#64 Nuno Garoupa - A falta de desenvolvimento de Portugal como um problema de cultura e de...
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José Maria Pimentel
Bem-vindos. Neste episódio o convidado é Nuno Garopa, atualmente professor de Direito
na George Mason University nos Estados Unidos. A investigação académica do convidado
tem-se debruçado sobretudo sobre direito comparado e a relação entre as instituições
do direito e a economia. Isto, associado à vida de estrangeirado, explica
porque se habitua a pensar o país vendu de fora, num olhar
que é, como vão ouvir, provocador e original. A discussão sobre as
causas da pobreza relativa de Portugal tem barbas, claro, que é como
quem diz, séculos. É quase uma predileção nacional, uma espécie de catarse
momentânea e que facilmente pode resvalar para um lamúrio inconsequente e pouco
sistemático. Nesta conversa tentei fugir a essa tentação. A nossa abordagem foi
crítica, mas tentei que fosse construtiva e coerente, até para não ser
confundida com uma visão pessimista, porque vivemos, apesar de tudo, no melhor
período dos últimos séculos, ou com uma espécie de antiportugalismo-sonobe que não
só não tem razão de ser como adianta pouco. Esta foi, portanto,
inevitavelmente uma conversa em que andámos cá e lá entre vários temas
de fundo. Começámos por tentar ir à raiz da origem do atraso
português, o que inevitavelmente nos levou ao papel da geografia, das instituições
e da cultura, variáveis cujos efeitos estão inevitavelmente entrelaçados ao longo da
história. Falámos do modo, muitas vezes perverso, como funcionam as elites em
Portugal e das especificidades, as indesejáveis, da cultura nacional, como por exemplo
a falta de confiança interpessoal, o chamado capital social de que falei
neste podcast logo ao episódio 6 com o Pedro Magalhães, a falta
de cultivo de pensamento crítico no nosso sistema de ensino, ou a
obsessão muito católica com a culpa, ou ainda a tendência para ver
a discussão de ideias como um combate moral e um jogo de
soma nula. Tentei discutir também soluções possíveis, sendo que inevitavelmente, como todos
os que já nos demos ao trabalho ter esta discussão sabemos, é
muito mais difícil chegar a elas do que fazer o diagnóstico. Abordámos
também o problema da quase estagnação da economia portuguesa nas duas últimas
décadas e outras ameaças quer à prosperidade, quer à satisfação dos portugueses
com a democracia. Aliás, a insatisfação essa que o convidado prevê, mais
tarde ou mais cedo, como indo levar a uma alteração de regime.
Na última parte da conversa, aproveitei para viajar até à área de
investigação do convidado e abordarmos os desafios e as insuficiências do sistema
judicial português. O Nuno, aliás, tem um livro muito interessante sobre este
assunto, cujo link deixo na descrição deste episódio. E pronto, deixo-vos com
o Nuno Garopa. Não liguem ao facto de nos começarmos a tratar
na terceira pessoa e terminarmos a tratar
José Maria Pimentel
Vamos começar? Vamos
começar. Então
vá, no Bem Vindo ao Podcast, como eu dizia há pouco, vamos
começar, se calhar, à boleia de um artigo que nos publicou há
uns anos no Observador e que acaba por ser um bom ponto
de partida, até porque espelha uma série de coisas e que, no
fundo, trata de explicar a pobreza relativa de Portugal, não é pobreza,
como eu dizia há pouco, não em termos mundiais, mas em termos
dos países que estão próximos, que nos estão próximos, ou seja, em
termos da Europa, da Zona Euro, da União Europeia, trata de explicar
isso à luz de insuficiências institucionais e eu diria até de insuficiências
culturais, já vamos aí. E por isso, se calhar a maneira mais
fácil de começar isto é fazer, eu nem gosto especialmente de começar
desta forma, com uma pergunta aberta, mas se calhar o mais fácil
é começar por aí, ou seja, quais são as
Nuno Garoupa
nossas insuficiências, O que é que é preciso corrigir? Vamos lá ver,
nós em Portugal, é uma discussão, enfim, digamos, da academia e das
elites portuguesas há cerca de 200 anos, do que é que explica
o nosso atraso relativo, porque há uma perceção, entre quem pensa Portugal,
pelo menos desde a segunda metade do século 18, de que Portugal
é um país que está atrasado, evidentemente é um país que está
atrasado em empobrecido em relação àquilo que são os países mais ricos
da nossa área, portanto, evidentemente durante muito tempo o Reino Unido e
depois a Alemanha e a França, e depois os Estados Unidos no
século XX. E essa questão, evidentemente, tem levado a imensas teorizações distintas,
até porque é preciso não esquecer que ao longo desses 200 ou
250 anos tivemos fases melhores ou piores, e por fases melhores e
piores, quer dizer, de aproximação à média e de afastamento da média.
E há evidentemente explicações, digamos, três ou quatro grandes ou cinco, se
quisermos, tipos de explicações. Uma evidentemente tem a ver com a nossa
área geográfica, quer a nossa localização na Europa, quer a nossa pequenez
em termos de geográfica ao pé de Espanha ou dos outros países
como França ou Alemanha. Depois há teorias que vêm em relação à
questão cultural, não é? Portanto, no século XIX uma das teorias em
vogue era exatamente o nosso catolicismo e que o facto de sermos
católicos por comparação com os países protestantes explicaria porque é que nós
ficámos para trás, porque é que não apanhámos a revolução industrial, porque
é que não apanhámos a segunda revolução industrial e depois porque é
que vamos sempre atrás dos outros países. E eu acho que começou
a ganhar a partir talvez dos anos 50 esta questão da explicação
das instituições, em que temos de ter algum cuidado com o que
queremos dizer por instituições, porque também como comentávamos há pouco, a certa
altura as instituições podem transformar-se numa tautologia, porque se nós chegamos à
conclusão de que as instituições explicam o nosso atraso porque tudo o
resto não explica, que é um pouco o ponto em que a
certa altura se chega nestas discussões, é um pouco tautológico, não é?
Quer dizer, porque é tudo que não conseguimos explicar a gente vai
lhe chamar de instituições. E as instituições em si mesmo são reflexos
da nossa sociedade, portanto, as instituições, até porque ao longo dos 200
anos nós já tivemos vários regimes políticos e portanto significa que já
tivemos várias construções das instituições. E combinam-se aqui vários elementos. Há uma
ideia que eu acho que nos últimos 40 anos ganhou força, mesmo
em termos daquilo que são as teorias europeias, que é a questão
de nós termos fundamentalmente elites extrativas. E elites extrativas, e por elites
extrativas queremos dizer elites que vivem dos recursos disponíveis para a sociedade
em vez de produzir recursos para a sociedade. E porquê é que
nós temos elites extrativas? E aí há uma combinação de fatores, porque,
por exemplo, uma das explicações em voga, que mesmo em conversa menos
técnica as pessoas gostam de indicar, é por exemplo a pequeneza do
país. Bem, mas há países muito mais pequenos
que o nosso
e que não têm este problema de elites extrativas. Bem, aí depois
vem a questão, mas é que somos pequenos e periféricos. Bem, mas
a periferia em relação a quê? Porque também podemos pensar em países
pequenos periféricos e que, estou a pensar, sei lá, a Irlanda, que
é um país pequeno e periférico e que nos últimos 100 anos,
evidentemente, conseguiu fazer o ketchup, coisa que nós não
Nuno Garoupa
a Islândia para ir ainda mais pequeno e mais periférico. Evidentemente que
é, ok, periférico e pequeno, mas depois entra a questão, ah, mas
é questão cultural. Bem, mas então já é periférico, pequeno e a
questão cultural. E, portanto, é evidente que há um conjunto de fatores
que de alguma forma se coordenam para que expliquem este problema, que
eu acho que é um problema que nós temos histórico e no
presente muito concretamente, de instituições que não conseguem ser elas alicerce para
o desenvolvimento económico e para fazermos de alguma forma, ou pelo menos
reduzir, a diferença que existe entre nós e a média, digamos, europeia.
Isso tem a ver com mecanismos da própria reprodução das elites. Um
dos aspectos que eu gosto de focar é que nós temos umas
elites que tendencialmente são de cooptação e não de concorrência, isto é,
as
pessoas não realmente concorrem na nossa sociedade para atingir os pontos, os
postos das elites, são essencialmente cooptados pelas elites incumbentes. Acho que isso
durante muito tempo, digamos nos últimos 70 anos, conseguiu ser feito através
das universidades, porque no fundo as universidades formavam as elites, mas as
próprias universidades ao não estar massificadas, elas próprias escrutinavam já quem é
que podia ir à universidade. E, portanto, evidentemente isso era por processo
de cooptação, porque só os filhos das elites passavam na universidade. Com
a massificação da universidade os processos alteraram-se ligeiramente, mas nós continuamos a
observar essa cooptação. E essa cooptação tem aspectos económicos, é evidente que
nós somos um dos países na Europa com maior presença de empresas
familiares, não é? Se nós pensamos os grandes grupos portugueses em geral
são grupos familiares, isso evidentemente significa cooptação. São as elites políticas e
são as elites universitárias, todas elas são mecanismos de cooptação e isso
evidentemente, na minha opinião, explica alguns dos problemas das instituições que nós
temos.
José Maria Pimentel
Sim, o Nuno disse uma série de coisas que dá para nós,
agora, decalcarmos e até vou fugir à tentação de pegar já neste
último, que era da questão das elites e dessa cooperação que tem.
É interessante até porque liga a outras questões, como o nosso extremo
desconforto com, sei lá, termos, por exemplo, jornais que não se assumam
justamente ao centro e tudo o que for judeu. Mas já eu
vou. Porque isto é, como o Nuno aludiu, é difícil no sentido
de que tudo isto está relacionado. Há feedback loops, não sei como
é que se diz em português. Ah, claro. Isto é uma espécie
do programa
José Maria Pimentel
Exatamente. Era a analogia até que eu ia usar. Há desde logo
aqui duas características da história. A questão das instituições trativas é uma
que o Nuno também eludiu há pouco, tem muito a ver até
com aquele trabalho do Assemol e do Robinson e eles próprios chamam
a atenção para isso, para a questão contingencial e aleatória da história.
Há um lado aleatório que é impossível fugir e que tem um
peso aqui grande. E depois haverá outro lado que não é aleatório.
Há um lado que não sendo puramente aleatório, ainda próximo disso em
termos dos efeitos, que é a questão das condições iniciais. Portanto, as
condições iniciais, aquela questão da teoria do caos, mas as condições iniciais
ditam, ou pequenas alterações nas condições iniciais ditam desenvolvimentos completamente diferentes. Por
exemplo, uma das coisas que me ocorreram logo, quando estava a pensar
nisto, tem a ver com o facto de, historicamente, os terrenos agrícolas
em Portugal serem muito pouco produtivos. Hoje em dia isso não é
que seja irrelevante, mas não é uma coisa particularmente importante. Mas na
Idade Média era. Na Idade Média isso ditava uma decalagem no desenvolvimento.
Eu
Nuno Garoupa
exato. Portanto, eu acho que é evidente que há condições iniciais e
que têm a ver, evidentemente, estamos localizados onde estamos localizados na Península
Ibérica, o facto de só termos há cerca de 600 ou 700
anos um único vizinho geográfico e que é um país bastante maior
que o nosso e que partilha connosco muitos aspectos culturais históricos, não
é um país diametralmente diferente do nosso e, portanto, tudo isso influencia.
Agora, há um aspecto que eu acho que é fundamental e que
ainda hoje nos distingue dentro da Europa e eu acho que é
um dos grandes responsáveis, inclusivamente pela deterioração das instituições e pelos problemas
político-económicos que temos hoje em dia, que é, nós somos uma sociedade
que tem uma característica de muito baixa confiança interpessoal. Eu ia falar
disso também, capital social. Exatamente. Portanto, nós temos muito baixa confiança interpessoal.
E uma sociedade que tem muito baixa confiança interpessoal, e o que
é que isto quer dizer? Quer dizer que desconfiamos de todos, cria...
Menos de nós próprios. Menos de nós próprios, cria dois problemas. Primeiro,
um excesso de identificação com a família, não é? Porque
evidentemente
que o ser humano necessita de alguns laços de confiança para poder
sobreviver na sociedade e, portanto, como nós desconfiemos de todos, o único
nível de confiança que temos é as pessoas que estão imediatamente à
nossa volta, que é a família. Ora, isso cria um problema grande
porque a sociedade não é uma mera soma de famílias. E o
segundo problema é que nós não conseguimos criar instituições para promover essa
confiança. Não é por acaso que, em geral, os portugueses têm uma
enorme desconfiança em relação às leis, porque percebem nos seus genes que
as leis são feitas para favorecer um determinado grupo em desfavor do
outro e, portanto, isso geneticamente já está na nossa forma de pensar,
ou seja, que a lei, nós nunca entendemos a lei como forma
de melhorar a sociedade, entendemos sempre a lei como uma função redistributiva,
se há lei, se estão a fazer esta lei para favorecer alguém
à custa de alguém, o nosso problema é sempre perceber se esta
lei me está a favorecer a mim ou se está a favorecer
o vizinho, isto é um problema. E as próprias instituições políticas em
que nós temos uma noção sempre meramente redistributiva, ou seja, é como
se a sociedade portuguesa estivesse a jogar um jogo de salma nula.
E,
Nuno Garoupa
se o meu vizinho tem mais um pão, quer dizer que eu
fiquei com menos um pão e, portanto, tenho um problema. E daí
que vem aquela coisa que muita gente sempre também observa que há
uma imensa inveja, o grau de inveja, porque o grau de inveja
reflete a falta de confiança intera pessoal e a pobreza, porque nós
somos um país pobre, quer dizer, nós tradicionalmente, pelo menos desde o
fim do império dos descobrimentos, há 400 anos, que somos um país
que está habituado a ser pobre e, portanto, é evidente que é
um país fundamentalmente desconfiado e impujoso. Ou sentir-se pobre também. Mas durante
muitos séculos fomos efetivamente um país pobre. Há pouco tempo saíam vários
trabalhos académicos sobre a evolução do nosso PIB per capita, desde o
Marquês de Pombal, e nós temos períodos de perda de PIB muito
continuados no tempo, de 20, 30 e 40 anos. Portanto, nós somos
um país realmente que estava habituado a ser muito pobre. E isso
cria complexos e formas de pensar a sociedade que ainda hoje não
fomos capazes de superar. Depois há outros aspectos que têm a ver
com a própria ruralidade da nossa sociedade, que apesar de já termos
feito grandes esforços e grandes progressos nos últimos 50 anos, que continuam
a existir. Por exemplo, a ideia de que tudo se trata de
pensamento positivo ou de pensamento negativo. Portanto, nós temos ainda uma certa
obsessão com o pensamento mágico, porque na verdade numa sociedade rural o
indivíduo não controla se amanhã vai haver mais produção ou menos produção,
porque depende do tempo, depende da chuva, depende de condições que o
próprio não controla. Ora, isso é pré-revolução industrial, porque a partir do
momento em que há a fábrica, a fábrica controla o processo de
produção. Mas nós, em muitos aspectos, ainda temos uma ruralidade imensa da
aversão ao risco e desse pensamento mágico de que se todos fomos
optimistas as coisas correm bem, se somos todos pessimistas as coisas correm
mal. O que depois nos leva a uma certa bipolaridade, como também
temos momentos de grande estas e somos o melhor país do mundo,
seguidos de momentos em que somos o pior país do mundo, quando
evidentemente não somos uma coisa nem outra, quer dizer, somos o que
somos. Exato.
Nuno Garoupa
historicamente, e nós vemos o século 18, século 19, que é, como
em certa medida nós somos uma sociedade pré-revolução industrial, até certa medida,
enfim, com limites, obviamente, e portanto há que pôr isto em contexto,
porque o que eu vou dizer pode parecer que estou… e vou
exagerar um pouco para o argumento, que é, até certo ponto, a
acumulação de riqueza na sociedade portuguesa, historicamente, foi sempre por fatores que
não estão diretamente relacionados com o modus de control ou, digamos, a
alocação de capital humano e que tem a ver ou com fatores
de proteção por parte da croa ou do Estado e que, portanto,
autorga a determinado indivíduo o poder de monopólio numa certa área, o
que leva evidentemente esse indivíduo e os descendentes desse indivíduo a acumularem
riqueza ou... Uma renda no fundo. Exato, ou com fatores completamente exógenos
e, portanto, não há, nós até muito tarde não temos uma burguesia
pós-revolução industrial. Isso só acontece praticamente no final do século XIX e
no princípio do século XX. Isso também leva à ideia, como existe
na sociedade portuguesa ainda hoje, em 2019, de que quem acumula riqueza
não acumula riqueza porque trabalhou ou porque fez as decisões corretas no
momento correto. Acumulou riqueza porque vulgo expressões, teve taxo, conhecia a pessoa,
alguém o protegeu. E esta lógica, que é uma lógica muito corriqueira,
mas é uma lógica que na minha opinião, podendo estar incorreta hoje,
reflete o saber dos últimos 400 anos, que de facto, grande parte
dessa acumulação foi sempre uma acumulação que não tem a ver diretamente
com bons investimentos ou com ganhos de produtividade. E,
Nuno Garoupa
outra vez. Nós continuamos a ter acumulação de riqueza que, evidentemente, não
reflete, digamos, ganhos de produtividade ou investimentos bem feitos. Agora, a questão
é que nós nos nossos próprios valores, atribuímos quase tudo a uma
mão invisível, mas não uma mão invisível no sentido econômico... Uma mão
misteriosa. Mais uma mão misteriosa, exato. Uma mão misteriosa que por alguma
razão protegeu aquele indivíduo e não protegeu os outros indivíduos. Isto tem
a ver, evidentemente, com o papel do Estado, não é só hoje,
mas nos últimos 400 anos, em que de facto um Estado muito
centralizado e muito forte fez sempre que houvesse uma enorme corte à
volta desse Estado, que beneficiou e que beneficia através de rendas extra
ativas desse próprio Estado. E isso é parte da nossa história, não
vale a pena estar a escamutear.
José Maria Pimentel
A questão do capital social, se eu tivesse que apontar algum em
particular, era aquela que eu acharia mais importante, embora lá esteja relacionada
com outras coisas, porque ajuda a explicar uma série de coisas, ajuda
a explicar outra coisa que o Nuno também falava, que é a
nossa propensão para as revoluções em vez de evoluções. E as revoluções
não são mais do que um certo estado de coisas que se
torna tão incomportável que estala. E no dia anterior, e isso é
sempre curioso nas nossas revoluções, já não é a primeira vez que
falo disto, no dia anterior à Revolução, parece sempre estar tudo bem.
E depois estala, de repente, porque não. Porque as pessoas não são
capazes, a minha explicação para isso, a explicação parcial, é que não
há uma capacidade de uma regeneração por dentro, não é? Numa adaptabilidade.
Isso
Nuno Garoupa
se pode aplicar um bocadinho aqui assim, porque nós somos um pouco
assim, quer dizer, e isso tem a ver com essa questão, precisamente
entre revolução e evolução. E nós, pela baixo capital social, pelo facto
de termos instituições extrativas que elas próprias são incapazes de se regenerar,
não é? Porque uma das coisas interessantes, talvez, das últimas revoluções que
nós tivemos, seja a primeira república, seja a queda da monarquia, a
primeira república e depois o Estado Novo e portanto o 25 de
Abril, todas elas são revoluções que qualquer pessoa que estuda o assunto
percebe que eram quase inevitáveis e no entanto as instituições foram incapazes
de se regenerar para evitar a revolução. Portanto, É evidente que ninguém
sabia que o 25 de Abril ia ser naquele dia de 24,
ou que o 28 de Maio ia ser 28 de Maio de
26 ou 5 de Outubro, antes de acontecer. Mas toda a gente
percebia que ia haver um 5 de Outubro, e que ia haver
um 28 de Maio e que ia haver um 25 de Abril.
E isso significa que as instituições estão de tal maneira tomadas pela
procura de extração de rendas que elas próprias não são capazes de
sacrificar algumas dessas suas rendas para dizer sacrifica-se um bocadinho aqui para
ir ali.
E
esse é o grande desafio que eu acho que Portugal tem neste
momento. É que nós talvez somos a primeira, o primeiro conjunto de
gerações de portugueses que tem o desafio pela frente de fazer evolução
em vez de revolução. Coisa que os espanhóis já fizeram em 78,
obviamente, 76, 78 e coisa que até os gregos de alguma maneira
fizeram nestes últimos 10 anos com o realimento do sistema partidário e
com a alteração, enfim, da configuração do sistema partidário grego. Nós não
conseguimos fazer ainda e esse é o grande desafio porque nós não
vamos evidentemente ter agora aqui outro 25 de abril ou outro 28
de maio. Nós vamos ter que saber como é que se passa
da atual geração do poder para a próxima geração do poder nos
próximos 20 ou 30 anos num sistema de evolução de instituições. E
eu acho que a grande dúvida neste momento é como é que
isso vai ser feito, pelo simples lado, que nunca fizemos historicamente. Portanto,
como é que nós vamos ter capacidade de evoluir nessas instituições? Sente-se
certo que já Fernão Lopes, naquela celpe frase dizia, levanta-se uma nova
geração, em que ele queria dizer exatamente o contrário, não é? Que
se tinha feito 1383, 1385, para que no final do século XIV,
afinal já estavam os mesmos a mandar na corte que tinham mandado
no tempo de D. Fernandez. Portanto, é evidente que nós fazemos evoluções
e revoluções para, no fundo, baralhar e dar de novo. Agora, a
questão é, ele tem que ter períodos em que esta evolução acontece.
Nós já percebemos pela Europa fora, os países mais ricos que nós,
já fazem isso há várias gerações. Os alemães e os franceses há
duas ou três, os britânicos provavelmente há 200 anos, nós não temos
questão de cátedra. E isso tem a ver, de facto, com uma
sociedade que não gosta e lida mal com o pensamento crítico. É
uma sociedade conformista e até a ser, de ponto, conformada e, portanto,
lida muito mal com tudo o que seja falar fora daquilo que
a sociedade entende que é aceitável. Depois, eu acho que isso redica,
tem consequências a vários níveis e isso nota-se na questão da produção
de conhecimento, não é? Quer dizer, eu acho que o grande problema
de Portugal não é, como algumas pessoas têm apontado, as redes sociais,
o nível do debate estar dominado pela espuma, o facto dos jornais
ou a comunicação social em geral estar dominada 90% por políticos e
que, portanto, há muito pouca discussão de opinião, mas sim muitos comissários
políticos a defender o ponto de vista do seu grupo ou da
sua instituição. Tudo isso é verdade, mas até certo ponto, enfim, outra
vez, relativizando, também pode acontecer em outras sociedades.
Onde
nós nos distinguimos é a completa ausência de produção de conhecimento. Portanto,
nós não temos produção de conhecimento. Portanto, voltando, não há think tanks.
Em Portugal, basicamente, não há think tanks. Tanto que não há, que
nós chamamos think tanks de coisas que não são think tanks. Porque
um think tank é uma produção de conhecimento e nós, de facto,
não vemos não há produção de conhecimento. E ao não haver essa
produção de conhecimento... E porquê que não há produção de conhecimento? Não
há produção de conhecimento porque as duas elites que mais beneficiariam dessa
produção de conhecimento não estão interessadas. A primeira, evidentemente, é a elite
económica. É evidente que nós temos um poder económico que é muito
diferente do poder económico de outras sociedades, porque é um poder económico
fundamentalmente dependente do Estado e, portanto, não está interessado em produzir conhecimento
que seja ameaça ao próprio Estado. E por estado aqui quer dizer
o regime que esteja vigente. Foi um poder económico pendurado no Estado
Novo, agora é um poder económico pendurado no Bloco Central. E, portanto,
esse poder económico não vai financiar a produção de conhecimento, porque essa
produção de conhecimento ela própria abre feridas naquilo que é o bloco
central dos interesses. Portanto, o poder económico não tem um interesse na
produção de conhecimento, como tem países como o Reino Unido, Estados Unidos,
Alemanha e França e outros países. E depois temos a própria elite
política. A nossa elite política, nesta altura, dado o nível de degradação
também que nós chegámos, já aceita que as políticas que são para
ser implementadas são as políticas que nos são impostas pela União Europeia
e, portanto, a União Europeia diz como é e nós fazemos. Tudo
o resto autóctone, não há produção de qualquer conhecimento. E nós vemos
que os governos sucedem-se e é aberrante como nem sequer se consegue
começar a discutir reformas. Talvez os mais novos já não se lembrem,
mas quer dizer, nos anos 80 até meados dos anos 90, ainda
era habitual os governos, quando queriam fazer reformas da saúde, da segurança
social, de tudo o resto, de produzir livros brancos, que de facto
eram livros de produção de conhecimento. Hoje em dia já não há
livros brancos de nada, ninguém produz livros brancos de nada, portanto é
um conjunto de medidas avulsas para paliativos de questões concretas... E De
curto prazo. De curto e sim prazo. E, portanto, não há produção
de conhecimento, todos já percebemos, enfim, entrando um pouco na área que
me diz mais respeito academicamente, na área da justiça, que a justiça
portuguesa não funciona. Mas ninguém já sabe como sair desta emburlhada. Quer
dizer, a justiça não funciona e não vai funcionar. Isso depois cria
a outra questão que há pouco falavas, que é, enquanto as elites
económicas podem ter uma ideia mais, e eu acho que têm, depois
não querem aceder por questões extrativas, de que os equilíbrios não são
sustentáveis, as elites políticas ao to enganam-se com a imutabilidade do regime.
E,
portanto, quando há pouco falávamos, sim, eu acho que na monarquia as
elites políticas não perceberam que a monarquia no estado em que estava,
inevitavelmente, tinha que ter uma queda.
E
o processo levou 50 anos. Mas eu acho que sim, as elites
políticas ao tão convenceram-se que aquilo era imutável, como no Estado Novo,
eu acho que as elites políticas do Estado Novo se convenceram que
mesmo com a morte de Salazar, o regime era imutável ad interno,
sem perceber que é inevitável que isto vai ter uma crise. As
atuais elites políticas, nomeadamente partidárias, estão a cometer o mesmo erro. Elas
estão absolutamente convencidas que isto vai ser alternância de PS e PSD
até o fim da eternidade e, portanto, estamos como o Fukuyama, a
história acabou e a partir de agora é sempre a ESPSD para
os próximos 400 ou 500 anos. Quando qualquer pessoa que está de
fora percebe que vai ser um processo complicado, por todas as questões
que já falamos, mas isto não é imutável. Quer dizer, o sistema
partidário, os partidos, o Estado, vai ter que mudar. Agora, a minha
opinião é que essa mudança, como é muito lenta, vai criar esta
ilusão de que não estamos numa transição e de que as coisas
parecem que não estão a mudar. Mas eu acho que se daqui
a 50 anos olharmos para trás, vamos ver que as coisas já
tinham começado a mudar no princípio do século XXI.
Nuno Garoupa
no longo geral, por exemplo, 50 anos. Sim, sim, absolutamente. Eu acho
que as nossas mudanças podem acontecer em 3 anos ou em 50
anos, dependendo
de fatores exógenos. Eu tenho a opinião que se amanhã houver uma
catástrofe económica na Europa, nós vamos ter mudanças aqui muito mais bruscas
do que se de facto continuarmos neste crescimento que permite manter a
sensação de que não estamos assim muito mais pobres do que há
10 anos. Então, isto se calhar pode levar 50, 60 anos até
essas mudanças, elas próprias serem graduais, quer dizer, não tem que ser
mudanças bruscas como foi o 25 de Abril ou o 28 de
Maio ou o 5 de Outubro.
Nuno Garoupa
de resolver. Isso é verdade, mas eu gosto de dar o exemplo
do Reino Unido. O Reino Unido teve que fazer a transição a
partir de certa altura, quando emergiu, evidentemente, o eleitorado, digamos, operário, popular,
que não estava representado nos dois partidos, que eram os conservadores e
os liberais. E, portanto, apareceu o Partido Trabalhista. A transição em que
o Partido Trabalhista acaba por substituir o Partido Liberal, o que também
não era óbvio ao princípio de que isso fosse acontecer, porque poderia
ser o Partido Conservador que tinha desaparecido, essa transição vai desde o
final do século XIX até 1945. Portanto, são 50 anos de um
período de transição e que parte dele caracterizado, exatamente como estamos a
passar em Portugal, que é os anos 30, em geringonças de geometria
variável porque nenhum partido consegue de facto ser preponderante na sociedade inglesa.
E portanto é possível, por isso é que eu acho, nós já
estamos nesse processo. Agora, não sei o que vai acontecer daqui a
30 ou 40 anos, mas nós vamos ter um processo de reconfiguração,
pela simples razão de que os atuais partidos hegemónicos do sistema partidário
não correspondem, nem refletem as divisões da sociedade portuguesa nem da sociedade
moderna, porque nós temos hoje muitos outros temas que nos dividem e
que temos opiniões divergentes e que não são a esquerda-direita ou saúde
privada ou saúde pública e isso inevitavelmente tem que relevar a reconfigurações
do sistema partidário. Os ingleses estão a passar pelo mesmo processo, obviamente
pela questão europeia do Brexit, porque é evidente que o Partido Trabalhista
e o Partido Conservador não refletem neste momento aquilo que devia da
sociedade inglesa, mas isso é um processo que eles provavelmente vão fazer
em 10, 15 anos. Nós vamos falar mais tempo também pelas nossas
contingências e pelas nossas questões, mas é evidente que se nós olharmos,
percebemos que, pelo menos, nos meados de 90, as coisas já estão
a alterar-se e refletem dinâmicas distintas da nossa sociedade portuguesa. Eu acho
que qualquer pessoa hoje com menos de 30 anos ou 35 anos
tem muita dificuldade em rever-se de uma maneira alternância do PS e
do PST porque não representa de facto aquilo que são as suas
inquietudes e as suas visões sobre a sociedade portuguesa. Sim,
Nuno Garoupa
a questão é que talvez há 100 anos, se estivéssemos a ter
esta conversa há 100 anos, ia nos parecer mais natural que viesse
aí um momento em que, pronto, há uma revolução, há qualquer coisa
e a sociedade tem uma descontinuidade, reorganiza-se e emerge um novo regime.
Eu acho que isto não nos vai acontecer e, portanto, eu acho
que nós vamos ter que fazer essa evolução, digamos, utilizando as palavras
do final do Estado de Novo, vamos ter que fazer agora sim
a evolução na continuidade e essa evolução vai depender muito de fatores
externos a Portugal.
José Maria Pimentel
Se acontecer é mau sinal, ou seja, se isso tiver que acontecer,
a prazo seria mau sinal. Olá! Gostam do podcast? Se quiserem contribuir
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pelo apoio, mas para já voltamos à conversa.
Eu
queria só voltar a enfatizar aquele ponto que eu estava a fazer
há bocadinho. Porque é uma... Lá está, eu tenho dificuldade em ver
como é possível essa alteração ocorrer de dentro. Porque uma das... É
um bocadinho a questria do ovo à galinha, mas um dos problemas
das instituições extrativas é esse mesmo, não é? Que têm dificuldade em
se organizar para alterar. E até pode ser irracional não o fazerem,
no sentido em que a alteração pode não resultar e a alteração
pode não ser forçada, então tem uma certa probabilidade de lhe ser
forçada através de uma revolução e, portanto, se calhar é melhor ficar
quieto e se calhar o valor esperado de ficar a contar com
as rendas é melhor do que o... Mas
Nuno Garoupa
é por isso que nós não... É por isso que, quer dizer,
isto é um pouco de futurologia. Nós temos diferentes modelos na Europa,
não é? Quer dizer, nós temos um modelo, digamos, italiano, francês e
o próprio... A experiência espanhola, em que os partidos aparecem e desaparecem,
não é? E, portanto, o que há é reconfigurações permanentes dos sistemas
partidários que refletem reconfigurações da sociedade, não é? E, portanto, o que
acontece é que a certa altura, isto é como prazo de validade,
há um determinado partido que já não tem e desaparece. Mas também
temos um outro caso completamente oposto e que pode até ser, paradoxalmente,
aquilo que nos vem a acontecer a nós, que é o caso
americano. O caso norte-americano é, os mesmos dois partidos, em termos...
Nuno Garoupa
existem há 150 anos, representam coisas completamente diferentes. Completamente diferentes. Portanto, é
evidente que o Partido Republicano hoje não tem nada a ver com
o Partido de Abraham Lincoln ou o próprio Partido Republicano anterior à
Segunda Guerra. Com o Partido Democrata hoje não tem nada a ver
com o Partido solista-esclavagista anterior à guerra e depois o partido do
FDR e do próprio Kennedy. Portanto, eu não estou... Eu posso entender
que uma das coisas que possa vir a acontecer é o nosso
regime democrático continuar a ser dominado pelo PSD e pelo PS, mas
que esses partidos dentro de 30 anos não tenham nada a ver
com o seu conteúdo atual, ou seja, que o label é o
mesmo, as siglas são a mesma, apesar de eu ser um defensor,
já escrevi que eu acho que mudanças de siglas é muito saudável
e fazia bem, porque também acredito no marketing e acho que os
produtos de vez em quando têm que mudar de cor e de
embalagem, mas até admito que não seja assim, que seja a mesma
embalagem, mas o líquido que está lá dentro é completamente diferente. E
isso pode vir a acontecer. Eu até acho que há alguns sinais
disso também. Acho que não são sinais muito fortes, mas acho que
as alterações que aconteceram, quer no PS com a Jaringonça, quer no
próprio questão que está acontecendo dentro do PSD, porque nós podemos dizer
que o PSD que era de Passos e o PSD de Rio
são coisas bastante diferentes e que só por coincidência é que têm
o mesmo nome. E,
pronto,
é possível que isso venha a acontecer, não sei.
José Maria Pimentel
Isso agora já estamos aqui a fazer futurologia. Mas o caso dos
Estados Unidos é interessante para o ponto que eu ia fazer, porque
pegando o exemplo da época dos civil rights, quando há ali o
Partido Democrata ganha um novo eleitorado e ao mesmo tempo perde aquele
eleitorado do Sul, que se opunha determinadamente às alterações que foram feitas.
Esse é um exemplo de uma... Houve aquela mudança, ocorreu, ainda por
cima, quem protagonizou essa mudança, até era uma personagem improvável, o Leland
Johnson, que não era à partida o tipo que ia fazer aquilo,
aquilo ocorre porque há uma sociedade civil que lá está diversa, dinâmica
e que pressiona nesse sentido e, portanto, o ponto que eu queria
fazer é dificilmente, é muito difícil, aliás, se ocorre na nossa vida
particular, dificilmente nós alteramos os nossos defeitos se não tivermos alguém a
forçar-nos a fazer isso, seja a nossa mulher, seja um amigo nosso,
alguém que nos seja próximo. E isso, fazendo aqui o paralelismo tosco,
isso também acontece muito ao nível dos países. O que não quer
dizer, e era aí que eu queria chegar, o que não quer
dizer que não possam ser tomadas medidas para gerar essa dinâmica e
essa diversidade. Por exemplo, o caso da China, que é um caso
interessante. E eu fiquei a pensar nisso por causa do, justamente, do
livro do Assemóvel e do Robinson, e até falava a certa altura
com o Ricardo Paz-Mamete sobre isso, da questão das instituições, e ele
lançou logo o exemplo da China, que é um exemplo muito comum,
dizer, sim senhor, Essa tese é muito bonita, mas na China não
funciona, porque a China é uma ditadura, como todos nós sabemos. Mas
mesmo na China, depois apenhem um livro recente, bem interessante, chamado Como
a China Conseguiu Escapar à Armadilha da Pobreza, de uma autora chamada
Yuan Yuan Ang, que será da própria descendência chinesa. E aquilo é
muito interessante porque ela mostra como, enquanto para o nosso olho ocidental
não se passou ali nada, manteve-se uma ditadura, manteve-se um controle apertado
do poder, manteve-se uma burocracia estatal, na prática eles criaram num sistema
uma série de válvulas que agora o presente atual está mais ou
menos a reverter, de criar justamente essa dinâmica, criar competição entre províncias
diferentes, criar... Estes são conhecidos, não é? Aquelas províncias de Sanjano, por
exemplo, lá no fundo, províncias, não cidades, onde eles criaram bolsas de
inovação, criar capacidades de improvisação concorrente entre os títulos diferentes. E isso,
por exemplo, é uma coisa que eu veria-se como muito saudável fazer
em Portugal e vejo pouco. Ou seja, Quando se fala em concorrências
entre escola, concorrências entre modelos diferentes, entre hospitais diferentes, por exemplo, ou
entre tribunais, calhar já é um bocadinho mais difícil fazer isso, mas
tudo isso me pareceria, para o FICO, porque cria esta diversidade, cria
esta dinâmica, não é?
Nuno Garoupa
Mas é que aqui temos que ter alguns elementos em mente, é
que a primeira questão é, nós não podemos deixar de nos guiar
por ideias generalistas, portanto, quando se diz a China é uma ditadura,
sim, a China evidentemente neste momento é um regime autoritário, mas a
questão é que nos últimos 100 anos o grau e a estrutura
e a organização dos regimes autoritários chineses têm variantes. E, portanto, pensar
que a China dentro daquilo que é um regime autoritário é imutável
não é verdade. Isto também se aplica ao Portugal, voltando àquela questão,
quer dizer, nós podemos ter de hoje até ao fim da eternidade
democracia, o que não quer dizer que temos o mesmo regime democrático,
porque há variantes entre o regime
democrático.
E portanto, é evidente que a China nunca teve um regime democrático,
mas o autoritarismo, aliás, até, como estávamos a dizer, hoje há uma
certa conjunta de regressões dentro da própria China e eu até diria
que hoje a China tem um regime mais autoritário do que tinha
há 10 anos. Exatamente. Portanto, as coisas vão e vêm. Agora, a
China tem uma grande vantagem sobre nós, que é a dimensão. É
que mesmo num regime autoritário, existe um grau de concorrência inevitável dado
à dimensão. Quando as pessoas dizem, bem, os chineses não votam para
o presidente, os chineses não votam para o congresso chinês. Sim, mas
o facto deles terem um país enorme significa que mesmo dentro do
partido único há um nível de concorrência enorme que possivelmente em algumas
questões até é superior ao nível de concorrência que nós temos entre
os partidos que estão na Assembleia da República. Porque é evidentemente que
quando vamos ter eleitorados de 30, 40, 50, 60 mil pessoas para
eleger aquilo que são os deputados, por exemplo, no Congresso, isso é
muito maior do que temos dentro dos partidos políticos portugueses que são
eleitorados mínimos. E, portanto, é preciso pôr as questões em contexto. O
desafio da China é demonstrar que a teoria do Acemoglu e do
Roderick e de muitos outros, de que é possível ter taxas de
crescimento em sistemas autoritários até certo nível. E portanto, chegam àquilo que
eles chamam de fronteira de possibilidades autoritária. E que para ir além
disso vão ter que fazer reformas democráticas. Isso é que a China,
vamos ver se isso é verdade ou não é.
Nuno Garoupa
Pois, a questão é saber se está e se isso é verdade,
se essa fronteira existe,
no sentido de que
para ir além dessa fronteira tem que fazer... Assim, no curtíssimo prazo
parece que não, porque eles até estão a fazer regressões nessas reformas.
Agora, no caso português, é isso que eu acho, é um problema
porque toda a concorrência que queiramos ter entre hospitais, escolas, tribunais, centros
de investigação, universidades, no caso português, por causa daquilo que temos estado
a falar das instituições, da falta de confiança, etc. Tudo isso tem
que ser imposto e logo isso é uma concorrência algo artificial, porque
o Estado impõe a concorrência, ela não é gerada a partir da
sociedade.
Nuno Garoupa
eu percebo e concordo. Isso é muito importante, por exemplo, uma área
que me toca evidentemente, e na Agora também, tivemos os resultados dos
concursos da FCT, dos Centros de Investigação, e perguntam, mas porquê que
nos Estados Unidos não há? Bem, nos Estados Unidos não há porque
não há necessidade, porque dada a dimensão, eles estão naturalmente em concorrência.
E as coisas surgem. E na Europa, desde as reformas da Thatcher,
e aquilo que nós fazemos hoje em avaliações da FCT, enfim, infelizmente
para quem não gosta da Thatcher, isto vem da Thatcher, foram coisas
que a Thatcher fez no Reino Unido de 1980 e que todos
copiámos. Estas concorrências que existem são na verdade artificiais, porque elas são
feitas a partir do Estado para tentar forçar concorrência que não existe
naturalmente, porque o país é pequeno e, portanto, rapidamente está cartelizado. E
isso cria-nos um problema, porque até que ponto é que essa concorrência
é sustentável quando os incentivos naturais são contrários a ela? Ou seja,
numa sociedade que estamos naturalmente cartelizados, como é que nós vamos conseguir,
por mais que o Estado faça um esforço enorme de impor concorrência,
como é que essa concorrência sobrevive? É preciso mexer
nos incentivos também.
É evidente. E aí, evidentemente, que há coisas que podem ser feitas,
não estou a dizer que não, mas há que perceber que estamos
sempre a enxertar
transplantes
num corpo que não gosta dessa forma
de
estar. E nesse sentido, há uma frase, enfim, já muito esquecida, da
primeira vez que o o Professor Cavaques Silva, como o primeiro ministro,
fez uma visita à China e que eu acho que foi uma
das frases e não sendo eu propriamente um fã do cavaquismo, mas
que gosto de citar porque acho que ele viu isso muito bem,
que ele dizia a China é o país socialista mais capitalista do
mundo e Portugal é o país capitalista mais socialista do mundo e
de facto isto tem... Em que evidentemente ele está-se a referir à
questão económica e depois à questão social. Nós de facto somos um
país economicamente capitalista, mas sociologicamente adeptos do coletivismo e da cartelização. Não
quero chamar isso de socialismo, mas enquanto a China evidentemente tem os
géneros contrários. E eu acho que isto explica muito dos nossos problemas
E voltando a como nós começámos, muitos deles que têm a ver
com o capital social, são problemas que não, mesmo que haja uma
gerenção inteira que queira resolver, não se conseguem resolver de um dia
para o outro, porque não é possível legislar e decidir a partir
de agora os portugueses passam a ter confiança uns nos outros. Isto
são coisas que estão nos nossos genes e que não se alteram.
Isto tem a ver com coisas até típicas que se ouve muitas
vezes em conversa de café, porque é que os portugueses são tão
bem sucedidos lá fora e nós aqui somos um país que isto
não se desenvolve. E isto tem a ver com esse problema do
capital social. Exatamente, ou seja, não
José Maria Pimentel
É evidente que o ideal seria que isto surgisse organicamente, seria que
a sociedade conseguisse fazer o bootstrapping, conseguir puxar-se pelas próprias botas e
subir. Agora, não tendo acontecido isso, eu acho que isso seria uma
área de estudo com imenso potencial, que é exatamente perceber que pequenas
medidas é que podem ser tomadas nesse sentido e nós temos, há
medidas mais, digamos, soft e medidas mais hard, não é? Temos medidas,
a FCT é um exemplo de uma medida hard, não é? Uma
medida em que há de facto uma intervenção direta. Agora, há casos
suficientes, embora nenhum deles lá está, seja completamente adaptável, incertável, não é?
Mas há casos suficientes de países que fizeram justamente isso. Os países
do sudeste asiático fizeram muito isso, com o Estado a intervir, e
por isso é que eu não gosto muito da… não é que
eu a ache irrelevante, mas acho a redutora da dicotomia Estado-privados, porque
são importantes no seu papel. É evidente,
José Maria Pimentel
Exatamente. Ou seja, foi o Estado que… E a China, neste sentido,
ou seja, este exemplo que eu dava da China, é confiar na
tese da autora desse livro, mas que me parece fazer algo de
sentido, é no fundo criar as estruturas e ao mesmo tempo, eu
diria provavelmente também, tentar mexer nos incentivos para que isso aconteça, para
haver essa concorrência, para haver essa diversidade. Por exemplo, uma coisa que
me faz sempre muita confusão é nós não usarmos uma coisa tão
simples como ter, nós temos que testar um modelo, por exemplo, não
sabemos se ele funciona ou não, em vez de andar com uma
espécie de discussão moral, que é sempre onde fugimos em discussões políticas
de alguém está do lado do bem, alguém está do lado do
mal, vamos testar isto há alguns. Mas
Nuno Garoupa
isso tem a ver com esse problema. Nós, evidentemente também assim, quanto
mais o espaço público
não
responder àquilo que eu acho que são os problemas fundamentais em termos
da estagnação económica, nós mais vamos descambar, pelo menos no curto prazo,
no discurso do bem e do mal, porque é evidente que quando
não temos uma resposta para os problemas, a única forma é decidir
que há o bom e que há o mal e dividir o
mundo entre bom e mal. E isso também se agrava na minha
opinião e por isso é que eu acho que Às vezes entra
aquela discussão, que eu uso muito a expressão das claques, porque é
que o país se claquizou no espaço público, porque evidentemente depois olhamos
para a participação eleitoral e está em queda, não é? Portanto, é
evidente que há uma grande parte do país que se alienou disto
tudo, mas no espaço público parece que está claqueizado. Isto também tem
a ver com problemas que vêm estudados nos Estados Unidos, que é
o problema da identificação, não é? Quer dizer, o ser humano tem
que se identificar e o nosso problema é que com a perda
da importância da religião, com a perda da importância da história, da
compreensão histórica, as pessoas têm necessidade de se identificar com uma tribo,
de serem membros de uma tribo. E evidentemente o que sobra é
a claquização ou do futebol ou da política. Eu sou parte desta
tribo e quero ser parte desta tribo. Porque, mais uma vez, as
pessoas como a menina por cima não foram formatadas para não ter
pensamento crítico, sentem-se extraordinariamente preocupadas se ficarem sozinhas a dizer coisas que
mais ninguém está a dizer. E isto tem-se notado muito no espaço,
não é só em Portugal, mas acho que em Portugal nota-se muito
que estamos numa fase de claqueização que às vezes já arrassa o
irracional. Parece que estamos no futebol, parece que qualquer pessoa, com todo
respeito, escolhe o Benfica ou o Sporting ou o Porto ou qualquer
dos outros clubes por questões emocionais, porque não há nada racional
Nuno Garoupa
possível. Não, não, o mínimo possível, porque a política é responder à
organização da sociedade, o que é que eu quero para a minha
sociedade. Isso não pode ser uma questão emocional, de bons e maus,
é uma questão de qual é o meu projeto. Com o agravante,
que eu acho que isso também se passou em toda a Europa
e nos Estados Unidos e é evidente que nos está afetado também,
que é a democracia tem por base nós discordarmos das nossas opções,
mas aceitar que qualquer um de nós está a defender o que
está a defender porque entende que é a melhor opção para o
país. Nós entramos numa fase em que é o bem e o
mal, portanto o outro lado é mau e não quer o bem
do país. E a partir daí, isso evidentemente mina os alicerces da
democracia, como estamos a ver nos Estados Unidos, entre os dois partidos.
Porque parte do princípio que eu discordo, mas discordo, mas reconheço que
o outro está a defender o que está a defender, tem visão
errada, mas não é uma visão moralmente inferior, é simplesmente errada.
José Maria Pimentel
Nós entrámos numa fase em que é uma visão moralmente inferior. Ou
não é necessariamente uma visão moralmente inferior, até pode ser, até pode
vir a comprovar-se. Há um cartoon, agora lembrando-me disto, há um cartoon
da New Yorker, que eu ouvi essa piada, que é um pai
a falar, acho que é um pai a falar com o filho,
a dizer, eu e a tua mãe vamos divorciar porque eu quero
o melhor para o país e ela não. Exatamente,
Nuno Garoupa
exatamente. Que é o significado disso. Portanto, entramos nessa fase, quer dizer,
e não há de algo possível, quer dizer, não há de algo
possível. Agora, o problema em Portugal é que nós, merecer de coisas
que já aqui falámos que têm a ver com a falta da
produção de conhecimento, com o facto de haver esta afunilação ao centro,
de que toda a gente que escreve tem que ser do centro
de qualquer coisa, de que até se cria esta imagem, bem sei
que mais à direita do que à esquerda, de que a ideologia
é má. Quer dizer, ideologia é a minha forma de entender o
mundo que me rodeia. Portanto, como é que pode ser, ou aquela
célula frase, para citar agora de uma forma negativa o presidente Cavaco,
de que, como é que era, a ideologia esbarra na realidade. Não
pode, isso é uma frase que conceptualmente é errada, porque a ideologia
é a minha forma de interpretar a realidade,
como é que
ela pode esbarrar na realidade? Quer dizer, eu posso é mudar de
ideias, agora a ideologia é ela própria, é a minha forma de
interpretar a realidade. Agora nós, e vimos agora este ano com os
45 anos do 25 de Abril, continuamos muito agarrados a esta comparação
com 74, quando é evidente que em 45 anos nós fizemos uma
imensa evolução, mas é absolutamente natural e ainda bem que assim foi.
E como já falámos aqui, o sistema nacional de saúde, a massificação
da educação. É evidente que o nosso PIB, apesar de estarmos estagnados
há 20 anos, nos 20 anos anteriores duplicou. Há imensos ganhos proporcionados
pelo regime democrático. E temos a ser capazes de perceber, e nem
vale a pena entrar aqui com a discussão do contrafactual, não é?
Quer dizer, se o Estado não tivesse durado mais 20 anos, será
que... Não vale a pena porque o contrafactual não existiu. Agora, também
temos que perceber que há países da nossa área, da nossa esfera,
que estavam económica, socialmente e politicamente bastante piores que nós em 1975,
1976, 1977 e hoje são países que estão com uma capacidade económica
superior. Estão a falar de estados bálticos, da Checa e da Eslováquia,
portanto da República Checa e da Eslováquia, etc. E em Portugal não
há um debate sobre isso. O que é que eles fizeram
Nuno Garoupa
sim, justamente, exatamente. E mesmo quando se entra na desculpa, bem, mas
a diferença é que as ditaduras comunistas investiram na autodidatização da população
e o Estado Novo não fez esse investimento ou não fez um
investimento a esse grau, sendo uma discussão possível, o facto é que
isso já foi há 50 anos. E mesmo que seja verdade, vamos
dizer, mesmo que seja verdade, quer dizer, isso não me satisfaz porque
eu não posso mudar o passado, eu não posso voltar 100 anos
atrás e dizer epá, esperem lá, não se esqueçam de investigar para
daqui a 100 anos. E portanto, se essa é desculpa, é quase
como dizer game over.
Nuno Garoupa
Não, é fraco consolo porque dizer, eu sou pobre porque sou pobre.
Não pode ser, portanto, nós temos que pensar o que aconteceu nestes
50 anos, ou 40 e 50, 50 anos, que permitiu aos Estados
Bálticos fazer o avanço que fizeram e nós não fizemos. E, portanto,
se é um problema do regime anterior ou se é inclusivamente um
problema, como outros autores dizem, da localização geográfica, que o problema é
que nós estamos na periferia e os estados bálticos e a Checoslováquia
e países esto localizados ao lado da Alemanha e portanto isso permite-lhes...
Bem, mas tudo fraco aos consórcios porque a conclusão que nos leva
a isso é que então isto é fechar a loja.
José Maria Pimentel
E depois está o assunto resolvido, quando na prática isso não interessava
para nada. O que interessa é perceber, independentemente dos Estados Bálticos terem
tido uma vantagem, e poderão ter tido, ou dos países do sudeste
asiático terem tido uma vantagem, o que interessa perceber é, nós queremos
o mesmo, como fazê-lo com as nossas condições iniciais. E esse debate,
quer dizer, isso parece um... Também não quero entrar aqui num lamento
um bocado de fato, mas parece... Mas esse debate, eu não vejo
existir esse debate, não vejo a urgência
Nuno Garoupa
dessa... Não, A sensação que nós temos é que houve imensos progressos
objetivos durante, digamos, 25 ou 30 anos e que depois ficámos, naquela
expressão também à portuguesa, à sombra da bananeira. Ou seja, fizeram-se esses
grandes progressos e depois nos últimos milhões estamos estagnados a viver dos
benefícios que... E portanto, não houve a preocupação de, fizemos os progressos,
evidentemente, mas se os outros estão a fazer mais, o que é
que nos falta? E evidentemente, houve opções políticas erradas, haverá responsabilidade, e
aliás é uma coisa que insististe bem, que eu acho que é
outro problema da língua portuguesa, da própria língua portuguesa, que é a
permanente confusão entre culpa e responsabilidade. Porque uma coisa é responsabilidade, outra
coisa é culpa, e de facto há muito tempo que já devíamos
ter percebido que não vale a pena andar a atribuir culpas. Outra
coisa é que sejam apuradas as responsabilidades, e se discutam essas responsabilidades,
mas culpa de expiação e de pedir perdão e de auto de
fé porque é preciso queimar quatro pessoas ali no Torredo do Passo
para a gente ficar todos cómodos. Voltamos àquela coisa do século XVIII,
mentalidade ainda muito rural. Agora, não há de facto um debate de
porquê isto... E eu acho que parte desse... Há muitas razões porque
é que este debate não é feito, mas uma delas é a
própria humildade da classe política, porque para ter este debate nesta altura,
há que assumir que de facto alguma coisa não foi feita. E
eu acho que isso exige um grau de humildade que a classe
política não tem e que portanto prefere disfarçar, como à pouco dizias,
dizendo que este ano vamos crescer 1, 8% ou 2% e que
portanto esse debate não tem sentido porque já estamos a crescer a
2% ou os 25 mil milhões desapareceram, mas agora já temos uma
nova lei de supervisão ou agora já temos não sei o quê,
portanto não vale a pena esse debate. Porque esse debate exige alguma
humildade, que exige dizer as coisas não correram bem, não vamos apurar
responsabilidades nem vamos atribuir culpas, mas vamos pensar porque é que não
correu bem e como é que se sai daqui. E isso eu
acho que as elites políticas não só não estão a fazer, como
eu acho que há um programa que se está a gravar, que
já se nota, que é, enquanto muitas outras áreas, e toda a
gente fala da geração Erasmus e da quantidade de quadros que saem
e vêm e vão em muitas áreas, na área económica, na área
cultural, na áreas fundacionais, na área da educação, na área da saúde,
os médicos vão e vêm. O problema é que a nossa classe
política, até certo ponto, é extraordinariamente paroquial, tem muita, pouca experiência em
exposição internacional. E isto porquê? Porque a nossa classe política, na minha
opinião, continua fundamentalmente a ser recrutada de duas áreas, que são áreas
relativamente fechadas. A advocacia, portanto as profissões jurídicas, que são áreas locais,
sem grande exposição internacional, e a comunicação social. Porquê? Por causa da
língua. Ninguém vai daqui ser jornalista na BBC ou na... Sim, aqui
tivemos um. Ou em Pequim, sim, até temos um. Até que estamos
a saber os
José Maria Pimentel
Havia uma micro-solução que me ocorreu, e acho que até pode ser
uma coisa um bocadinho politicamente incorreta, porque parece aquela coisa no estrangeiro
é que se faz bem, mas que não acho que seja necessariamente
isso, acho que até seria útil em quase todos os países. E
acho que o Nuna aliás aludia a isso no artigo, que é
que nós, por exemplo, abrirmos concurso de administração pública ou de cargos
desses a estrangeiros. Por exemplo, a Gulbenkian fez isso com a diretora
do museu, por exemplo, que é uma inglesa atualmente. Mas isso era
o tipo de uma ultra micro-solução, não é uma panaceia, mas podia
ser
Nuno Garoupa
interessante. Sim, eu até defendo isso numa fase transitória, isto é, quando
nós temos um problema claro com os reguladores, em que os reguladores
mais e mais e mais estão completamente capturados pelo poder político, porque
evidentemente os partidos transformaram os reguladores em mais um dos parques de
colocação dos seus boys e das suas girls, a única forma de
romper com isso é de facto, eu diria, durante 20 anos, vamos
contratar reguladores fora de Portugal. E isso eu acho que quebrava, porque
muitas das coisas que eu acredito que acontecem neste momento é preciso
quebrar, E quebradas um pouco voltando ao Fernando Lopes. Levanta-se uma nova
geração, ou seja, mesmo que voltem os mesmos daqui a 20 anos,
o facto de as pessoas terem que recuperar espaços perdidos, já introduz
dinâmicas sociais. Eu acho que isso tem que ser com micro-medidas, porque
é evidente que mesmo que haja um consenso político ou partidário de
que vamos só nomear pessoas assim e assado, o facto é que
os incentivos são o que são e terminamos como terminamos. E, portanto,
é preciso quebrar isso dizendo, Durante, por exemplo, dois mandatos, os presidentes
e os reguladores são pessoas que não são portugueses, vamos contratar fora
de Portugal. Eu acho que isso tem algum impacto na forma como
as coisas acontecem. Agora, também acho que, em relação àquilo que dizias
de o estrangeiro, eu acho que nós temos que começar a distinguir
um pouco aquilo que é o estrangeiro no sentido fora da União
Europeia e dentro da União Europeia. Nós não podemos andar a dizer
que somos o país mais europeu e o país mais integrado e
depois continuar a tratar Badajoz e Vigo como já é outra coisa
e a partir daí é só estrangeiro. Eu acho que temos que
começar a estar habituados que temos que tratar o resto da União
Europeia como um espaço de continuação geográfica de Portugal e, portanto, é
normal que haja muitos portugueses que estejam a trabalhar, a viver nesse
espaço geográfico, como é normal que nós, em Portugal, passemos a olhar
para pessoas que estão nesses países como potenciais pessoas para contratar pontualmente?
Quer dizer, uma das coisas que me faz mais confusão na minha
vida pessoal, porque eu já entrei e saí de Portugal várias vezes,
é esta ideia sempre que as pessoas quando me perguntam quando voltas?
Mas então agora voltaste de vez. Portanto, isto é uma ideia dos
anos 60 do imigrante da mala de cartão que vai e volta.
Não há ir e voltar dentro da Europa. As pessoas têm que
perceber que isto são processos fluidos e que o normal é que
as pessoas possam estar aqui e depois à manhã irem para Itália
e depois irem para a Alemanha e depois regressam aqui se houver
uma melhor oportunidade de trabalho. E isso é uma coisa que eu
acho que as empresas já fazem e que as universidades já fazem
e que a própria seta cultural já faz, na música, nas artes
e que no espaço da política continua a não ser feito, continua
a estar extraordinariamente vedado. E a prova é isto, por exemplo, este
último caso em Espanha, que eu acho que cá ainda estamos ainda
mais longe, da candidatura do Manuel Valls em Barcelona. E claro que
houve muita gente em Espanha que entendia como é que o Manuel
Valls, que é Primeiro-Ministro francês, é candidato a Mayor, apresenta a Câmara
de Barcelona. Quer dizer, nós aqui não nos passa pela cabeça se
quer que nos apareça um espanhol ou um italiano... E alguma piada
para... Exato, e ser o candidato do PSD ou do PS numa
câmara porque é um senhor que já vive lá ou que viveu
lá. E isso de facto, enquanto nós não quebrarmos isso, continuamos de
facto a ter um espaço político muito fechado. Agora só para eu
Nuno Garoupa
A questão é ser descontinuidade disruptivo. Não é que ele seja melhor
ou pior. A questão é o problema de é preciso ser disruptivo,
é preciso descontinuar processos que estão instalados há 40 anos ou há
45 anos que nós precisamos de descontinuar. Continuar. Porque voltamos à mesma
questão, é possível que o próprio 25 de Abril, como o 28
de Maio, 5 de Outubro, 1383, nem tenha alterado as elites. Agora,
criou disrupção e o problema de criar a disrupção, introduz mudança. E
nós precisamos dessas mudanças. E nós precisamos dessas mudanças, mesmo que depois
as elites sejam exatamente as mesmas, ou a geração seguinte, não são
as mesmas, porque a natureza evidentemente trata de evoluir. Mas que seja
a mesma geração seguinte da geração anterior, mesmo que sejam, eventualmente até
no nosso caso, que costumam ser os mesmos apelidos. A questão é
que houve, haver disrupção introduz alteração e isso é importante. E temos
o reverso da medalha, temos um bom exemplo que já merece, vai
começar a ser mostrado, que foi, houve muita gente em 2014 que
disse que a crise do Banco Espírito Santo era um processo disruptivo
porque a falência do DDT alterava completamente o funcionamento das elites politico-partidárias
e económicas em Portugal. É evidente que cinco anos depois as coisas
estão como estão, portanto é evidente que não houve esse processo disruptivo,
independentemente de alguns supersaltos que possam ter havido naquela altura. Portanto, é
evidente que nós precisamos mais casos daqueles para ter algum tipo de
disrupção que seja
José Maria Pimentel
minimamente razoável. Sim, mas essa até é uma pergunta interessante, ou seja,
para conseguir corrigir estes desajustes que nós já falámos e que têm
a ver com alguma correlação entre eles, a ausência de capital social,
dificuldade em pensar a longo prazo ou em trazer o longo prazo
para cima da mesa, a tendência para ver este acabalho de experimento
desenvolver muito, que é o que é muito interessante, a questão de
ver o mundo como um jogo de soma nula, que não é
independente da questão de pensar a longo prazo, ou seja, se eu
criar num jogo de soma positiva, eu consigo criar um país no
longo prazo que seja melhor para toda a gente, enquanto que num
jogo de soma nula, para eu dar mais a uma pessoa, estou
a tirar de outras. Esse é o grande problema. Para corrigir estes
desajustes há outras medidas, micro ou
Nuno Garoupa
Quer dizer, eu também fui daquelas pessoas que achei que quando o
presidente Lula criou o Ministério do Planejamento, que aquilo era assim uma
coisa que não se percebia para que é que servia, mas de
facto, possivelmente nós precisaríamos nesta altura de um ministério do planejamento, ou
seja, um ministério que a única coisa que faz é produzir livros
brancos e reflexão a longo prazo, portanto, não é para as próximas
eleições nem para os próximos dias. E isso, de facto, é algo
que tem que ser feito e que tem custos políticos, é evidente,
porque vai cair meio mundo em cima a dizermos o que é
que estes lados estão a fazer e lá estão os tipos do
taxo ali, não sei o quê. Mas quer dizer, tem custos políticos,
mas que nós não temos. Agora, há outras questões que são questões
importantes e que têm a ver com a própria clarificação das soluções.
É evidente que nós, para passarmos para um jogo de soma positiva,
tem que haver uma compreensão por parte, digamos, do eleitorado e da
população que não há neste momento. E eu acho que nós temos
bons exemplos com isso. Toda a gente percebe que nós temos um
problema de equilíbrio entre a geração mais velha, que está hoje reformada
e que beneficia de políticas de reforma, que não vão ter os
mais novos. E é evidente que toda a gente que é mais
velho, os avós, estão preocupados com os netos. Mas o que nós
já percebemos é que os avós preferem ter reformas e dessas reformas
retirar 10% para ajudar os netos, do que ser o Estado a
reformar as reformas para ajudar os netos. Porquê? Porque ninguém acredita que
na reforma que façam da Segurança Social não acaba o Estado a
perder dinheiro, isto é, eu prefiro dar 10€ do meu bolso aos
meus netos do que me vir o Estado, porque os 10€ que
o Estado diz que vai dar aos meus netos, 5€ ficam pelo
caminho, aí entra não sei o quê. Isto é um problema de
credibilidade das instituições, Porque não é verdade que os mais velhos, quando
se falava, enfim, em tempos de ausência da peste grisalha, isso é
uma falsa questão. Porque não é verdade que os mais velhos não
estejam preocupados com os mais novos. Estão. Agora, o que os mais
velhos já não confiam é que o Estado possa fazer as reformas
necessárias para redistribuir dos mais velhos para os mais novos. Eles querem
fazer eles a restribuição diretamente. E isto é que eu não sei
muito bem se é reversível no curto prazo. Ou seja, se o
Estado tem capacidade de readquirir qualquer tipo de credibilidade que possa dizer
às pessoas que qualquer reforma que vamos fazer tem prejudicados e beneficiados
e esses prejudicados têm que acreditar que de facto vai haver aqui
este conjunto de beneficiados. E esse é um problema de desgaste da
credibilidade que eu acho que é muito difícil de reverter, mas que
dificulta porque é evidente que, por exemplo, a redistribuição intergeracional exige um
papel do Estado, porque o mercado, os indivíduos não conseguem fazer isso
da melhor forma.
Nuno Garoupa
a questão que se discutiu hoje da dívida pública. É evidente que
qualquer português percebe que dada a acumulação de dívida pública, estamos a
prejudicar as próximas gerações. Acho que qualquer português também aceitaria que, olhe,
nós vamos ter que pagar mais impostos para reduzir a dívida pública
para não prejudicar as próximas gerações. Onde o problema começa é, pois,
mas eu pago mais impostos para reduzir a dívida pública, mas desapareceram
25 mil milhões. Portanto, há aqui um problema de credibilidade, porque eu
quero ter a certeza que o que estou a pagar é realmente
a redução do ONG das próximas gerações e não aqui esta questão.
E isso vem a reforçar aquilo que estamos a falar aqui desde
o princípio, que é o capital social. Portanto, evidentemente, níveis de desconfiança.
Eu desconfio que o que me estão a exigir não é para
aquilo que me estão a dizer, mas é para outra coisa qualquer
que eu não gosto.
José Maria Pimentel
Sim, E eu ouvi a galinha de novo, não é? Essa é
a dificuldade da coisa. E aquilo que falámos há bocadinho, a questão
da tendência para haver este tipo de problemas, e isso nota-se muito
no debate político, como jogos de soma nula. Isso até é uma
boa ponte para nós passarmos para outra coisa que eu também gostava
de falar, que é a questão do poder judicial, que tem que
ver com a... Eu noto isso muito no debate político, nós já
lidimos isso um bocadinho aqui, nesta conversa, que é determinadas medidas que
parecem... Quer dizer, não há medidas certas, mas são medidas que parecem
justamente criar um jogo de soma positiva a prazo, ou seja, se
eu aumentar a eficiência de um hospital, se eu aumentar a eficiência
dos tribunais, isso é bom a prazo. E no entanto é muito
difícil ter este debate, e a minha dúvida é se este debate
tem a ver com, se calhar, essa falta de dinâmica ou falta
de capital social que torna difícil o debate decorrer a ponto de
ficar claro esta questão ou se tem a ver com a questão
das próprias elites, não ser o facto das elites não perceberem, mas
de não aceitarem abrir mão de algum poder.
Nuno Garoupa
E não sei se o sistema judicial não é um caso particular
disso. O sistema judicial, eu acho que inferma de várias questões. Desde
logo, tem questões, digamos, de natureza genética, ou seja, da forma como
o sistema está concebido. E, evidentemente, o sistema judicial em Portugal deriva,
todo ele, de uma enorme desconfiança dos atores políticos em relação ao
poder judicial. E, portanto, ele está construído de forma a limitar e
inibir o poder judicial de ter qualquer capacidade de imiscuir-se naquilo que
o poder político entende que é a sua área de discrecionalidade. E
isso, que tem razões históricas e que remontam também ao século XVIII
e ao século XIX, evidentemente tornou-se um problema a partir do momento
em que a própria sociedade se tornou exigente para com esse poder
político. E eu acho que isso é uma questão que houve ali
uma janela de oportunidade de fazer alguma coisa, que foi nos anos
90 e que foi perdida e, portanto, dificilmente agora poderá ser feita.
Depois acho que se acrescenta a própria dinâmica social, Ou seja, nós
temos um conjunto de instituições que simplesmente, e os tribunais são um
exemplo, que vão sempre atrás em vez de antecipar os fenómenos sociais.
É evidente que o problema que nós temos hoje com os nossos
tribunais, para quem pensa curto e grosso em termos económicos, é um
problema de excesso de procura, quer dizer, simplesmente, para aquilo que é
a estrutura atual dos nossos tribunais, há excesso de procura. E há
excesso de procura por duas razões. Há excesso de procura porque as
relações sociais são muito mais complexas hoje do que há 50 anos,
É evidente. E depois há excesso de procura também porque o Estado
nos pede constantemente intervenções que nos levam a essa procura. Há um
exemplo muito concreto, era evidente a partir de certa altura que se
nós vamos tornar a nossa máquina fiscal muito mais eficaz, isto para
não utilizar a palavra eficiente, mas muito mais eficaz, é evidente que
isto vai aumentar o grau de conflitualidade com as finanças. Durante 15
anos ninguém se preparou para isso, nem vou falar aqui em teorias
da conspiração de que isso foi de propósito para não sei quê
e para não sei quanto, mas o facto é que não preparou.
Ora, era perfeitamente antecipável há 15 anos que se nós vamos ter
uma máquina fiscal extraordinariamente eficaz, extraordinariamente exigente, que o nível de conflitualidade
vai aumentar e precisamos de repensar os tribunais administrativos fiscais. Não se
fez nada, por isso hoje temos a crise que temos nos tribunais
administrativos fiscais. E, portanto, isso é uma boa demonstração de que as
instituições vão atrás dos acontecimentos, acontecimentos nesses, em alguns casos, que são
extraordinariamente previsíveis. Mesmo a questão que hoje temos, todos estamos preocupados do
combate à corrupção e dos problemas do oferecimento da justiça penal, talvez
não de uma forma tão óbvia como a justiça fiscal, mas já
eram previsíveis porque grande parte destes problemas existia em Itália e Espanha
nos anos 90 e, portanto, era uma questão de tempo até a
nossa democracia estar consolidada e ter exatamente os mesmos problemas. Mais uma
vez nada foi feito, nada foi antecipado, nada foi desenhado e, portanto,
hoje temos um Ministério Público que vai de interrupção em interrupção. Já
toda a gente percebeu que estes processos levam anos e anos e
anos, coisas inimagináveis que em 2019 estamos a discutir coisas de 2004
e 2005 e 2006. Também estamos todos a antecipar que lá para
2030 estamos a discutir os problemas de 2019 e, portanto, isso tem
a ver com a nossa incapacidade de resposta. Agora, tal como há
pouco estávamos a dizer, eu acho que há muitos fatores que explicam
isso e, evidentemente, já mencionámos alguns, o capital social, as instituições estativas,
mas também evidentemente temos que admitir que há um certo nível de
pouca exigência por parte do eleitorado. E isso leva-nos a outra questão
para a qual eu não tenho grandes respostas ainda, mas é uma
questão que até porque é complicada em Portugal debater que é, e
que se reflete na participação eleitoral, nós estamos com um grau neste
momento de despolitização equivalente a 1974 e, portanto, como é que ao
fim de 45 anos uma grande parte da nossa população está totalmente
despolitizada, portanto está aliada e isso é algo que deveria preocupar, mas
também percebo que para preocupar, mais uma vez, exige alguma humildade porque
alguém falhou nestes 45 anos, se ao fim de 45 anos o
grau de despolitização é este. Bem, eu sei que o grau de
despolitização hoje, abaixo dos 40, não traz as mesmas razões que tinha
o grau de despolitização em 1974, que tinha a ver com outras
questões de alfabetização, de nível cultural.
José Maria Pimentel
é? Sim, sim, sim, sim, sim, Até porque depois criaste a catadupa
de efeitos de nós que falávamos. Menos participação, menos intervenção, menos diálogo,
menos discussão, menos geração de ideias, mas também menos circulação de ideias.
E mais
José Maria Pimentel
Tem muito que ver com aquela questão da visão de longo prazo
que nós falávamos há pouco e o sistema judicial também, quer dizer,
eu acho que também se nota isso no sentido em que nós
temos até, lá está, culturalmente também, eu falando com amigos que são
juristas, sobretudo se forem da área constitucional, percebe-se muito bem isso, há
uma preocupação quase filosófica com o que diz a lei e com
o que é suposto ser. Mas depois, na prática, há uma espécie
de paradoxo em que isso torna, perversamente, o fim que nós atingimos
pode ser bastante pior do que aquilo que está escrito. Quer dizer,
eu posso ter um sistema em que é garantista em relação ao
acusado, em relação à defesa e em relação às partes, em certo
sentido, ou seja, garanto o processo o mais justo possível e que
elimina ao máximo o risco de haver uma decisão errada. Mas se
esse processo demora décadas, eu não vou ento destruir o valor, não
é? Claro, mas
Nuno Garoupa
aqui eu acho que há duas questões que se complementam, mas não
são exatamente a mesma coisa. Uma questão é a questão, digamos, da
discussão do direito, não é? E, evidentemente, que em Portugal nós temos
o direito, ele insere-se numa dogmática jurídica, até de natureza continental, e,
eventualmente, aqui está mais agudizada que noutros países, e que, essencialmente, rejeita
a realidade, ou seja, o direito faz sentido pela coerência intrínseca e
interna do direito, não pelas consequências que ele tem. Isso é um
debate que, evidentemente, os nossos juristas vão ter, evidente que os nossos
juristas estão a correr contra o tempo, porque o mundo é como
é, e com a globalização, a dogmática jurídica perdeu valor, e, portanto,
os juristas vão ter que aceitar isso. Hoje não aceitam, vamos ver
daqui a 50 anos. Isso é uma questão. A outra questão é
a questão de fazer escolhas e aí o problema, na questão penal,
concretamente, é o problema de tentar evitar, assumir que fizeram escolhas. Porque
nós temos, como estava a dizer, nós temos que fazer uma escolha.
E assim, ou somos garantistas. E se somos garantistas, garantistas levado ao
extremo, significa que não só isto vai levar 20 anos ou 30
anos, como grande parte das pessoas que fazem maldades não são condenadas.
E assume-se isto. Pronto, nós para evitar condenar inocentes, o que vamos
fazer é que haverá imensa gente que não é inocente mas que
não é condenada. Ou temos um sistema menos garantista, que significa que
os malandros de facto são condenados, mas infelizmente também vamos condenar muitas
vezes gente que é inocente. E esta é uma escolha. E eu
acho...
Nuno Garoupa
Mas o problema é que eu acho que até há argumentos conceituais,
filosóficos, ideológicos para optar. Para dizer, eu prefiro o sistema garantista à
custa de ser menos eficaz no combate, por exemplo, à corrupção, ou
ao contrário, eu quero um sistema menos garantista, mais eficaz no combate
à corrupção, mas à custa de sacrificar eventualmente inocentes. E as pessoas
optam. Ora, qual é o problema em Portugal? O problema em Portugal
é que se quer apresentar isto como não sendo uma escolha. Ou
seja, eu consigo fazer as duas coisas. Eu consigo ser garantista e
eficaz. Mas isso não existe. Ou eu sou garantista ou eu sou
eficaz. E depois até idealmente, se nós fôssemos uma sociedade de pensamento
crítico mais aberto haveria um partido que diz que é garantista, o
outro partido diz que é eficaz e nós no nosso voto dissemos,
olha votamos no garantista, votamos no eficaz. O problema é que se
quer apresentar isto como sendo possível as duas coisas, ou seja, eu
não tenho que fazer escolhas, Eu consigo ser ao mesmo tempo garantista
e eficaz. E depois quando isto não produz resultados, é porque faltam
recursos. Claro, se eu tivesse recursos infinitos, eu consigo ser garantista e
eficaz ao mesmo tempo, porque tenho recursos infinitos. Mas o problema é
que eu não tenho recursos infinitos e no caso português até tenho
recursos escassos e muito limitados. E portanto eu tenho que fazer escolhas.
E mais uma vez, eu não acho que seja inconcebível, nem acho
que esteja errado defender. Não! Nós queremos ter um sistema garantista e
portanto, sim senhor, este é o sistema que temos e defender isso
eu defendo o sistema garantista. Mas
Nuno Garoupa
das componentes. Porque é evidente que mesmo dentro daquilo que é um
sistema garantista há diferentes níveis de garantia, não é? Quer dizer, eu
posso ter um regime no limite que até diz que eu só
condeno com prova direta, explícita e em que o arguído admite. A
mim nessa
altura eu não condeno ninguém. Mas quer dizer, eu posso ter diferentes
níveis de garantismo. Posso garantir mais nos aspectos e menos noutros? Claro!
Como no sistema eficaz, é evidente que um sistema em que eu
digo... O sistema eficaz máximo seria toda e qualquer pessoa que desempenhou
cargos públicos é suspeita de corrupção, portanto vai dentro. Quer dizer, A
partir daí eu tenho uns culpados, tem uns cento de pessoas lá
dentro, mas tem tudo lá dentro.
Ou o sistema medieval
é altamente eficaz. Exatamente. Agora, entre as duas extremos, é evidente que
eu tenho que encontrar, digamos, compromissos. Agora, o que nós temos que
assumir é que antes de encontrar esses compromissos, assumir que há dois
objetivos diferentes. Um é de garantismo, outro é de eficácia e que
eu posso, democraticamente, numa sociedade, ter pessoas que existem que querem-me puxar
mais para a eficácia e pessoas que querem-me puxar mais para a
garantia. O problema em Portugal neste tema é que se criou uma
presunção de que é possível ter as duas coisas e de que
a única razão de que nós não estamos a ter as duas
coisas é por falta de recursos. Mas recursos que não vão existir.
José Maria Pimentel
Isso nos está a lembrar imenso, aquela analogia do economista conhecido, do
Pareto, que depois se tornou popularmente conhecida naquela regra dos 80-20, e
que tem uma série de implicações em realidades que vão muito para
lá da economia, e este, no Manual de Superficial, é um exemplo
quase de livro de escola disso, porque a noção dele, no fundo,
é que, aplicado a uma realidade concreta, se eu quiser construir uma
casa, para construir uma boa casa eu gasto X de recursos, para
construir uma casa perfeita eu vou ter que multiplicar os recursos por
um número enorme, porque para cada grau extra, no sentido da perfeição,
eu vou ter que pôr cada vez um maior número de recursos.
E o nosso sistema judicial parece-me funcionar muito dessa forma, ou seja,
nós queremos-no tão garantista que estamos num ponto em que temos que
pôr imensos recursos para que ela seja um bocadinho mais... O que
está a ir
Nuno Garoupa
mais grave do que essa é que eu acho que há uma
recusa em apresentar a discussão nesses moldes, ou seja, há uma recusa
intrínseca em dizer que a justiça tem um problema de recursos e
que esses recursos não vão existir e, portanto, que eu tenho que
tomar decisões tendo em conta os recursos que tenho. E, portanto, é
como se eu estivesse a dizer que eu quero construir a casa,
quero aperfeiçoar a casa, mas vou ignorar que cada nível de aperfeiçoamento
me vai custar uma potência N do nível anterior. Porque quase... Porque
não falamos em dinheiro. Porque como somos católicos, não é suposto estar
a falar em dinheiro. Mas o verdade é que nós temos esse
problema. E não é só na justiça, quer dizer, as próprias questões
da saúde e da educação são assim, quando se vêm agora as
discussões dos medicamentos, é evidente que um dos grandes problemas da saúde
é que quem decide a saúde está a decidir quem vive e
quem não vive, como é evidente, porque eu não tenho recursos limitados
e ao não ter recursos limitados eu tenho que fazer opções e
ao fazer opções inevitavelmente há consequências. Portanto, há pessoas que vivem e
há pessoas que infelizmente não vivem. Mas nós apresentamos, queremos sempre apresentar
essa discussão como fora desse
Nuno Garoupa
Mas isso também porque eu acho que há um grau da parte
da classe política de não querer assumir essa responsabilidade, porque é evidente,
é muito difícil uma pessoa vir dizer, eu quando tomo decisões, estas
decisões são devidas ao morte em certos grupos da sociedade, e depois
há também uma total desresponsabilização do eleitorado, quer dizer, em que todos
nós não queremos sentir-nos responsáveis pelo aquilo que acontece, e é por
isso que, e tivemos vários exemplos, Pedro Algonquim Grande e tudo mais,
com consequências trágicas e catastróficas, e em que evidentemente a maior parte
da sociedade fingiu que não tinha nada a ver com o assunto,
como se todo o conjunto de políticas que levou a Pedro Algonquim
Grande não fosse consequência de voto e de decisões políticas que todos,
em momentos diferentes do tempo, apoiámos. Portanto, é evidente que há aqui
uma tentativa também das pessoas não se sentirem representadas. O ponto, ao
fim de 45 anos, continua a existir na conversa corriqueira nós e
eles, como se eles fossem pessoas nomeadas pelo professor Salazar sem qualquer
legitimidade democrática e que nós não sabemos porque é que foram aquelas
pessoas. Portanto, não há nós e eles, porque as pessoas que lá
estão, com todos os defeitos que tenham, foram democraticamente eleitas. Votámos neles.
Mas como é que
Nuno Garoupa
deputados que estão na Assembleia da República, apesar de formalmente serem eleitos
numa eleição em que estão 10 milhões de pessoas inscritas, na verdade
resultaram decisões internas dos partidos, portanto foram escolhidos na verdade por 3.000
a 4.000 pessoas. Por 3.000 a 4.000 pessoas. É evidente. Foram cooptados,
não é? Foram cooptados, porque a única coisa que eu posso fazer
como eleitor anónimo é dizer que prefiro a lista deste à lista
daquilo. Mas eu não posso dizer eu quero este ou aquele. É
evidente. Isto já para não entrarmos em discussões sobre sistema eleitoral mais
complexo e tudo o resto. É evidente. Agora, também é evidente que
eles têm legitimidade democrática, porque eu fui lá votar.
Quer
dizer, nós ainda não estamos naquela velha proposta do Saramago com 80%
de voto em branco. Em que posso dizer pá, há 80% de
voto em branco, de facto isto não tem legitimidade democrática. A verdade
é que não, há uma legitimidade democrática. E portanto, nós temos alguma
responsabilidade naquilo que é o conjunto de políticas que temos. Que essa
responsabilidade está mitigada, sem dúvida que está mitigada por muitas coisas. Agora,
o nós e eles, como se estivéssemos num Estado novo, em que
nós não votamos nem elegemos, então há um eles que alguém nomeou,
não é bem assim, não
José Maria Pimentel
é? Sim, não estamos nesse estádio, é verdade. Uma coisa que eu
ainda queria falar da discussão que estávamos a ter em relação ao
direito garantista versus eficaz. Porque eu acho que há aqui duas conclusões
importantes a tirar. Uma, que tu já fizeste e faz sentido, que
é a questão de tem que haver um debate e nós temos
que ter, temos que admitir para nós próprios e por em cima
da mesa o trade-off que existe entre uma coisa e outra. Ou
seja, para ser garantista vamos ser menos eficazes e vice-versa. E essa
é uma discussão importante e que não é tida. Mas essa, e
quanto com toda a importância que ela tem, e a questão do
pareto que eu falava pouco, ou seja, quanto mais próximos de um
extremo tivermos mais recursos a este que temos que estar a empregar
para chegar a esse extremo, essa discussão não deixa de ser um
jogo de soma nula. É uma discussão importante, mas é um jogo
de soma nula. Parece-me intuitivamente que há muitos subjogos de soma positiva
dentro disso, ou seja, dentro de um sistema garantista e dentro de
um sistema eficaz há esse sistema, dentro dele tem uma série, quer
dizer, desdobra-se, calca-se numa série de subsistemas e de vertentes diferentes. O
que quero dizer com isto é, Nós dentro de um sistema garantista
podemos ter um sistema melhor e que consiga muito melhor do que
o atual, da mesma forma que um país que tenha um sistema
mais apendépo ao eficaz, como o do Direito de Adição Anglo-Saxónica, pode
melhorar aquele sistema
Nuno Garoupa
corrigindo... Mas é por isso, duas coisas. Primeiro, é preciso não esquecer
que a questão do direito mais ou menos garantista, mais ou menos
eficaz, continua a fazer sentido hoje porque nós nos últimos 2 ou
3 mil anos não conseguimos arranjar uma tecnologia que determine a culpabilidade
ou não culpabilidade de forma objetiva. No dia em que essa tecnologia
houver, por exemplo, no dia em que cada um ser humano tem
um chip que retém imagens do que andou a fazer, ou se
possa abrir o cérebro
e ver o que
é, a discussão acaba. Ou melhor, ou tipo Minority Report. Exatamente. O
nosso problema é um problema filosófico, é que nos últimos 3 mil
anos não existe uma tecnologia que determina a culpabilidade de alguém. Um
problema de incerteza. Exatamente, e portanto nós temos que lidar com essa
incerteza. No dia em que ela acabar, esta discussão também acabou. Até
lá a discussão existe. E como dizes, agora a questão é, dentro
de cada uma das opções, encontrar o equilíbrio de várias questões. Porque
mesmo dentro do direito mais garantido ou menos eficaz, nós estamos a
ver uma dimensão do problema, lá há outras dimensões do problema e
que têm a ver com a questão que já falámos também da
celeridade, se queremos ter as coisas mais demorada ou menos demorada, se
queremos ter maior ou menor generosidade, por exemplo, na forma como financiamentos
o acesso e a defesa e a acusação. Portanto, há questões que
têm a ver. Agora, o que eu acho é que A noção
de garantismo tem custos e parece-me que em Portugal se quer sempre
escamutear estes custos quando eles devem ser assumidos e até mais uma
vez insisto, acho que há boas razões filosóficas e históricas para os
assumir. Agora, temos é que os assumir e dizer, olha, isto realmente
vai ser assim porque nós temos este sistema e não queremos alterar
o sistema. Não é essa a resposta porque, evidentemente, conforme os escândalos
mediáticos se vão acumulando, é evidente que há um ímpeto do outro
lado, é evidente que há uma parte da população que está a
perguntar, então mas como é? E claro, como temos estes ímpetos e
estas incapacidades de resolver, é complicado. Agora, temos de ter alguma noção,
porque se nós, enquanto sociedade e a classe política, não responder e
não tornar esta discussão mais transparente, nós sim aí criamos condições, na
minha opinião, e já disse isso algumas vezes, para cabrar numa solução
à Húngara ou à Polaca, não por questões de imigração, mas por
questões de corrupção. Que a certa altura alguém diz bem, mas então
eu venho propor uma solução eficaz à custa de suspender determinado tipo
de direitos. E vamos ver depois se um dia, se não, uma
maioria dos eleitores que diz que eu por acaso também concordo com
isso e voto nisso. É a questão da revolução, falamos nisso. É
preciso perceber também os compromissos dentro daquilo que é o nosso ciclo
sociável. Nós até somos uma sociedade, há bocado estávamos a brincar, mas
até somos uma sociedade que tradicionalmente resolve isto muito bem, fazendo cinco
autos de fé ali no terreiro do Paz. Portanto, o que é
que eu quero dizer com isto? Eu acho que a pressão social
até seria muito menor se já tivéssemos um conjunto de condenações que
satisfaz essa pressão social. Portanto, não é preciso grandes revoluções jurídicas. Agora,
é preciso perceber as válvulas sociais que isto exige e é evidente
que neste momento há um grande grau de desconfiança, que eu acho
que vai levar-nos nos próximos 4, 5 anos a uma situação que,
claro, a política pode achar que resolve, mas que vai ser complicada,
que é termos todos os órgãos de ciberania, neste momento já temos
o Presidente da República e os deputados europeus eleitos com taxas de
abstenção superiores a 50%, é provável que isto agora aconteça em Outubro
e se isso acontecer temos todos aqueles que são representantes diretos e
eleitos pelos portugueses com taxas de abstenção superiores de 50%. Se pensam
que isso não vai criar problemas de legitimidade, em algum momento, acho
que a classe política está muito enganada, porque é evidente que vai
aparecer um problema de legitimidade. Como é que é que toda a
gente que representa os portugueses, afinal, representa uma minoria desses portugueses? E
isso vai criar uma discussão de legitimidade mais tarde ou mais cedo.
Provavelmente não enquanto estivemos ligados à máquina, mas quando houver algum solavanque
económico, vamos
Nuno Garoupa
detrimento das instituições ou dos grupos. E, portanto, eu acho que isso
explica porque é que este género literário, ao contrário dos países, teve
alguma dificuldade em suceder. Quer dizer, nós continuamos, por exemplo, só há
pouco tempo tivemos biografias dos nossos reis. Em relação aos grandes personagens
da Primeira República nós continuamos a ter uma enorme falta de biografias,
mesmo do Estado Novo. Uma das personagens mais biografadas a ter é
o Marquês de Pombal e neste contexto referir-o à biografia que eu
acho muito bem escrita do Marquês de Pombal pela Cristina Bessa Luís,
que é de facto uma mistura, evidentemente, da literatura dada à autora
com uma reflexão sobre as condições humanas e os vícios humanos que
o próprio Marquês de Pombal, evidentemente, representa, que é na sua época
histórica, que era ao longo, evidentemente, dos últimos 20 anos.
Nuno Garoupa
Ele é uma personagem fundamental e é uma personagem que tem duas
coisas importantes. Primeiro, como outros, percebeu que nós tínhamos um atraso em
relação à Europa e percebeu que esse atraso se devia, na opinião
dele, a, sem usar a linguagem que temos hoje, evidentemente, elites e
instituições extrativas. O método que ele usou para resolver esse problema não
é um método que hoje podemos usar, porque no fundo todo o
processo de Ostávora e tudo o que ele fez à nobreza, e
não mais do que entender que isto temos que eliminar as elites
extrativas e que fundamentalmente, mais uma vez, se repete o que disse
o Fernando Lopes, porque claro, a viradeira e o desterro do Pombal
não é mais do que o regresso das elites que o Pombal
tinha afastado e, portanto, as coisas se compuseram.
José Maria Pimentel
Sim, sim, a história é ultra contingente. Estavas a falar da China
há bocado, quer dizer, Tiananmen, por exemplo. No fluxo da história da
China, é que ele parece um ponto que foi num sentido contrário
e não se sabe, daquilo que existia na altura, não sabe o
que é que se mantém e se, por exemplo, poderá levar a
uma revolução qualquer no curto prazo, nós não sabemos. Mas o exemplo
do Marquês de Pombala é interessante até porque ele é uma personagem
controversa e... Ou pronto, uma conversa sobre ele, para mim, teria falado
sobre uma série de coisas que nós falámos aqui hoje e o
facto dele, por um lado, ter diagnosticado, mas por outro lado, ser
ele próprio um déspota, não é? Aquela lógica do déspota, claro que
sim, mas que era uma pessoa. Mas ele
Nuno Garoupa
próprio, a própria historiografia do Marquês de Pombal acaba por ser interessante,
porque o Marquês de Pombal é uma figura que evidentemente sai impopular,
desterrado pelas elites, é recuperado no fundo pelos liberais, ele é apresentado
como um déspota iluminado, uma pessoa que sabe, ele é recuperado ao
longo do século XIX pela esquerda, como sendo um herói da esquerda
e depois... E na Primeira República também. Exatamente, depois, a partir do
momento em que entramos na alternância da monarquia constitucional, o Marquês de
Pombal volta a desaparecer porque é uma figura ignorada, é recuperado na
Primeira República. Enfim, podemos descrever porquê exatamente, há quem diga que é
as ligações à maçonaria, outro tipo de questões. E depois ele é
reconfigurado ao longo do Estado Novo, não é? Porque ao longo do
Estado Novo, deixa de ser a referência no sentido dos programas de
educação, no sentido de separação do Estado e da Igreja, mas é
recuperado como o autoritário que defende um projeto para Portugal. Portanto, o
Marquês de Pombal do Estado Novo é um Marquês de Pombal completamente
da primeira rama. É o rebranding, não é? Exatamente. E nós ao
longo da nossa democracia também fizemos um certo rebranding do Marquês de
Pombal. Portanto, há vários Marquêses de Pombal conforme os regimes se vão
apropriando da figura do Marquês de Pombal por razões completamente diferentes.
José Maria Pimentel
Sim, por acaso dei muita piada a isso, nunca tinha pensado nisso
dessa forma. Olha Nuno, Muito obrigado por teres vindo. Eu é que
agradeço. Foi uma excelente conversa. Gostaram deste episódio? Se encontram valor no
45°, existem várias formas de contribuir para a continuidade deste projeto. Podem
avaliá-lo na aplicação que utilizam, seja ela o iTunes, Spotify, Stitcher ou
outra, e podem também partilhá-lo com amigos e comentá-lo nas vossas páginas
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a ser também um bocadinho vosso. Para além disso, obtém em troca
vários benefícios, como por exemplo, o acesso ao backstage do podcast e
também a possibilidade de sugerir perguntas aos convidados. No fim do dia,
já se sabe, são os ouvintes que tornam possível um projeto destes.
Ouvintes como Gustavo Pimenta, João Vítor Baltazar, Salvador Cunha, Ana Matheus, Nelson
Teodoro, Paulo Ferreira, Duarte Dória, João Castanheira, Tiago Leite, Gonçalo Martins, entre
outros mecenas, a quem agradeço e cujos nomes podem encontrar na descrição
deste episódio. Até à próxima!