha. Acabou-se a paciência. Paciência. Quer dizer, isso tem um lado positivo. Há vários, por exemplo, há temas humorísticos clássicos que deixam de valer por várias razões. Por exemplo, sogras. A figura da sogra é um desapontamento, se tu hoje fores a um bar e o stand-up comedian que sobra ao palco comece, realmente isto é da minha sogra? Ou ele tem uma perspectiva completamente nova e refrescante sobre aquilo que provavelmente vai ter de atacar o problema das sogras ao contrário ou não sei como ou cheira tabafio imediatamente.
José Maria Pimentel
Está muito batido.
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Sim, por um lado isso, ou seja, temas que... Isso nota-se por exemplo na... Houve um tempo que se calhar ainda perdura que é aquela gente que faz as traduções dos títulos dos filmes, filmes ingleses que sempre que são comédias havia a tentação de pôr a palavra chanfrado no título. Seguia por chanfrado, dois chanfrados em viagem. Ou seja, a palavra chanfrado foi usada tantas vezes num contexto humorístico que ficou a gasta para ser usada lá está, nesse contexto. E sempre que tu ouves uma pessoa dizer, é pá, este tipo é realmente completamente chanfrado, pá, tu sabes imediatamente que aquela... Tadatado. É isso. Ou seja, há várias maneiras das coisas perderem força enquanto tema humorístico e também de ganharem força enquanto tema humorístico. Quer dizer, se tu instituires que o ping-pong é sagrado Eu nunca fiz nenhuma piada sobre pingue-pongue, mas quer dizer, se é sagrado... Aliás, é possível que o facto de eu ter dito pingue-pongue agora, motive uma carta a dizer Atenção, é ténis de mesa que se diz e realmente é uma pena que tantos anos depois de nós na associação de ténis de mesa termos pognado pelo ténis de mesa, continue a dizer-se ping-pong e ainda por cima pessoas num podcast que deviam ter outros cuidados.
José Maria Pimentel
É possível. E assim remete-se a uma certa xenofobia em relação aos asiáticos.
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É possível, é.
José Maria Pimentel
Vamos tentar fechar aqui os parênteses que tínhamos abertos. Está a ser uma questão difícil.
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Pois é. Sabe o que é curioso da conversa sobre humor? É que tu fazendo uma reflexão sobre o humor começas a passar por vários outros temas, pela história, pelo modo como... Há um livro que eu nem sequer acho muito bom, aquele livro do Jorge Menoas que se chama História do Riso e dos Cárnios, e aquilo realmente atravessa os tempos, o modo como as pessoas, como o carnaval medieval, por exemplo, é um tipo de riso e como mais tarde é outro. Aliás, uma das coisas giras é tu acompanhares o livro e o autor dizer várias vezes. E depois o riso morreu na Idade Média, a morte do riso. Depois, vários capítulos mais à frente, e a morte do Riso depois, não sei quando. E a morte do Riso hoje, hoje, não sei o quê. O Riso morre várias vezes. Ah,
José Maria Pimentel
ele tem uma visão cíclica,
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é? Sim, sim, vai morrendo. Eu não sei se ele percebe que mata o Riso várias vezes ao longo da história, mas sim. O Riso morre várias vezes ao longo do livro. Ah, já sei.
José Maria Pimentel
Falámos há bocadinho da história dos humoristas de serem tipicamente de esquerda. Certo. Tu tens alguma explicação em relação a isso? É
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possível que uma das explicações, mas isso não explica tudo no sentido em que nem sempre o poder é exercido pela direita. O que eu vou dizer é que, em princípio, a comédia é contra poder. E não é por razões ideológicas, nem políticas. É por razões humorísticas, por causa daquilo que a gente disse. Vamos indo agora sim? Sim, uma das coisas que eu noto é sempre que a gente tem um programa destes no ar, há uma massa de público que se está borrifando para isso, que são aqueles para quem eu trabalho. Mas há um segmento que são, por exemplo, as pessoas fanáticas do... Fanáticas quer dizer, as pessoas que estão empenhadas politicamente na vitória do PSD e ou da direita e as que estão empenhadas politicamente na vitória do PS e ou da esquerda que me acham muita graça quando os de esquerda acham muita graça quando o PSD está no poder. Muito giro isto que ele disse do Passos Coelho. Muito giro. E nenhuma quando o PSD está no poder. Então valia a pena dizer isto do Sócrates. Então isto fala-se assim, do engenheiro. E isso eu noto que é uma espécie de eleitorado flutuante, que é, não estão interessados em comédia, estão interessados em política. O que eles querem é que eu diga aquilo que eles acham que vai ter o efeito que eles desejam. Ou seja, se eu criticar o Passo Escoelho, olha, ótimo, ótimo. Ou então, ah pá, que malandro. E depois troca. Quando o governo muda, troca. Como maioritariamente eu falo do poder, mais do que... Quer dizer, para que é que eu vou falar... Eu percebo que há, de repente, há assim umas modas. Por exemplo, a Fanny. Eu nunca fiz uma piada sobre a Fanny. Eu não sei exatamente quem é a Fanny. Não pertence ao meu mundo. Mas de repente eu percebi-me que havia uma espécie de... Mas é aí a fãnia, é piada só para fãnia. Por exemplo, eu sei que o Nuno Melo é um alvo frequente em determinados humoristas. Eu não tenho interesse no Nuno Melo. Quer dizer, o António Costa, que é Primeiro-Ministro de Portugal, sim, tenho interesse nesse alvo. Para eu falar do Nuno Melo, que nem sequer é a principal figura de um partido que não chega a ter 10% dos votos, primeiro que eu chego ao Nuno Melo vai levar muito tempo. Eu acho
José Maria Pimentel
que Nuno Mello tem a ver... António Costa é um tipo que é, sendo Primeiro-Ministro, é relativamente relaxado e relativamente informal para Primeiro-Ministro, o que significa que não possui algo... Ou possui a menos para o cargo, do que a menos faça a pessoa típica daquele cargo, algumas características. Eu acho que o amor tem a ver com duas coisas. Tem a ver com autoridade, com mexeres com a autoridade, ou seja, aquilo que tu não podes tocar porque é autoridade. Com certeza. E mexeres naquilo que é puro, falámos há bocadinho. Exato. Não falas de sexo, porque sexo é impuro, não é? Não falas de uma série de outras coisas. Acho que o Nuno Melo tem aquele ar... Tem aquele ar... Como é que se diz? Não
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é bandzandi, mas é um... Tem várias
José Maria Pimentel
características...
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Com potencial humorístico, não há dúvida. E nós falámos do Nuno Melo, agora nas europeias, em que ele finalmente é protagonista de alguma coisa, falámos do Nuno Melo. A questão é, epá, o Nuno Melo não é uma... Está muito para baixo na minha lista de alvos preferenciais. Assim como às vezes as pessoas... Era aqui o que eu queria chegar. Há muitas vezes as pessoas, lá está, desse quadrante de pessoas que estão mais interessadas em política do que em sátira e que pertencem ao espectro da direita, uma das acusações frequentes é, pois, pois, sobre o Cavaco, imensas piadas. Sobre o Francisco Louçanha, que já não há muitas, não é? É, é, por razões que não são ideológicas, são humorísticas. O que é que tem mais graça? Falar de um tipo que durante 10 anos foi primeiro-ministro e durante outros 10 foi presidente da república ou de um tipo que foi coordenador de um partido que não tem 10% dos votos. É óbvio que o alvo preferencial vai ser o Cavaco. Eu também fiz piadas sobre o Lucena, mas muito menos do que fiz sobre
José Maria Pimentel
o Cavaco. Eu não sei se o partido de 10% tem menos piada. Isso é uma variável,
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claro. É claro que é uma variável, porque quanto mais poder, mais piada.
José Maria Pimentel
O PNR tem 0.2% ou lá o que é.
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Sim, mas lá está. Lunáticos têm graça, sim. Mas eu também não estou debruçado sobre o PNR. Eu até te devo confessar que às vezes ponho-me a pensar a gente devia ter feito aquilo sobre o PNR. Não posso dizer que esteja arrependido.
José Maria Pimentel
Mas não estás em paz completamente.
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Não, não, estou em paz porque lá está, porque tenho relativa descontração, relativamente aos efeitos nefastos que aquilo poderia ter criado e que eu acho que foram zero. O TNR continua com os seus firmes, 50 mil votos que sempre teve. Não teve mais nem menos por nós termos falado neles. Mas a questão é essa.
José Maria Pimentel
Sim, não aconteceu, mas no caso do Trump falasse disso. A candidatura surgiu dele na secção de entretenimento. E ele acabou por ter uma cobertura muitíssimo maior do que um candidato normal. Não, não, não. A cobertura muitíssimo maior do que um candidato normal, claramente foi benéfica para ele. É verdade. Ou seja, esse trade-off existe, acho eu. Existe. No caso do PNR, claramente não teve efeito. Não, mas eu
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acho que isso aí, no caso do Trump, eu não sei se é tanto culpa dos humoristas ou das próprias médias, porque os próprios médias é que abordaram o Trump dessa maneira. Primeiro na secção de entretenimento, foram os médias que o puseram. Primeiro na secção de entretenimento e depois, quando o tiraram da secção de entretenimento, eu acho que o trataram de uma maneira que facilitou que acontecesse aquilo que, já não sei que analista é que disse, que era, os apoiantes do Trump levaram-no a sério sem o levarem à letra e os opositores levaram-no à letra sem o levar a sério. É possível que o Mode, como a comunicação social o tratou, e ainda trata, porque eu concedo que é muito difícil. Aquela personagem é tão fora do vulgar que eu percebo que as pessoas não saibam como é que se lida com ele. Sim,
José Maria Pimentel
eu acho que o fora do vulgar... Sim, é... Quer dizer, eu partilho a tua visão que a função do humorista não deve ser pensar essas essas segundas variáveis. É isso. Ou seja... Deve estar
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preocupado com o seu trabalho que é este engraçado exatamente deve estar preocupado o que
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não quer dizer que isso não seja um problema interessante de discutir mas não acho que seja uma responsabilidade do humorista para foi isso mesmo no caso do Nuno Melo acho que tem também um bocadinho que ver com isso à bocado falava da questão da autoridade da pureza e há uma terceira variável parece-me que eu não disse à bocadinho que é a questão do grupo que podes dizer também como ser diferente ou ser parecido connosco. O Nuno Melo corresponde a um tipo de personagem que tem ali um lado meio elitista, um lado de... Parece de outro tempo, não é? Vão todos para os polícios de calças bege e blazer, não é? Sim, e nós assim alabamos isso. E esse lado é engraçado. É,
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é, é, eu acho é que a combinação... Sim, que a gente está aqui a personalizar muito. Sim, é isso, é isso, mas o que eu acho é que a combinação desses fatores todos, ou seja, a proeminência juntamente com a bizarria, juntamente com o... Não é o suficiente para a gente fazer mais do que aquilo que fez. Que foi, quando ele foi protagonista de umas eleições, quando ele era o candidato principal do seu partido, a gente falou dele. Em geral, não falamos muito dele. Porque ele de facto não...
José Maria Pimentel
Eu acho que também... Eu imagino que, Tendo em conta que quem faz comédia tende a estar mais à esquerda, há um lado de... Tu também gostas de gozar com pessoas de quem não gostas. Isso é normal, não é? Portanto isso traz o seu peso e no trabalho também...
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Por acaso é engraçado porque às vezes há pessoas que dizem assim Não, eu só faço piadas com as pessoas de quem gosto. Epá, não me lixem, não é verdade. Não é verdade, portanto... Como assim? Não faz sentido, não faz sentido, não é verdade. Não, só se brinca com pessoas de quem a gente gosta. Não, não é verdade. Não é verdade, por exemplo, o grande ditador do Chaplin, o Adenoide, portanto, o ditador chamado Adenoide Henkel, ou como é que é, ele não gostava do Hitler de certeza absoluta. O Mel Brooks também, os producers, ele também não aprecia. Embora
José Maria Pimentel
tenha aquela questão de ser uma homenagem de certa forma, não é? Não é por te gostar,
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é por ser fascinante de alguma forma. Há um facto interessante, parece que é um facto, há um tipo, um estudioso da matéria que teve acesso aos registros que havia naquela casa, aquele palácio onde o Hitler habitava. Na floresta? Sim, que tinha uma sala de cinema para meia dúzia de pessoas e os registros indicam que o Hitler viu em dois dias seguidos, viu duas vezes o grande ditador do Chaplin. Viu duas vezes. E sim, o exercício é pensar o porquê. Porquê que ele viu duas
José Maria Pimentel
vezes?
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Porquê que ele quis ver aquilo? O que é que ele quis ver na segunda vez, aliás, essa dúvida inquietava o próprio Chaplin, dizem que o Chaplin dizia adorava saber o que é que ele achou.
José Maria Pimentel
Imagino, imagino, sim.
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Adorava saber o que é que ele
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achou. Eu no lugar dele também. Isso tem muita piada. É engraçado. Então, lá está aquilo. Para um lado era uma homenagem, não é? Que ele devia lhe afagar o ego de uma forma perversa. Mas por outro lado... Aliás, é curioso que o filme... Eu não
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sei se houve uma ocorrência divertida que foi... Tenho noção que o filme estava a ser exibido em França, provavelmente já na altura da ocupação nazi, mas ainda... Enfim, pelo visto ainda havia algumas... O filme está a ser exibido no cinema e há alguns oficiais nazis que se levantam e puxam da pistola e disparam para o ecrã. Eu gosto muito dessa imagem de disparar tiros para uma imagem, ou seja, para uma coisa que não é, em princípio, ferida por balas. Antropoformizar. Sim, ou seja, são pessoas que acham que o símbolo é a realidade e portanto vale a pena disparar sobre ele. E isso
José Maria Pimentel
mostra a força do símbolo.
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Sim, mostra, mas também mostra a estupidez do tipo que dispara. E essa ideia de disparar sobre...
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Parece como um teclado. Sim, sim, eu
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sei. Não é muito diferente. Mas lá está. Mas essa ideia de disparar balas verdadeiras sobre um símbolo, apatetice
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que isso constitui, interessa-me. Acho que era isso. É muito bom, é como a questão da bandeira, não é? Pisar a bandeira, não pisar a bandeira. Sim, é isso. Olá! Gostam do podcast? Se quiserem contribuir para a continuidade deste projeto e juntarem-se assim à comunidade de mecenas do 45°, podem apoiá-lo através do Patreon desde 2€ por mês. Visitem o site em www.patreon.com, escreve-se P-A-T-R-E-O-N, barra com 45° e vejam os benefícios associados a cada modalidade de contribuição. Desde já obrigado pelo apoio, mas para já voltamos à conversa. Esta questão do... Que estávamos a falar dos humoristas serem ou não mais de esquerda ou de direita eu acho que tem a ver com... Pelo menos essa é a explicação que
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eu dou. Ah, desculpa, só para terminar. Eu acho que talvez seja disso, ou seja, pelo menos a impressão que a gente tem é disso, da comédia ser anti-poder. Sim,
José Maria Pimentel
está relacionado com isso, está claramente relacionado com isso, se estás a dar razão, eu acho que está... Que é um degrau, indo um degrau abaixo disso, tem que ver com a... Eu pus muitas vezes para este tema, porque é um tema que me interessa, tem a ver com uma questão de personalidade, ou seja, e tu consegues ver, por exemplo, a relação da personalidade com as preferências políticas. E eu acho que a relação com a política não é muito diferente. Basicamente há um modelo mais usado de personalidade, que é estudado academicamente, é o chamado modelo dos cinco fatores, em que, olha, curiosamente, baseia-se no que eles chamam de hipótese da língua ou uma coisa do género, que tem a ver com a questão do engraçado e do engraçado refletir a maneira como... A utilização de engraçado em situações sem aparente graça, refletir a maneira como as pessoas pensam, da mesma forma o nosso léxico foi criado para refletir impressões que nós temos em relação à personalidade das outras pessoas, não é? Portanto, tu fazendo no fundo inquérito depois consegues isolar ali, no caso, cinco dimensões e há duas que são muito interessantes para isto. Uma, que se calhar é mais interessante de todas, que é normalmente chamada conscienciosidade, tem que ver com o teu gosto pela ordem, pelas coisas organizadas, visíveis e hierarquizadas, estruturadas. Facilmente se vê que alguém que cumpra estas características dificilmente terá muito humor e, sobretudo, nunca será humorista, quase impossível. Por isso é que será uma pessoa muito organizada. O teu caso também não está má, mas a casa dos humoristas sejam muitas vezes um bocado desarrumadas. Sim, mas também há humoristas
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com um distúrbio obsessivo compulsivo. Acho que é possível identificar isso. Mas se calhar virado para algumas coisas... Não sei, não sei. Eu acho que... Mas isso, eu ia estar-vos a concluir
José Maria Pimentel
essa teoria. Ah, sim. Esta é uma das dimensões. E outra das dimensões é o que se chama normalmente abertura à experiência, que não é um grande termo, eu acho que eu gosto mais de chamar de abertura intelectual e abertura de sensibilidade, se quiser. Ou seja, tem que ver com o teu gosto por ideias, mas também com o teu gosto por arte, tipo literatura e uma série de outras coisas. O que significa que tu estás aberto a que acontece a experiência, a experiência no sentido mais intelectual da coisa. Não só necessariamente, mas com no fundo abrir o teu cérebro a novas possibilidades. E o trabalho de humorista também é muito disto, quer dizer, por exemplo, a história do fruit fly, não é
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dizer... Como é que era? Sim, time flies like an arrow, fruit flies like a banana. De género, já pensaste que... E a maior parte das pessoas nunca pensou nisso. Exploração de ambigüidades.
José Maria Pimentel
Exatamente. A maior
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parte das pessoas está, aliás, treinada para fazer o exercício inverso, que é para ignorar as ambigüidades. O que é muito mais eficiente. Exatamente. Acho que é para isso que nos treinam na escola. Exatamente, sim,
José Maria Pimentel
há muito quem fala disso. E eu lembrei-me a propósito disto, aliás, de uma coisa que tu deves conhecer, que é uma intervenção do John Cleese no... Nem sei onde é que é, aquilo é alguma coisa relacionada com uma empresa qualquer. Sim. Em que ele está a falar de criatividade. E... Foi um amigo meu que me mandou agora quando lhe disse que te entrevistava o podcast eu achei muito apiado, eu curti um bocadinho daquilo que é uma parte em que ele fala até uso na descrição do podcast em que ele fala da diferenciação entre sério e soleno não ser a mesma coisa, que é muito bem esgalhado
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ele tem um passo na autobiografia dele, aquela chamada So Anyway, em que ele diz o seguinte, ele diz que tinha dificuldade em entender-se com uma espécie de reitor da escola em que ele andava, porque o reitor não compreendia que era perfeitamente possível manter uma discussão séria em que ambas as pessoas apresentam os seus argumentos humoristicamente. E isso para o reitor era absolutamente impensável. Ele achava que uma discussão séria tinha de ser solena e que apresentar argumentos de forma humorística necessariamente não era séria.
José Maria Pimentel
Ele achava que era desestruturado, que era desordenado?
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Sim, que é outro tipo de coisa. Não era... Não é ali. Sim, as pessoas estão... Não estão de facto a discutir. E eu acho que isso são de facto duas maneiras diferentes de ver. Eu não sei aquilo que atravessa, acho eu, pelo que eu tenho notado, aquilo que
José Maria Pimentel
atravessa,
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se há um traço comum, ou seja, eu acho que os humoristas são pessoas tão diversas umas das outras como em qualquer outra profissão. Também há canalizadores de todas as estirpes. Eu acho que provavelmente a única... Se há um traço comum, tem a ver com... E talvez seja por isso que haja tantos humoristas judeus. Esta, pelo menos, foi a teoria que eu apresentei à Esther Mouzenik quando tive a oportunidade de falar com ela.
José Maria Pimentel
Tenho que ir ver, tenho que ir ouvir o episódio, já não lembro o que é que
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ela disse quando lhe perguntei isso. Também já não lembro do que ela me respondeu mas provavelmente dela deve ter pensado este gajo é parvo, é capaz, eu estou muito habituado a essa tipo de reação se perguntaste
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antes de mim fizeste-me um favor, porque quando lhe perguntei ela já estava a espera e pois a minha questão é, eu acho que
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não pode ser coincidência que haja uma incidência tão elevada de judeus no mundo da comédia e portanto a sensação que eu tenho é a seguinte é aquilo que estrutura digamos ou desestrutura uma personalidade humorística é a rejeição. Seja uma rejeição deliberada ou acidental. No caso dos judeus, o facto do pai não gostar deles, ou seja, o deus dos judeus, não é, acho que não é especialmente... E várias anedotas judaicas sublinham isso, sublinham o facto de... Por exemplo, há um humorista judeu que diz uma coisa do género Senhor, por sermos o povo escolhido, enfrentámos durante milénios pogroms, perseguições, massacres, holocaustos. Por favor, senhor, escolhe outro povo agora. E essa ideia de que o pai não gosta deles representa essa espécie de rejeição. Uma das coisas que eu perguntei ao John Cleese quando o entrevistei a propósito
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do livro
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foi essa, foi aquilo que eu vi, que eu identifiquei na biografia do John Cleese como potencialmente sendo isso. Foi o facto de ele ter mudado de casa, sei lá, dez vezes em meia dúzia de anos. Ou seja, ele, creio que ele não conseguiu estabelecer raízes em lado nenhum. E isso fazia com que ele estivesse sempre à parte, sempre de fora, a olhar para dentro. Essa característica de estar de fora a olhar para dentro, eu acho que é essencial para ver as coisas dessa outra maneira que a gente costuma chamar humorística e é mais fácil é mais fácil isso é mais fácil fazer isso quando estás lá está quando estás de fora é mais fácil é para as coisas de uma outra maneira, de uma maneira que não é vulgar, quando tu não pertences ao sítio, quando tu por alguma razão qualquer
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não pertences. Sim, ter escolhado de fora, ter a perspectiva, nós até falávamos disso também, não é? Da pessoa estar a ver-se de fora, no fundo. Exatamente. E a ver-se a ele próprio e à sociedade de fora. Ele nessa talk, nessa intervenção, fala de uma coisa engraçada que está relacionada com isso, com a questão do... Ele faz uma distinção que eu já apanhei noutros sítios, com outros nomes, entre o que ele chama de modo fechado e modo aberto. E que é um bocadinho relacionado com isso, ou seja, o reitor dessa universidade estava num modo fechado. Sempre. E ele o que ele diz é para ser criativo. Esse modo é inimigo da criatividade. Exatamente. E no fundo a criatividade é uma das características do humor ou o humor é uma das componentes da criatividade, se quisermos ou pelo menos ter uma intersecção grande. E ele diz que a criatividade ocorre quando estás no modo aberto que é ver coisas de fora, relacionar conceitos aparentemente antagónicos. Exatamente. E ele fala, uma coisa muito gira que ele diz e que me ressoou muito por estar relacionado com o que nós já falámos em relação ao humor foi, ele disse exatamente isto, ele disse para mim A principal razão evolutiva para o humor é o facto de ser a maneira mais rápida de nos transportar do modo fechado para o modo aberto. O que não iria tão longe, mas é bem esgalhado.
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Porque uma das principais diferenças entre o modo fechado e o modo aberto é que o modo fechado é tenso e o modo aberto é distendido. No modo aberto as pessoas estão disponíveis para outras coisas. Portanto, no modo aberto, que é o modo em que as ideias ocorrem, ninguém sabe como é que elas ocorrem, mas é claro que se tu estiveres... Raramente te ocorrem ideias quando tu estás... Ora bem, a seguir a isto tenho de ir comprar batatas, já não há, tenho de ir comprar... Nesse modo, que é o modo fechado, não há espaço para as coisas entrarem. Nesse modo distendido, e portanto talvez seja verdade que uma piada seja a maneira mais fácil de passar de um estado de tensão para um estado de estendido. Embora também seja possível argumentar o contrário. Que é possível que uma piada pode estragar o ambiente gerando tensão
José Maria Pimentel
e não... Sim, sim. Como toda a gente já deve ter diferenciado. Se ofender, não é? Se for mal recebida, no fundo. Eu queria fechar o outro parênteses que tinha ficado aberto há meia hora, da questão da rainha Vitória, que tinha a ver com a questão do... Que nos leva de volta à questão do humor autodepreciativo E o ponto que eu ia fazer, que eu acho um outro lado interessante do humor auto-depreciativo, que é quase o reverso da medalha, que é muito curioso, que é o humor auto-depreciativo feito por ela naquele momento, era aquilo exatamente o que tu estavas a aludir, que é dizer, eu estou tão à vontade, que me posso dar ao luxo de brincar comigo próprio. E Isso tem um peso numa situação social muito grande. Tu mandas uma piada sobre ti próprio, mostra que estás à vontade naquela situação. Podes a dar-te à luz de fazer aquilo. Sim, sim, tens força. Sim, e o Bobo... Mas em relação ao Bobo eu fiquei curioso. Em relação a esse livro, o Bobo... Porque o Bobo tem esse papel um bocado ambivalente, por um lado é meio de sátira, mas por outro lado eram os próprios monarcas que queriam que o Bobo existisse. E o meu palpite é que a maior parte das vezes tinha essa função. Ou era exclusivo
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da região. Uma função legitimadora do poder, não é? Sim, pois é, lá está.
José Maria Pimentel
É humanizador, em certo sentido.
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Por isso é que é curioso, porque não é assim tão simples. Não é muito assim, claro, o bobo. Quer dizer, há várias maneiras de entender o papel que o bobo tem. E às vezes o papel é contraditório nesse sentido. No sentido em que as pessoas dizem, este tipo tem licença para dizer a verdade na cara do monarca. Isto por um lado. Ou seja, mais ninguém diz estas coisas ao monarca a não ser este tipo. Ele tem licença. Por várias razões, pelo seu estatuto, seja pelo que for, ele tem licença para dizer isso, para dizer coisas incómodas que outras pessoas não têm. Por outro lado, há essa ideia que é, este tipo dá jeito, dá
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jeito que este tipo faça isto porque legitima e humaniza o poder. E também tem outra função que está a ocorrer agora que é... Ao estar circunscrito a um indivíduo, tu estás a libertar aquelas pressões... A pressão do que o Freud falava.
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Exato, sim, sim. Estás a
José Maria Pimentel
libertar aquela pressão de, no fundo, pensamentos
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recalcados. Sim, mas que apesar de tudo
José Maria Pimentel
é circunscrita, não é? Mas está a circunscrever lá aquela pessoa. Vocês podem ouvir o bobo a gozar com o rei, a dizer no fundo aquilo que vocês pensam de certa forma, mas só o bobo é que pode fazer, vocês não. Sim, é uma coisa... Uma válvula de escape... É
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isso. É como aquilo que o Back Team descreve sobre o carnaval, que é um momento em que a sociedade se vira de pernas para o ar. O criado passa a ser o amo, o amo passa a ser o criado, mas durante um período de tempo bastante circunscrito no tempo. A seguir volta tudo ao normal. Aquilo até, a gente pode dizer que é preciso que aquilo seja assim naquela altura para reforçar a ordem. Exatamente. Que a desordem humorística contribui para reforçar a ordem. Às vezes uma piada, sendo uma espécie de abanão nos alicerces, serve para que os alicerces
José Maria Pimentel
se sustenham por mais tempo. Claramente eu acho que tem esse fim e um paralelo interessante que eu encontrei e não sei se tu partilhas sendo fã de futebol é o desporto e o futebol em particular que também é uma maneira de uma forma diferente de a pessoa aliviar um certo lado animal. Exatamente, porque há coisas que valem num
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estádio de futebol, mas não valem fora do estádio de futebol. Eu fora do estádio de futebol não grito a palhaço, não grito nunca na minha vida e se gritarem em princípio internam-me, porque o comportamento que uma pessoa tem num estádio de futebol é impensável que tenha fora do estádio. Sim, isso é verdade. Há ali um momento e há um momento de... Ou seja, é uma questão de... É capaz de ser também uma espécie de transgressão benigna, o futebol. Que é, eu gosto dos vermelhos e eu quero que os vermelhos ganhem esta contenda aqui. E depois saio do estádio e em princípio ganhamos, desespero eu. E pronto, eu vou satisfeito para casa. Ninguém morreu e no entanto eu estive embranhado numa contenda com 11 homens de cada lado e às vezes com vocabulário rélico misturado. Bom disparo do meio da rua. O tiro à barra.
José Maria Pimentel
A questão do futebol é que essa espécie de suspensão da civilidade. Exato. Há pessoas que a levam a um extremo exagerado. Pois é, é isso. Passa a doença. Exatamente, é isso. Ou seja, o meu dúvido do futebol é essa. Mas é isso mesmo, é uma suspensão da civilidade da mesma forma que na comédia é uma suspensão da compaixão exatamente, de certa forma é isso. Eu não acho que na comédia é curioso bem, mas depende de cada pessoa por
Ricardo Araújo Pereira pt2
pessoa é giro termos feito, termos dito isso sim, a suspensão da compaixão, porque eu acho que é o Bergson e é curioso que em princípio se diz Bergson porque ele chama-se... A gente olha para o nome dele e pensa, este tipo chama-se Henry Bergson, só que ele é francês por isso em princípio é Henri Bergson. É
José Maria Pimentel
como Colbert, como não é francês.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Exatamente. Quantidade de tempo que eu tive a chamar-lhe Roy Merlin, à l'heure à Merlin. Mas muito tempo, muito tempo, até perceber que aquilo era francês. Ele diz, acho que é ele que diz, que a comédia, ou aquilo que a gente chama sentido de humor é uma anestesia do coração. Ou seja, a emoção é inimiga da comédia, é inimiga do humor. É fácil... É com paixão, porque eu
José Maria Pimentel
acho que o humor é uma emoção também.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Não tenho a certeza
José Maria Pimentel
que... A hilaridade é uma emoção.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Enquanto tu estiveres investido de emoção em relação a um assunto, não sei se tu consegues ter a frieza que é necessária para... Ou seja, a distância. A distância implica essa anestesia do coração. Sim, claro. E sem a distância é muito provável... Sabe, olha, uma coisa que me acontece com muita frequência é tanto escrever um texto qualquer, escolho um tema e é um tema em relação ao qual eu estou irritadíssimo, estou muito irritado. Se eu me sento para escrever assim, em princípio não sai nada de jeito. Por exemplo, no outro dia é muito fácil uma pessoa irritar-se com a marido de Fátima Bonifácio. E eu sentei-me para escrever o texto e não sabia de que maneira que havia de o abordar. Não sabia o que havia de fazer. E todas as ideias que me ocorriam eram agressivas no mau sentido. Eram só preachy, eram só testifar-se. Isto é assim? Então mas a senhora não tem vergonha? Isso não tem graça nenhuma. Era um julgamento moral. Exatamente. A indignação não tem nenhuma graça. É preciso dar dois passos atrás e tentar, eu acabei por optar por uma, por escrever o hipotético discurso de um senhor chamado, em vez de chamar Maria de Fátima Bonifácio, chamava-se Mário Bonifácio e era motorista de táxi. Mas tinha um discurso racista ao contrário, era esta gente com brancos não vai lá pá, Cerro Parque, uma parte do... Sim, eu apanhei isso à vontade. Sim, a questão era essa, era essa, isso, Fazer isso é uma forma de interpor uma distância sobre aquilo. Mais tarde ocorreu-me que talvez eu tivesse feito uma coisa mais gira. Se eu, por exemplo, tivesse escrito uma crónica, como se fosse uma crónica para o público, não escrita pela Maria de Fátima Bonifácio, mas escrita por aquela empregada que ela diz ter encontrado no seu prédio. Ou seja, uma senhora que diz, pá, eu às vezes cruzo-me com uma doutora lá no prédio, eu às vezes até digo umas coisas só assim à balda para ver o que é que ela faz. No outro dia disse, olha que eu não sou preta, atenção, eu sou atlântica. E ela apareceu-me encantada com essa perspectiva e tal. Vou continuar, vou inventar mais umas tretas para lhe dizer lá a próxima vez. Ou seja, talvez é... Se é ver a coisa de fora, lá está. É, exatamente, exatamente. Ou seja, envolve uma operação, que eu acho que é a operação essencial da comédia, que é a operação de olhar para as coisas. E de olhar... Aquela coisa que sabes quando um miúdo está a brincar com um brinquedo? E antes de começar a brincar, ele olha para o brinquedo de todos os lados. Vira para baixo, vira para o lado, vira... Vê todos os ângulos possíveis. Quando é... Sabes aquele brinquedo, os miúdos, quando são mesmo muito pequenos, têm uma caixa com várias formas e depois têm uns sólidos geométricos cá fora, e eles têm que rodar aquilo de várias maneiras para perceber onde é que isto encaixa. Essa operação do olhar de todos os pontos
José Maria Pimentel
de vista parece-me essencial e muito produtiva. E de certa forma há uma diferença face a esse jogo, porque o jogo do miúdo é... Há uma forma pré-definida onde ele tem que colocar aquilo, da terceira forma é um sistema fechado. E aqui não. Aqui o humorista e o criativo no geral é ao contrário.
Ricardo Araújo Pereira pt2
A não ser que a gente identifique essa... Que a gente imagine que essa forma pré-definida é aquele ponto de chegada em que a gente pretende chegar que é esta é a melhor forma humorística de abordar este assunto. É difícil uma pessoa dizer há realmente há uma e é esta. Em princípio há várias maneiras de abordar humoristicamente um assunto mas mas sim é isso. E tu ves
José Maria Pimentel
uma diferença fundamental entre os vários tipos de humor no sentido em que nós já abordámos aqui, quer dizer, tens o humor do ridículo, tens o... O Chaplin era muito desses tempos, não é? E o Boba era muito desses tempos, tens o humor observacional, falámos do Sarno já há bocadinho, que é um humor muito intelectual no sentido de muito distante e simples comentário, não é? Que não tem nada de físico, mas também não te provoca emoções a partidas agradáveis como outro tipo de humor que eu ia falar, que é o humor negro ou o cringe, por exemplo. Todos eles têm características diferentes, e no entanto, claramente tem um ponto em comum. Mas tu notas, por exemplo, que diferentes humoristas, o Seinfeld não faria os números do Luiz Siquei, por exemplo. É provável que
Ricardo Araújo Pereira pt2
não, exatamente. É provável que não. Sim, é isso.
José Maria Pimentel
Mas que diferença é que tu vês aí, ou, quer dizer, vendo isso enquanto humorista, tu consegues...
Ricardo Araújo Pereira pt2
Sim, sim, perceber o que é que leva cada pessoa àquele estilo particular, não é? Pá, não te sei dizer. Boa pergunta. Não faço a mínima ideia. Não sei. É provável que isso tenha a ver com a personalidade de cada um, com aquilo que cada um...
José Maria Pimentel
Quer dizer, o humor cringe ou o dark humor, por exemplo, tem muito a ver com aquela libertação de tensão, que é, epá, este gajo está a falar do nigger, como dizíamos há bocado, ou ele está a falar de violação, com isso e aquelas coisas inacreditáveis. Ele tem um número que ele diz, já não sei como é que é. Ah, ou fazer sexo com um miúdo e depois... Não, não, não, se estivesse morto não havia problema. Não é que eu fosse matar por causa disso. E o humor observacional do Seinfeld não tem nada a ver com isto. É muito mais civilizado, é uma coisa que tu podias dizer à mesa quase, incertamente. Sim, exatamente.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Talvez seja o único traço comum é, quase sempre, o subtexto de cada piada é Viste o que eu fiz aqui? Viste? Viste o que eu fiz?
José Maria Pimentel
E aí... É o agora sem mãos, agora sem pernas.
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Exatamente, aí se calhar isso é um traço que atravessa a todos. Ou seja, quando o Seinfeld diz que, sei lá, que quando a gente se atira de paraquedas e leva um capacete, em princípio o nosso corpo está a proteger o capacete de se magoar. O que ele está a dizer é, visto o que eu fiz aqui, eu olhei para isto de uma maneira que não é aquela que estamos habituados. Quando o Louis CK diz, eu sou contra a violação, exceto num caso, que é quando uma pessoa quer muito ter um orgasmo dentro de outra pessoa. O que ele está a dizer é, visto o que eu fiz aqui, eu estou a fingir que sou suficientemente estúpido para achar que é legítimo haver uma exceção que ainda
José Maria Pimentel
por cima é, basicamente, é a definição de violação. Sim. E há alguma coisa que o ICF está a fazer aí que o Seinfeld não faz, embora eu adoro o Seinfeld, que é dizer, eu vou-me pôr num terreno um terreno absolutamente insustentável e vou-me conseguir safar. É como passar aquelas coisas nos filmes entre os lasers. Eu vou-me pôr aqui dentro e não vou morrer. Porque o problema, e esse é o lado curioso do humor negro, e acho que muitos humoristas que pegam pelo negro antes do humor espalham-se aí, é do género é pá, ninguém fala sobre isto, eu vou falar só para falar. Se a piada fosse má, ele
Ricardo Araújo Pereira pt2
espalhava-se. Exatamente. Ele não se espalha porque a piada é boa. Se é isso, se a piada provoca apenas um... Ou seja, o tema é mal escolhido para uma piada que faz apenas...
José Maria Pimentel
E se aquela suspensão da compaixão esvai-se quando não te preocupas com isso. De repente voltas... É aquela suspensão da descrença nos filmes, na ficção, que faz a suspensão da descrença. Ou seja, estás a
Ricardo Araújo Pereira pt2
ver um filme,
José Maria Pimentel
estás a sentir aquela história como se fosse real, como se fosse real. Se a história se torna pouco credível, como às vezes acontece. Já todos nós aconteceu, já está a fazer um filme,
Ricardo Araújo Pereira pt2
já não faz sentido.
José Maria Pimentel
Não é credível no sentido de... Não
Ricardo Araújo Pereira pt2
é plausível, mas sim, mas não é plausível. Mesmo estando no espaço...
José Maria Pimentel
Aqueles seres humanos não teriam aquela interação. Exatamente, é isso. E no humor acho que se passa um bocadinho isso. É provável. Mas ainda assim, e esse é outro ponto engraçado, porque nós ontem falávamos da história da a propósito dessa questão da suspensão da compaixão e pareceu-me que a tua opinião é que basicamente a ética a ética do humorista não entra em jogo. Eu diria que entra apesar de tudo. Vou-te dar um exemplo que me estava a lembrar, que eu achei curioso por causa disso. Embora isto não seja completamente destrinçável da questão de o ter piada ou não ter piada. Como é que eu hei-de contar esta história de forma suficientemente genérica? Digamos que estava... Isso nem sequer se passou comigo, mas estava a ver um concerto de uma banda qualquer e um dos tipos que estava a tocar, não sei o que é que era, era negro. E a pessoa que estava a ouvir diz qualquer coisa do género. É, olha ali um macaco a fazer não sei o quê. E aquilo, tipo, a pessoa estava a ouvir aquilo e pensava. Isso não tem piada. Nenhuma? Mas aquilo não tem piada, de certa forma... Isso não é uma piada, é muito simples,
Ricardo Araújo Pereira pt2
isso não é uma piada. Mas
José Maria Pimentel
a questão é, o que eu quero dizer é eu acho que não tem piada por eu achar repugnante estar a comprar um negro ou um macaco. É porque não tem piada, mas eu acho que isso está embutido na minha avaliação da piada. Tu achas que não?
Ricardo Araújo Pereira pt2
Eu, Quer dizer, eu acho que isso não é uma piada sequer. Porque em tempos terá
José Maria Pimentel
provocado riso. Ou seja, isso, sei lá... Não, mas lá está. Há 200 anos, há mais de um bocadinho... Sim, há 200 anos, quando a escravatura... Ou há 250, quando a
Ricardo Araújo Pereira pt2
escravatura ainda existia, de certeza que pessoas riam imenso com esse tipo de piada. Mas é um riso humorístico, ou seja, não tenho certeza que seja um riso humorístico. Eu não sei se isso é... Se é esse riso à larve, a provocar esse riso à larve, se isso era... Se a gente pode considerar que isso é um riso humorístico. O que eu acho... Eu não me referi à isso, quer dizer, o que eu digo é que, por exemplo, a ética normalmente não está em causa, ou seja, naquela piada da Sarah Silverman... Mas é sério inocuo, não é? Não, mas a questão é, ela usa a palavra nigger, estás a perceber? E portanto há pessoas que saltam imediatamente a dizer não é ético, não é moral usar a palavra nigger. E eu acho que a moral e a ética não estão em causa aí, porque o contexto em que ela usa a palavra nigger é muito especial. E é minoco, não está a fazer mal a ninguém. É óbvio. Não, mas isso é na tua opinião. Há pessoas que dizem que a simples enunciação da palavra nigger é uma agressão.
José Maria Pimentel
Não interessa o contexto. Mas isso é análogo aos tipos, aos alemães que dispararam contra o Ekran. Exato, pois é. É um
Ricardo Araújo Pereira pt2
tipo simbólico. Mas quando viste um
José Maria Pimentel
simbólico do Vara, tu falavas ontem, do Armando Vara, não é? Do Armando Vara, o que as pessoas te dizem é, é pá, o homem está no chão. Bater em quem está no chão. Exato. Inerente ao julgamento, se tu deves ou não deves bater se ele está no chão, está um argumento que tu próprio invocaste ontem, quer dizer, é pá, ele Está no chão mais ou menos, não é? As pessoas estão muito mais no chão do que ele. É isso, eu fiz as duas objeções. Se ele estivesse realmente no chão, se calhar tu próprio achavas...
Ricardo Araújo Pereira pt2
Pois, mas a minha questão é essa. Primeiro, esqueces da primeira parte, o que eu disse foi primeiro, eu não considero que ele esteja no chão, acho que é discutível que ele esteja no chão, apesar de estar preso. Segundo, comédia não é bater. Comédia não é bater. Às vezes as pessoas dizem é possível dizer piadas racistas. Vão lá ver, se é uma piada é racista. Não é com o intuito de bater. É racista. Se é uma piada é racista. Racismo é uma coisa. Uma piada racista, se é uma piada é racista. A questão é, por exemplo, o Zizek, que sabes, aquele filósofo esloveno, uma das coisas que ele diz, e eu acho isso interessante, é quando ele reúne-se às vezes com amigos que ele tem. Amigos, quer dizer, ou melhor, Não são amigos, são pessoas que acabaram de se conhecer. Ele é esloveno e aparece um sérvio e um croata. Ele diz que os primeiros momentos são a contar as piores anedotas de sérvios, croatas e eslovenos que cada um sabe. Porque essa, vamos dizer, agressão, quando é feita no âmbito do discurso humorístico, é uma agressão, digamos, coreografada. Corresponde àquele gesto que tu fazes quando estás com um amigo, se calhar não fazes, mas é aquele que a gente às vezes vê quando está com um amigo, sabes aquele morrinho que se dá no queixo do amigo? Aquele morrinho amigável que te dás no queixo. Corresponde a isso, e tu só fazes isso, a essa agressão. Que ela é teu amigo. Exatamente. Tu só fazes. Podias fazer a um não amigo. Se tu vais na rua e passas por uma pessoa, e isso não faz sentido tu fazeres uma... Agora... É questão da intenção. Exatamente. Mas é uma maneira de estabelecer, ou seja, paradoxalmente, mais uma vez, é uma agressão que estabelece uma intimidade. É o contrário de afastar. Eu não estou a dizer que não haja piadas que são ditas com a intenção de excluir, até com a intenção de humilhar, de rebaixar, certo? É possível. A questão é que eu acho que é possível, que também de piadas consegues proteger-te. De socos, mais dificilmente.
José Maria Pimentel
E de qualquer forma, essa conclusão também não acrescenta nada no sentido em que o que conta é a intenção com que a piada é dita. Exato. E não a piada em si. Sim, também acho que é.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Sim, o contexto é fundamental.
José Maria Pimentel
Quem é disse, com que intenção e... É decente que a intenção nem sempre dá para estabelecer a intenção de uma forma inequívoca. Não, não dá.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Mas o
José Maria Pimentel
que me parece, em relação ao racismo, tu podes fazer uma piada racista? Claro que podes, podes fazer uma piada sexista, uma piada xenófoba, ou whatever, não é? Quer dizer, um brasileiro pode fazer piadas sobre os portugueses, ou um francês pode fazer piadas sobre os portugueses. O que me parece ser o critério, mas se calhar estou enganado porque estou a ver a coisa de fora, é como se de certa forma a pessoa dissesse, visse. Primeiro, o ser racista não é uma condição necessária, é algo que ocorre um efeito colateral daquela piada e o raciocínio é isto tem piada suficiente para superar o raciocínio que lhe está embutido ou não porque se não tiver não vale a pena. Se não tiver
Ricardo Araújo Pereira pt2
já não tem uma piada. Sim, pois, a questão é, por exemplo, vamos dizer... Não
José Maria Pimentel
digas sim pois que eu já percebo que tu não concordas. Não,
Ricardo Araújo Pereira pt2
não, não, não, não é isso. Eu, eu, quer dizer, eu acho que é possível tu dizeres isso. Que é possível tu dizeres que não tem piada suficiente. Qual é o problema disso? Quem é que decide o que é que é piada suficiente?
José Maria Pimentel
Podes perceber? O público. Talvez. É o público.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Sim, mas... Não, E essa
José Maria Pimentel
acho que é a chave da resolução daquilo que nós falávamos ontem, não é? Certo, mas para isso... Mas quando tu estás a... Quando escreves uma piada num jornal, não
Ricardo Araújo Pereira pt2
tens uma plateia à frente. Permanentemente a medir. Olha, vês? A plateia riu-se muito. Até É possível argumentar que tu podes fazer rir muito uma plateia com uma coisa que não tem assim tanta graça. E que uma excelente piada possa não fazer rir tanta plateia. Embora eu concordo contigo que na esmagadora maioria dos casos, e isso é uma das coisas curiosas da comédia, é que há uma componente de eficácia. A minha questão é, se eu subo ao palco e ninguém se ri, eu não digo, esta plateia era má. Não, não, não. A culpa foi minha. Não há dúvida. Não há dúvida do que é que aconteceu. E quem opta por outra estratégia? Quem diz, não, porque o público não prestava. Também está a tirar mérito a si próprio quando rebenta com a casa. Se calhar rebentou com a casa porque o público era realmente muito bom. Ria-se por tudo e por nada. Não, não, não. A questão é, das duas uma. A tua capacidade de fazer rir ou não uma plateia, em princípio, é independente do público ser bom, mau ou médio. Esse confronto existe e ainda bem que existe. Ou seja, é possível que haja plateias em que tu tens que te esforçar mais ou de outra maneira. Não digo que não. Mas o certo é que se a plateia não rir, em princípio a culpa é tua.
José Maria Pimentel
Sim, hipóteses. Umas podem não se rir e outras riem-se. Sim, pode. Agora se não digas
Ricardo Araújo Pereira pt2
nenhuma a rir-se... Mas a questão é essa, a questão é, quando tu dizes... Bem, imagina que a gente estabelece esse critério, não é? Piadas de humor negro, sim, se forem muito engraçadas. Epá, quem é que estabelece uma coisa muito engraçada para ti? Para ti pode não ter graça nenhuma para mim.
José Maria Pimentel
Imagina que tu fazias esse género de humor que nem é bem o teu, não é? Regra geral, mas desde o Zuma ou tinhas pessoas que te liam ou viam ou ouviam ou então se não lias não fazias
Ricardo Araújo Pereira pt2
piada. Mas o certo é que tu hoje o que vês é em princípio não há humoristas sem público, porque se não têm público, dedicam-se a outra atividade. E portanto é
José Maria Pimentel
possível
Ricardo Araújo Pereira pt2
um humorista ter público, fazer rir a sua plateia, mas haver pessoas que vêm de fora e dizem desculpe mas isto que o senhor está a dizer não tem suficiente graça para ser feito a propósito do tema que o
José Maria Pimentel
senhor está a falar. Sempre não sou eu que decido. Espero que
Ricardo Araújo Pereira pt2
não sejam. Espero que não sejam.
José Maria Pimentel
Alguém falava, já não sei quem. Ah, já sei, era o Jimmy Carr, que estávamos a ver. Acho que até foi durante a entrevista que tu lhe fizeste que ele... Eu não concordo completamente com o que ele diz, ele dizia que qualquer coisa do género não faz sentido haver crítica de comédia, porque o público ou se está a rir ou não se está a rir danto da comédia. Não vou tão longe, acho que pode perfeitamente haver crítica, mas há um lado de verdade nisso, não é? E o que me parece, por exemplo, usando outro exemplo de humor eticamente reprovável, digamos assim, que tu falavas ontem dos judeus, não é? E do humor dos nazis em relação aos judeus. A maneira de atacar aquilo que nos parece hoje em dia, obviamente errado, não deixe de ser um problema difícil, mas não me pareceria que fosse atacando, atacando isto é, censurando o humorista, mas sim no debate das ideias, naquela sociedade e portanto, em última hora, naquele público. Ou seja, Hoje em dia, um humorista que fosse fazer piadas desse género em relação aos judeus, não tinha ninguém na audiência, ou se calhar tinha, um grupo neonazismo, mas era aquele segmento. As pessoas, em geral, já não iam achar a piada aquilo. Parece-me, não sei se tu partilhas esta visão.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Se... Aquilo o quê?
José Maria Pimentel
O que é que é que eu soube a fazer? Piadas racistas
Ricardo Araújo Pereira pt2
em relação aos judeus? Pois é, mas a minha questão é sempre o que é que uma por exemplo, há pessoas que dizem que aquela piada da Sarah Silverman é uma piada racista. Eu não concordo que seja uma piada racista. Muitas vezes eu preciso que a pessoa me diga pá, dá-me um exemplo de uma piada racista. Para a gente ver, o que tu disseste à bocada não era uma piada. Aquele tipo que estava a ver uma banda a tocar, fez uma declaração a larvo. Sim, sim, sim. Não é, há uma diferença entre uma coisa e outra. É,
José Maria Pimentel
mas o ponto com a Sarah Silverman é nós não temos que achar que se é racista ou não. Ou por outra, não temos que acalar por acharmos que ela é racista.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Ah, mas aí é que está. Se
José Maria Pimentel
acharmos que ela é racista,
Ricardo Araújo Pereira pt2
discutimos. Exato. Sim. Eu para isso estou disponível. E
José Maria Pimentel
o que tu tiveste em relação aos judeus, até o ISA pelo melhor, porque é um salto tão grande, faça o que faça à ausência, pelo menos na opinião publicada, se quiseres, embora continue haver muito antissemitismo, mas em Portugal não existe praticamente, também porque não temos quase judeus, mas faça o que
Ricardo Araújo Pereira pt2
havia. Mas faça o que havia. Infelizmente, não é? Exatamente. Tem a impressão que algum do atraso do país... Tava-nos melhor, não é?
José Maria Pimentel
E foram todos para Flandres e Tramarca. Exatamente. Se faça a diferença, quer dizer, a decalar, se faça aquilo que havia na Alemanha, na Asia, durante esses tempos é tão grande que é óbvio que hoje em dia não haveria público para aquilo, ou então haveria um público tão residual que era um público sem expressão, ou seja, ou opinião. Aquelas piadas que esses humoristas estavam a mandar, que estavam nesse... Eu que não vi, embora tenha ficado com curiosidade.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Ah, essas caricaturas? Não, mas isso era diferente, era uma coisa diferente.
José Maria Pimentel
Ah, eram caricaturas? Sim, são caricaturas. Mas haveria piadas imaginou também?
Ricardo Araújo Pereira pt2
São caricaturas que recorriam àquela ideia do judeu ganancioso que etc. Mas eu, repara, dou-te um exemplo. Por exemplo, comenta o seguinte texto. Repara, Um homem chega ao pé de um rabi e diz assim Olha, eu queria que o senhor fizesse o bar mitzvah do meu cão E o rabi diz assim Senhor desculpe, mas isso é ofensivo Eu não vou fazer bar mitzvah de cão nenhum Bar
José Maria Pimentel
mitzvah é tipo a iniciação à vida adulta, né? Exatamente.
Ricardo Araújo Pereira pt2
E o homem diz, olha, fico muito surpreendido com a sua reação porque o colega seu que lhe fez a circuncisão, a quem eu paguei 10 mil dólares, não reagiu mal. E o rabi diz, ah não, calma, se o menino já é judeu, então, bem, vamos falar. E tu podes dizer, bom, lá está, é uma piada racista porque reforça o estereótipo do judeu ganancioso, ele primeiro tem princípios e depois apercebe-se que afinal o cão, que ele vai pagar 10 mil dólares e por isso já deita os princípios pela janela. Esta é uma piada que os judeus contam entre eles sobre si próprios. E depois há aquele argumento que é bom, mas sobre eles podem. Mas tu não podes sobre... É verdade que tem um peso diferente. Tem um peso diferente, mas, Mais uma vez, e recorrendo ao exemplo do Zizek, a gente pode argumentar, e eu acho que bem, que esse, que isso, mesmo eu que não sou judeu, quer dizer, provavelmente tenho ascendência, mas quer dizer, em rigor não sou. Imagina que eu conto essa piada, como aliás acabei de fazer, isso significa para ti de alguma maneira que eu sou anti-semita? Que eu valido esse estereótipo? Ou que eu estou a fazer um jogo com esse estereótipo e que mais uma vez o subtexto da piada é, viste o que eu fiz? Eu recorri àquele estereótipo que normalmente há sobre o judeu para te fazer rir. A grande diferença, e é por isso que eu às vezes me sinto tentado a argumentar que piada racista é um oximoro Parece que se diz oximoro em português. Durante muito tempo disse oxímoro e parece que é oximoro. Porquê que me sinto tentado a argumentar que piada racista é um oximoro? Porque nós temos uma expressão em português e em outras línguas também. Que aí imagina que eu digo uma coisa. E tu dizes, perai, estás a falar a sério? E eu digo, não. Ah, então tudo bem. Não é? A maioria de face, Fátima Bonifácio, está a falar a sério. Esse é o problema. Sim, claro. Quando aquilo que eu te dizia ontem, que é, tu não podes apelar à morte de pessoas, incentivar à morte de pessoas na televisão. Há aquela... E eu já disse, já disse, o cigano é um povo que é todo ele para matar. As pessoas que me veem a dizer o cigano é um povo que é todo ele para matar, tem uma pergunta para fazer a si próprio, eis que é, pera, ele está a falar a sério? E a resposta, como é óbvia, uma vez que eu tenho um bigode e estou a fazer um sketch humorístico e estou a dizer as coisas que estou a dizer, é não, eu não estou a falar a sério, eu estou a dizer uma coisa que é diferente daquela que parece que estou a dizer.
José Maria Pimentel
É que são da intenção, não é? Sim. Agora imagina-te na Alemanha dos anos 30, imagina que recuávamos aqui uns 90 anos, não é? E tavas... E havia programas de televisão ou espetáculos de stand-up, por exemplo, com piadas sobre judeus da parte de alemães não-judeus, digamos assim. Como é que tu reagirias? Qual seria a tua posição? Sim, eu...
Ricardo Araújo Pereira pt2
Mas mais uma vez, depende da intenção. Não,
José Maria Pimentel
Ariki, claramente... Ou para outra, para ti a intenção seria...
Ricardo Araújo Pereira pt2
Para mim também, embora... Provavelmente eles defendessem... Repara, sabes que há uma coisa curiosa que é... O Gil Vicente, muitas vezes a figura do judeu não é bem tratada nas peças do Gil Vicente. No entanto, o Gil Vicente escreveu cartas às autoridades, ao rei, etc. Para que os direitos dos judeus fossem respeitados.
José Maria Pimentel
Curioso isso.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Ou seja, não é contraditório tu fazeres uma piada sobre judeus e não seres antissemita?
José Maria Pimentel
Não, claro que sim. A questão é que há antissemita... Ou naquela altura aquelas piadas eram de facto antissemitas. É provável. Embora em última análise tu provavelmente não pudestes provar. Não podias abrir o crânio. E mesmo que pudeste, não provavas.
Ricardo Araújo Pereira pt2
E, atenção, lá está, essa é a questão, que é... Proíbes? Qual é a reação?
José Maria Pimentel
O que é que a gente conclui? Este senhor está a fazer uma
Ricardo Araújo Pereira pt2
piada sobre... Por exemplo, imagina que há um brasileiro que diz... Não me ocorre agora nenhuma das piadas que os brasileiros contam sobre nós, mas imagina que é uma daquelas que, aliás são as mesmas, são as mesmas que, por exemplo, a gente conta sobre alentejanos ou os americanos contam sobre polacos. Imagina que um brasileiro te conta uma nota dessas. O que é que tu fazes? Há várias hipóteses. Primeiro é a mais provável, caso contrário ele não estaria a dizer isso num contexto humorístico. Normalmente os racistas recorrem a outras formas de discurso. Não é? Para as ideias...
José Maria Pimentel
Mais eficazes. Sim, mais eficazes. Não só discurso, mas outras sim. Sim, esse é outro ponto importante. Exato. É que o humor não é especialmente eficaz. Não. Nem sequer é especialmente eficaz. Desse ponto de vista, não.
Ricardo Araújo Pereira pt2
E, portanto, ou aquele brasileiro te quer fazer rir, ou imagina que ele acha mesmo que os portugueses são burros. E então, o que é que vais fazer? Olha, o senhor, desculpe, o senhor não... Então o senhor considera que o meu povo é burro? Cadeia? Não sei.
José Maria Pimentel
Não, claro que não. Eu acho que numa sociedade como... Imagina ser um português no Brasil e tendo, imagina uma onda xenófoba em relação a... Porque, por exemplo, isso não existe. Mas imagina, nesse caso, tu precisas é ter, lá está, liberdade de expressão e representação para aquela minoria. Com certeza. Que no fundo seria melhor. Mas
Ricardo Araújo Pereira pt2
sabes que a questão é essa, é a liberdade de expressão do meu ponto de vista, sempre foi fundamental para as minorias, para as minorias fazerem valer os seus direitos.
José Maria Pimentel
E não para as maiorias, exatamente. O
Ricardo Araújo Pereira pt2
facto de tu poderes dizer coisas que não são que ferem os ouvidos de uma quantidade de gente é importante para as minorias. Muitas vezes, em muitos momentos da história, dizer eu quero casar com outro homem feriu os ouvidos
José Maria Pimentel
das pessoas. Ou
Ricardo Araújo Pereira pt2
eu sou mulher e quero votar. Uma vez eu estava a falar sobre isso e alguém contrapõe. O quê? Mas desde quando é que as minorias têm acesso à palavra? Eu sinceramente pus-me a pensar. Um dos discursos mais célebres da história, não sei se conheces, é I Have a Dream. Foi proferido por um negro. Se as minorias não tiveram acesso à palavra eu não sei se calhar ele disse isso em mímica e as pessoas captaram e traduziram se calhar foi isso, por exemplo o Harvey Milk que foi eleito se calhar fez a campanha eleitoral em Morse é capaz de ter ti ti ti ti ti ti ti ti ti ti talvez tenha sido isso. Uma das características do
José Maria Pimentel
progresso nos últimos pais de 200 anos é exatamente as minorias terem tido acesso à palavra. Com certeza. E para tu veres a qualidade com que eu juro esta conversa, nós acabámos a falar de judeus e o livro que vais recomendar é sobre judeus.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Pois é, é um livro que se chama Do Eden ao Divã, subtitulado Humor Judaico e os organizadores são o Moacir Sclear, a Patrícia Finzi e o Eliahu, ou a Eliahu Toca. É uma vergonha, mas eu não sei se isto é um nome masculino ou feminino. E portanto, o livro está a editar, a minha edição não é essa, mas ele está a editar cá pela Tinta da China E é um livro que colige várias piadas judaicas. Desculpa, o demónio levantou-se e foi ter contigo.
José Maria Pimentel
Não, tranquilo. Está a banar o rabo. Foi por nós termos falado de... Estás a falar de judeus e...
Ricardo Araújo Pereira pt2
Achas que
José Maria Pimentel
ele... Não, foi velho
Ricardo Araújo Pereira pt2
o Antigo Testamento à cabeça e ele ficou. Talvez. E o livro é giro porque é uma coleção de, digamos, de piadas judaicas contextualizadas. Por exemplo, aqui há um momento em que se fala de uma figura que existe em todas as culturas. A cultura judaica, aliás, tem mais do que uma. Mas há uma que se chama Hershel de Ostropol. Ostropol é uma cidade ucraniana, por isso ele é, umas vezes é, ele chama-se Hershel, normalmente chama-lhe Hershel Ostropoliar.
José Maria Pimentel
Ah, mas é uma pessoa que existiu. É uma
Ricardo Araújo Pereira pt2
pessoa, sim. É o tipo de pessoa que há, em várias culturas existe, ou seja, por exemplo, ali no Irão, etc., há uma figura parecida no mundo árabe chamada Nazreddin Hoxha e que nós temos ecos dessa figura, umas vezes nas anedotas do Bukaj, é tipo um malandro, é o malandro brasileiro, é uma figura que em algumas histórias é um filósofo, noutras é um ladrão, noutras é... Mas tem sempre uma perspectiva sobre
José Maria Pimentel
as coisas. Ah, curioso. E é uma figura recorrente das histórias, é
Ricardo Araújo Pereira pt2
isso? É uma figura recorrente das histórias, sim. Ou seja, é basicamente, acho que se calhar o mais próximo que temos disso é... Uma vez o Bukás estava... Ou seja, tem aquela perspectiva do... Sabes aquelas... Normalmente o corolário de uma história do Bukás é... E ele deu a volta. Ele deu a volta. Se ele fosse numa situação ou ele... Ele teve a presença de espírito suficiente para dar a volta ao argumento dos outros ou para ser mais esperto do que o interlocutor. É esse tipo de figura. Eu acho que tu à bocado disseste que achavas que a razão para a
José Maria Pimentel
prevalência do humor entre os judeus tinha a ver com estarem
Ricardo Araújo Pereira pt2
sempre fora. Sim, com a rejeição. Eu acho
José Maria Pimentel
que este termo me falou, mas não juro. Quer dizer, em coisas que parecem ter inegavelmente um papel, que é, por um lado, haver uma grande tradição de análise dos textos sagrados. Isso eu acho fundamental. Letra-si e de discussão. Sim,
Ricardo Araújo Pereira pt2
Eu acho que isso é característico dos judeus, não só significativo do ponto de vista da comédia mas de tudo. Quer dizer, uma cultura que é baseada na leitura e na interpretação de texto. E tu vês isso também, por exemplo, nos evangelhos. Os protestantes. É isso. Uma piada, aliás, muito engraçada. Eu sou normalmente o ateu convidado para ir a... Sempre que eles precisam, que gente religiosa precisar, a gente teremos aqui um ateu, chamam-me e eu vou com gosto, sempre que vou a uma igreja evangélica, normalmente sou apresentado com a seguinte piada. Temos aqui um ateu que sabe mais da bíblia do que muitos católicos e eles riem-se. Eles riem-se porque acham... Eles olham com desdém. Sim, sim,
José Maria Pimentel
sim. Eu falei com o Tiago Cavaco.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Tiago Cavaco, sim, exatamente.
José Maria Pimentel
E falámos disso, exatamente, essa distinção. E acho que os judeus também têm o lado de... Mas isso eu não conheço de dentro, conheço de estarem-me a contar. Que é um lado muito de... De uma abertura grande a uma discussão acesa. Dentro daqueles partilhos da análise da Tora e dos outros três, que é curioso, mas apesar de tudo livre. Mas apesar de tudo livre, livre dentro daqueles partilhos. Até havia uma anedota, já não sei se ela contou, se eu vi agora provavelmente vou contá-la mal, mas era qualquer coisa do género dois rabinos a discutir uma interpretação de uma passagem qualquer, e diz, não é, não sei, e de repente Deus, Yahvé, intervém e diz, não, olhem que é assim, e eles, cala-te!
Ricardo Araújo Pereira pt2
Quando estão a discutir aquilo. Exato.
José Maria Pimentel
Não tenho certeza se era assim. Mas enfim, olha, obrigado.
Ricardo Araújo Pereira pt2
Eu é que agradeço
José Maria Pimentel
pá. O 45 Graus é um projeto tornado possível em grande medida pela comunidade de mecenas que o apoia. Mecenas como Gustavo Pimenta, Eduardo Correia de Matos, João Baltazar, Salvador Cunha, Duarte Dória, Tiago Leite, Joana Faria Alves, João Manzarra, Mafalda Lopes da Costa, entre outros cujos nomes encontram na descrição deste episódio. Até à próxima! Legendas pela comunidade Amara.org