#31 Tiago Cavaco - “Faz falta acreditar em Deus?”
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José Maria Pimentel
Bem-vindos! Neste episódio eu regresso ao tema religião. Já expliquei em episódios
anteriores porque é que o tema me interessa, sob várias perspetivas, mas
neste episódio o meu objectivo era simples, Complementar a conversa que tive
com Ludovico Kripal, até o confesso, com a perspectiva de um crente.
E não de um crente qualquer. Um pregador, um pastor, no caso
de uma igreja protestante. Tiago Cavaco é para muitos o rosto do
cristianismo não-católico em Portugal. Os sermões dele conquistaram admiradores, mesmo entre os
não-batistas e os não-crentes. Lançou recentemente o livro Milagres no Coração, da
Quetzal, um conjunto de sermões sobre o evangelho de Marcos prefaciado, nada
mais nada menos, do que por Ricardo Araújo Pereira. O Tiago revelou-se
melhor do que a encomenda, porque se mostrou ao mesmo tempo um
crente a sério e um crente que não foge ao diálogo, como
ele próprio aliás explica no início da conversa. O meu objetivo durante
a nossa troca de ideias foi desafiá-lo, da minha perspectiva inevitavelmente diferente,
mas sobretudo tentar aproveitar esta oportunidade única para perceber como é que
um crente informado e culto vê a religião em que acredita no
século XXI. Admito que esta minha opinião não seja consensual, mas acho
este um tema inegavelmente importante, independentemente da opinião que cada um de
nós tem, seja em relação à existência de Deus, seja sobre as
religiões com que convivemos. Uma última nota para corrigir um pormenor. Falamos
perto do final sobre o Corão e o dia que os muçulmanos
acreditam que este foi ditado por Deus, mas a verdade é ligeiramente
diferente de que terá sido o anjo Gabriel a ditar o livro
Maomé ao longo de duas pacientes décadas. Finalmente deixei-me aproveitar a oportunidade
para agradecer aos patronos mais recentes do 45°, Gustavo Pimenta, Nelson Teodoro
e Pedro Leal. Muito obrigado a todos. E agora deixo-vos com o
pastor Tiago Cavaco. Tiago, bem-vindo ao podcast.
José Maria Pimentel
pelo convite. Nada. Voltamos ao tema religião, que já falei aqui algumas
vezes. Na introdução ao teu livro de sermões, terminas, ou já quase
no final, tu tens uma frase que eu achei interessante e que
foi de certa forma aquilo que teve na origem do convite. Tu
dizes, este é um livro de um crente que quer mesmo impingir
a sua crença a quem ainda não a tem e este é
um livro de um crente que acredita sinceramente que o seu credo
é a diferença entre a vida e a morte. Uma é um
convite ao diálogo e a segunda é uma frase provocadora. Por isso
eu achei que estava na altura de pegar nisso. Estávamos a falar
há bocado em off. É um tema que eu acho interessante a
vários níveis. Fico sempre na dúvida se é de pegar nele ou
não, e estou a pegar nele mais ou menos do que os
ouvintes desejariam. A grande vantagem de um formato como o podcast é
que quem nos está a ouvir neste momento já sabe o que
é que veio. E, portanto, tem algum interesse no tema à partida.
Eu... E esta questão... Eu já disse várias vezes, já estava a
te dizer, eu... Se tivesse que me descrever, descrever Mia como agnóstico
em relação à existência de Deus, no sentido em que não sei.
Teria que... Se tivesse que me atravessar, atravessar Mia para ou não,
mas a verdade é que não sei e acho um tema muito
interessante, em relação ao qual basicamente não há resposta e até eu
em relação a qualquer das religiões em particular porque para mim parece
difícil que existindo Deus, o que quer que seja, que é difícil
até de conceber e já lá vamos. E havendo, na possibilidade de
existir Deus e na possibilidade de uma das milhares de religiões que
existem estar certo, a probabilidade de eu acertar é tão baixa
José Maria Pimentel
nós entregarmos estas questões da existência de Deus. Eu por acaso estava
a ver um tipo... É um economista americano que tem um podcast
também interessante, um bocadinho ao estilo deste, e ele dizia uma... Ele
tem um... O Tyler Cowen que tem um blog, por acaso interessante,
chama-se Marginal Revolution, é um blog interessante porque ele fala de uma
série de coisas e ele tem lá um exposto em relação à
questão de Deus e ele dizia uma coisa que eu acho que
sou um economista, é que podia dizer que sempre tinha achado muito
estranho que as pessoas não tivessem, em relação à religião, uma abordagem
estatística de dizer, portanto, bom, eu sou x% luterano porque me parece
que tenho tanta probabilidade de estar certo. Porque as pessoas são binárias
em relação a isso, é evidente. Mas pronto, eu ia dizer há
pouco, e estávamos a falar disso em off, e eu, por exemplo,
já tive uma conversa sobre o tema com o Ludwig Kripal, em
que falávamos da questão da existência de Deus e do debate em
relação à existência de Deus ser um debate que hoje em dia,
sobretudo em Portugal, nos Estados Unidos, por exemplo, não é bem o
caso, aquela onda dos New Atheists, por exemplo, mas é um debate
que basicamente deixou de ser tido praticamente no espaço público. E o
que acontece, ou o que me parece, O que acontece é que
as pessoas, tu se fores crente e fores educado numa determinada religião,
tens acesso, no fundo, às práticas dessa religião e as pessoas que
provavelmente terão a mesma crença do que tu ou no limite serão
uma espécie de ateus apateus, como dizia o Carlos Quevedo, ateus por
apatia, por inércia. O Carlos diz isso, apateus? É, apateus. É muito
bom.
Tiago Cavaco
E eu creio que chegámos, não tenho a certeza, porque de facto
a minha memória já não é o que era, mas eu até...
É possível que tenhamos trocado documentários nos inícios dos blogs, alguns em
2003, quando a chamada blogosfera era mais pequena e quando apareceu alguns
blogs de ateus que naturalmente iam arranjar discussão com os religiosos que
havia nos blogs. E uma coisa curiosa é que de facto, de
certo modo, eu identifico-me mais, emocionalmente falando, eu identifico-me mais com um
ateu zangado do que com um religioso descontraído. Sim. E também percebo,
e é óbvio que estou a fazer uma grande generalização, mas que
países mais influenciados pela reforma protestante, e por exemplo no caso dos
Estados Unidos, que ainda por cima é um país comparado com a
Europa recente, um país moderno, de facto seja muito importante discutir porque
discutir... Porque as pessoas acreditam na discussão de um modo que países
mais antigos já não acreditam e continua a simplificar muitas coisas, mas,
por exemplo, em Portugal falar sobre Deus, discutir a existência de Deus
é visto quase como um luxo. Por um lado, uns vão dizer,
isso já ficou, é óbvio que isso já ficou tão resolvido no
final do século XIX, dizendo que Deus não existe, ou outros dizendo
que discutir é a pior maneira de honrarmos a importância do assunto.
Que de facto eu acabo, como te dizia, emocionalmente falando eu acabo
por me sentir mais próximo de um ateu zangado, zangado por Deus
não existir, e há muitos assim, que pelo menos tomem esse assunto
como uma coisa realmente importante. E mesmo com estes, os novos ateus,
que há uns anos estavam muito na moda. E isso é uma
das coisas que eu apreciava, bem, eu apreciava o Christopher Hitchens, além
dos críticos polémicos dele anti-religiosos, mas mesmo no Sam Harris, eu gosto
desse lado, ou do Dawkins, esse lado pronto para a discussão. E
não é casual que nos Estados Unidos, tu tens sempre uma pequena
multidão de crentes, cristãos e não só, prontos para discutir, porque eu
creio que há uma sociedade que valoriza mais a importância do argumento...
Eu não quero dizer que é uma sociedade mais racional, porque noutros
sentidos pode não ser. Pois. Mas tu percebes, a importância da discussão
e do debate é de facto ainda nos Estados Unidos ocupa um
papel que aqui, seguramente em Portugal, não ocupará. E aqui acontece uma
coisa que na minha opinião é particularmente irritante, apesar de eu ser
português, aceitar isso e gostar de ser português e ao mesmo tempo
não gostar, como qualquer. Que é, em Portugal, a discussão religiosa é
sobretudo muito chata porque é feita para uma espécie de concórdia política
acerca das benesses de sermos todos moderados em relação a qualquer coisa
na vida. E isso é chato, é francamente chato. Quando tu vês
programas sobre religião, e eu já participo em alguns na televisão, eles
são francamente chatos. Pois já, exatamente. Porque dá a ideia de que,
no fundo, nós criamos uma reserva especial para que se possa acreditar
em Deus desde que isso não ocupe uma função muito fundamental na
vida das pessoas.
Tiago Cavaco
o vocabulário tende a ser uma espécie de discurso idealista, político, com
poesia existencialista. E digo isto, obviamente, quando digo isto pensei em algumas
pessoas que são meus amigos e com quem também desenvolvo relações de
admiração, mas usam-se umas palavras assim, por exemplo, eu tenho uma implicação
com esta palavra, é o indizível, o sublime,
e diz
isto devagar e calmo, e de repente como quem diz, se calhar
é melhor eu não dizer nada porque a pessoa está a transmitir
uma serenidade tal, não quer ser eu a estragá-la. E Isso, pronto,
eu respeito, obviamente, faz parte da cultura à qual eu pertenço como
português, mas não me identifico muito com isso. Sim, é uma espécie
de covardia intelectual, não é? Pelo
José Maria Pimentel
menos é a maneira... Eu acho que sim. Eu... Por exemplo, esse
movimento dos new atheists nos Estados Unidos é interessante e há uma
série de debates. Eles também têm muito a cultura de debates, que
é uma coisa que eu tenho pena que não existe em Portugal,
embora eles também tenham alguma tendência para exagerar-me, porque depois aquilo antagoniza,
forja uma espécie de antagonização durante o tempo todo, mas há uma
série de debates interessantes com algumas dessas pessoas que tu falaste e
são... E isso força no fundo discutirmos e concretizarmos aquilo que estamos
a falar. Por exemplo, essa questão do absoluto e do universal, umas
coisas meias poéticas, essa desde logo é uma discussão interessante, que é
como é que tu casas isso, primeiro, isso é infalsificável, como é
lógico, mas como é que tu casas isso com o Deus do
dia a dia, não é? E tu, como pastor, sentes isso, quer
dizer, tu não, tu, esse Deus presta-se bem para a poesia e
presta-se para... Presta-se, só que há muito tipo de poesia aí,
Tiago Cavaco
há algumas que são mais interessantes do que outras. Eu quando digo
termos poéticos, nesse sentido, não estou, se calhar, a ser justo com
toda a poesia que eu realmente aprecio. Estou a usar poética como
uma espécie de fuga ao lado da assunção clara que eu acho
que é possível quando se fala acerca de religião. E com isto
eu não estou a dizer que nos assuntos religiosos é sempre possível
ter à mão uma formulação, aliás, Até porque seria ao mesmo tempo
uma grande arrogância também, uma vez que, na perspectiva de crente, eu
falo de uma realidade na qual acredito objetivamente em Deus, mas acredito
que Ele está também além da minha compreensão. É também isso que
o torna Deus, né? É esse chiasmo, é essa distância entre mim
e Ele. Mas, correndo o risco de fazer... Isto é fácil para
mim, eu sou um pastor evangélico, e já que nós temos uma
reputação, ao menos podemos vivê-la. Exato. Tirar proveito dela. Mas eu diria
também que o facto de, por exemplo, num país como Estados Unidos,
eu vou dizer, um bocado puxando a brasa à minha sardinha, dizer
que isso tem a ver com os efeitos positivos da Reforma Protestante,
que é um dos nossos pontos fortes e também fracos ao mesmo
tempo, que é de facto a discussão. Nós acreditamos no debate de
uma maneira diferente, porque acreditamos numa coisa que de facto trouxe um
sisma para a cristandade, com a Reforma Protestante, sem dúvida nenhuma. E
eu acredito no valor desse sisma que foi criado. Mas que foi...
Nós acreditamos que, havendo uma revelação divina presente na Bíblia, e sendo
essa revelação divina acessível às pessoas, apesar de acharmos que a fé
é mais do que simplesmente ler um texto, porque senão todas as
pessoas que leriam o texto teriam fé, até precisa de facto, nós
acreditamos naquilo que é preciso a graça de Deus para a pessoa
de facto acreditar, mas acreditamos que tu, o cidadão com um texto
à frente, isso é algo muito importante. E quando tu acreditas nesta
ideia, o cidadão com um texto à frente, com o direito que
ele tem a poder ler o texto e tirar as suas conclusões,
provavelmente isso vai conduzir a uma sociedade mais dada à discussão. Se
calhar às vezes exageradamente dada à discussão, mas é uma das coisas
que tu encontras mais quando estás num paradigma que foi influenciado pela
reforma protestante.
José Maria Pimentel
Eu sempre achei, e acho que até com o caso que o
Vedo tinha, falei desse ponto, embora ele seja católico e portanto seja
do outro lado, eu sempre achei, sempre me pareceu que o Protestantismo
tem muito parecido com o judaísmo, ou seja, houve uma espécie de...
Completamente. A questão da discussão, por exemplo, da primazia da palavra, da
interpretação dos textos é muito
Tiago Cavaco
parecido com o que os judeus fazem. Sem dúvida. Aliás, essa é
uma das coisas que eu passo a vida a repetir quando, de
uma maneira mais ou menos abreviada, tem de explicar diferenças entre catolicismo
e protestantismo, é que o protestantismo é visto como um movimento de
regresso. No certo sentido, ele é um movimento como qualquer movimento de
reforma, que ele procura sempre algum tipo de purificação em relação à
crença basilar. E nesse sentido, o Protestantismo, sendo múltiplo nas suas expressões,
mas ele vem defender um regresso aos textos, que era uma coisa
que naquela altura, independentemente das questões religiosas, estava a acontecer na história
europeia, mas com isso ele vem de facto tornar-se mais semelhante ao
judaísmo. Não no sentido teológico, porque nós acreditamos num Deus que é
Pai, Filho e Espírito Santo, coisa que é inaceitável no
Tiago Cavaco
é, por exemplo, casual que, por exemplo, e tu viste o salão
de culto lá em baixo, os salões de culto protestantes são muito,
voltam a ser parecidos com os sinagogas. São sobretudo espaços que até
podem parecer desinspirados para quem vem de um contexto católico. Sempre. Então
tens aquela imagética toda e de repente tens uma coisa que, ok,
é solene, mas podia ser quase uma sala de aula, porque é
a relação com o texto fundamental.
Tiago Cavaco
exatamente essa percepção. É parecido, é parecido. E nesse sentido, repara, porque
eu costumo... Isto, isto obviamente muitas... Uma multidão de pessoas diz isto
ao longo da história ao refletir sobre a questão do Protestantismo e
do Catolicismo. Mas o catolicismo, e novamente, eu sei que continuo a
simplificar muito, mas o catolicismo tende a ser emocionalmente mais grego na
maneira de olhar para o mundo, para a realidade. O protestantismo quer
voltar a uma ética mais hebraica, Tanto assim é que Lutero, que
é um Brutamontes, que é uma coisa importante quando se é protestante,
mas ele chama a filosofia de prostituta, portanto ele é um tipo
que sente um filósofo à sua maneira, porque ele é um intelectual
à sua maneira,
mas
de facto ele traz uma... Ele quer recuperar uma natureza que é
ontológica e que também é antropológica, que é muito mais aquela que
já estava no judaísmo, sem qualquer rejeição do Novo Testamento, até porque
o Cristianismo sem Novo Testamento não seria Cristianismo. Claro. Mas é verdade
que há um regresso nesse sentido à ideia de... À ideia... A
uma antropologia mais negativa, por um lado, mas que depois tem um
paradoxo, que é, cria sociedades que têm uma antropologia mais negativa porque
a figura do pecado, ela é entendida de um modo mais grave
do que no contexto do catolicismo. Mas, por outro lado, como acredita
que a solução para o problema é a relação com o texto,
com o texto sagrado, com o texto revelado. Ele diz, a partir
do momento em que tu lês o texto, meu amigo, não deixas
que ninguém interfira nisso. Portanto, por um lado, o protestantismo é mais
pessimista, antropologicamente, em relação à questão do pecado, mas por um lado
ele vai ser, vamos dizer, a nível de cidadania mais otimista nas
sociedades que constrói. Eu acho que foi também um bocado à custa
destas aparentes contradições que nos deu, o livro que eu nunca li,
devia ter lido e devia ser castigado por isso, mas que te
dá o Max Weber a escrever
José Maria Pimentel
a ética protestante e o espírito do capitalismo, por exemplo. Sim, embora
depois ele tenha sido contrariado, porque o sul da Alemanha, que é
católico, per capita até era mais rico do que o Norte, embora
há um lado cultural e um lado de prática religiosa que não
se sobrepõe necessariamente, ou seja, duvido que o sul da Alemanha católica
seja culturalmente análogo ao catolicismo português ou ibérico, ou seja, há um
lado cultural desse debate, e o protestatismo está aí se interessando. No
fundo, é mais pessimista, antropologicamente é quem é mais pessimista, o que
também está associado ao capitalismo, mas dá às pessoas um locus de
controle, As armas para elas gerirem a sua própria relação e põe
o... Por exemplo, um dos... Estou a dizer isto, de princípio, estamos
a falar em day-off que corro risco com estes programas, antagonizar tanta
gente e agora fazendo críticas à igreja católica é pior ainda. Portanto,
neste momento, resta muito pouca gente, mas mas um dos... Outra das
contradições do catolicismo é a fraca relação que têm os crentes com
a Bíblia. Uma relação... Acho que era o Pedro Mechia que contava
numa sessão que tu organizaste, eu penhei esse vídeo no YouTube, uma
amiga qualquer contava que a filha, apanhou a filha a ler a
bíblia e, pronto, tu estás com algum problema. Que é uma coisa
completamente, isto é para fúria, não é? Quer dizer, A partir da
Bíblia é o livro sagrado, é o livro que deve servir de
base e que a pessoa deve tentar... É
Tiago Cavaco
verdade, mas não te esqueças que como no caso... E repara, ao
dizer isto eu não estou a defender o catolicismo, de certa maneira.
Sim, imagino que não, sim. Até estou a dizê-lo para valorizar mais
a minha convicção protestante, mas é verdade que, tendo em conta que
o catolicismo acredita que a fonte mais segura da autoridade para guiar
as almas dos homens é aquilo que a igreja te vai dizer.
Portanto, eles vão dizer, sim, sim, lês a Bíblia, tens de ler
a Bíblia, mas tens de ler a Bíblia guiado pela igreja, porque
é assim que Deus quis, segundo o catolicismo, é isto que o
catolicismo acredita. Nesse sentido, há de facto uma visão bastante diferente. O
Protestantismo acredita na importância da Igreja também, mas lá está, o Protestantismo
acredita que tu... O Cristinismo de facto alimenta, traz uma suspeita que
o Velho Testamento já trazia, que o judaísmo já trazia, que não
é o facto de tu pertenceres ao povo escolhido que significa que
tu estás a ter a relação de vida com o Deus com
quem te deverias relacionar. E Vamos dizer, essa suspeita no Velho Testamento,
tanto assim é que tu tens ao longo do Velho Testamento, os
grandes profetas, eles são geralmente pessoas que têm problemas com o poder
político, que era também o, supostamente, era também o poder religioso, no
sentido em que o Estado Israel era a comunidade espiritual também. E
isso vai ser trazido no século XVI pelo Protestantismo, a dizer assim,
tu podes fazer parte da igreja institucional, mas isso não significa que
tu sejas... Tu podes estar dentro da comunidade que se diz pertencer
a Jesus, mas isso não significa que tu tenhas uma relação com
ele. E nesse sentido, lá está, novamente, há aqui de facto uma
inquietação, que se vê na história de Lutero, e que continua depois
no desenvolvimento de todo o Protestantismo.
Tiago Cavaco
Bem, não tem sido para mim ao longo... Eu fiz 40 anos
no ano passado, não tem sido para mim ao longo do meu
caminho pastoral a coisa mais importante, o tipo de discussão apologética em
que, imagina, partindo de uma conversa assim, eu me sinta na necessidade
de procurar os melhores argumentos para a defesa da existência de Deus.
Portanto, não sendo essa a maior preocupação da minha carreira pastoral, não
significa que eu estou sempre disponível para essa conversa. Agora, é verdade
que há... Deixa-me tentar dar com uma mão e tirar com outra.
E isso dependeria depois com o tipo de cristão com que estivesse
a conversar. Se fosse um católico podia ser um pouco diferente e
depois dependia do católico, assim como depende também do protestante, pois há
muitas diferenças. Por um lado, já houve alturas, fases da minha vida
em que eu, por exemplo, mesmo no YouTube, picava mais aquelas discussões,
eu continuo a achar que um tipo como o William Lane Craig
é muito eficaz. Aliás, eu lembro que aqui há uns anos havia
um blog de ateus nos Estados Unidos que dizia ninguém está preparado
para discutir com ele, ele continua no geral. Por
José Maria Pimentel
as coisas. Claro, não, exatamente, essa questão do do unmoved mover é
uma coisa que já vem do Aristóteles, salvo erro. Se não antes
disso. A minha objeção a isso tem a ver com duas coisas.
Primeiro, está muito próximo daquilo que se chama, que se convenceu de
nós chamar o o God of the Gaps, o Deus dos Passos
que vai sobrando, porque se tivéssemos esta discussão com o Lutero, provavelmente
ele estaria a invocar argumentos e exemplos que hoje em dia nós
sabemos não corresponder, como o facto da grande machadada que o Darwin
deu, e a própria origem do universo, e no fundo o que
tu tens em termos cosmológicos hoje em dia, é o Big Bang
ou o que quer que seja, e de facto o cérebro humano
não está feito para perceber que alguma coisa pode ter surgido sem
ter algo que o percebeu, não é? Tudo aquilo que existe teve
alguma coisa antes e alguma coisa aconteceu antes para aquilo existir. E
depois, para
Tiago Cavaco
mim, ainda... Mas isso também pode ser uma forma de feeling the
gaps. Quando tu dizes o cérebro humano não está pronto para perceber,
também estás a, vamos dizer assim, no gap que pode ser essa
incompreensão, diz assim, ok, esta é a melhor explicação possível. Ou seja,
em último grau, a própria explicação para que um conceito de Deus
possa ser aquilo que tapa aquilo que por enquanto está destapado, também
pode ser uma forma de filling the gaps, por quem não acredita.
Percebes? Portanto... O
José Maria Pimentel
que eu digo é que essa gap, essa falha, se foi apertando
brutalmente nos últimos séculos. Ou seja, quando este argumento começou a ser
feito, a falha era enorme, não é? Era desde... Era a Downy
Ever, não é? Era aí que começava. E hoje em dia nós
sabemos que há uma série dessas coisas que já foram explicadas. Essa
para mim é a grande dificuldade, quer dizer, como pessoa racional, quer
que isso queira dizer, para mim a grande dificuldade está aí, quer
dizer, hoje em dia custa-me a crer que o terreno que já
foi ocupado com explicações científicas não seja totalmente ocupado, sendo certo que
do nada surgir algo, para mim é completamente incompreensível para um ser
humano porque nós não funcionamos dessa forma, tudo funciona assim. Mas isso,
se quiser já me respondes, mas só para dar o outro lado.
Para mim a resposta Deus, ou por outra, para mim dizer que
Deus é a resposta também não é uma resposta perfeita porque continua
a ter que haver alguma coisa antes de... Ou Deus surgiu do
nada, ou seja, continua a não encaixar na nossa
Tiago Cavaco
Ele existe, ele é autoexistente. Sabes que uma das coisas que eu
acho que hoje não ajuda nesta conversa, para quem está mais envolvido
nela, mas é que eu acho que às vezes existe, pode haver
alguma pressa, sobretudo com um novo advento de um otimismo, vamos dizer
assim, epistemológico a partir da ciência. Porque tu repara, se tu fores
a ver algumas discussões hoje no campo da filosofia, uma das coisas,
e eu vim das chamadas ciências não exatas, portanto, eu vim de
ciências de comunicação, que era uma mistura de um curso de comunicação
social com filosofia, portanto vê bem o que é possível. Mas se
há coisa que acontece nas áreas ditas não... Nas ciências não exatas,
é precisamente uma profunda descrença da ciência enquanto uma espécie... Do discurso
científico enquanto uma espécie de substituição do discurso religioso. E portanto, imagina,
uma das coisas que não ajuda é, para quem vem da área
das ditas ciências exatas, e aqui diria eu, este é o prazer
de dizer, quando tu és crente tu podes ser cético de algumas
coisas. Imagina, as pessoas são céticas da religião, mas uma coisa boa
de um religioso é que depois ele pode ser cético de outras
coisas que as outras não, nessas não podes mexer. E nesse aspecto
sim, se calhar cabe-me aqui o papel de ser eu cético em
relação talvez a uma segurança precoce que nós encontramos nas explicações científicas,
que são elas bastante provisórias, que é antigamente imagina, sei lá o
Darwin, o Darwin no estudo da teologia, portanto ele sabia as categorias
clássicas atribuídas à personalidade divina. Tu hoje, imagina, se eu for para
a rua e perguntar a um cientista quais são as características, quais
são as categorias clássicas que atribuímos a Deus na sua personalidade. Ele
nem se calhar nem vai ser capaz de dizer omnisciência, omnipotência, perfeição,
qualidades que eram parte fundamental da maneira como ao longo da história
as pessoas entendiam razão, não só para o mundo mas para si
próprios. De repente o que aconteceu foi uma espécie de... Ai, é
óbvio que eu estou caricaturado. Darwin resolveu... Olha, deu a cambalhota. Pessoal,
isto deu a cambalhota. Tudo prescreveu, tudo que estava para trás prescreveu.
Então o conhecimento religioso ficou tido como uma espécie de coisa que
tu só lá vais, pá,
com o psiquiatra. Por
um sótão tu vas à procura de alguma coisa, um objeto que
tu queres guardar na família e tal. Mas que não ajuda à
melhor discussão, não ajuda à melhor discussão até intelectual e racional. E
só voltando ao exemplo das discussões entre, no YouTube, entre William Lane
Craig, é aí que tu vês a surpresa de um William Lane
Craig, é que nesse... E eu quero ser justo ao dizer isto,
de certa maneira os judaístas, e neste caso o William Lane Craig
é mesmo um cristão, e até um cristão evangélico como ele, mas
eu acho que nas discussões eles acabam por ser mais respeitadores da
tradição filosófica destas discussões antiga, do que os céticos que tendem um
bocado a começar apenas, estou a exagerar, mas quase apenas a partir
de Darwin.
José Maria Pimentel
sobretudo faz uma coisa, por isso é que eu dizia há pouco
em relação aos debates, que é um formato interessante e que eu
acho que nós temos a menos, mas tem um problema. Tu vês
um debate, por exemplo, esse debate entre o William Lane Cray e
o Sam Harris, ou com o Hitchens, por exemplo, e o que
tu vês ali são, à partida, dois polemistas, cada um para o
seu lado, em posições completamente antagónicas, das quais cada um está absolutamente
certo. Não é a realidade. O crente tem dúvidas e o ateu...
Também
José Maria Pimentel
que tenha algumas dúvidas e pelo menos estará a graus diferentes de
certeza e de virulência nas diferentes opiniões. Mas ali tudo puxa para
que isso aconteça dessa forma e obviamente que não é. E daí
eu dizer, não sei se agora não me lembro se disse isto
em on ou off, mas uma das coisas que me fazem interessar
por este tema é a quantidade de pessoas que eu conheço, direto
ou indiretamente, e que são pessoas que eu respeito pela inteligência, pela
racionalidade, pela informação que têm, e que são crentes e eu penso,
elas não podem... Se calhar aquilo é uma sombra delas, é uma
possibilidade, mas eu não quero... Nem que seja por uma
José Maria Pimentel
não quero, precipitadamente, tirar a relação de que é isso. Dito isto,
aquilo que estavas a dizer, eu não concordo completamente com o que
estávamos a dizer, porque eu não acho que uma pessoa, eu não
acho que o ateu tenha que conhecer tão bem o cristianismo, vamos
supor, por exemplo, de me tentar debater com um cristão, como o
cristão conhece para poder debater com ele, porque aquilo que ele está
a debater é... Certamente, isso até seria um castigo. Pois, estás a
perceber o que eu quero dizer? Não é a primeira vez que
eu ouço dizer isso e por acaso não concordo.
Tiago Cavaco
Mas ainda bem que dizes isso para poder clarificar. Eu não defendo,
imagina que numa discussão sobre a existência de Deus, a pessoa que
acredita que Deus não existe tenha, pobre coitado, de se ter tomado
a enteologia.
Exato.
O que eu acredito que é necessário, e eu acho razoável, seria
mais razoavelmente... Era razoável concordarmos, ser uma espécie de consenso como ponto
de partida, é que quanto mais nós conhecemos acerca da história, do
passado, mais vamos estar impedidos de, por muito convictos que estejamos de
alguma ideia de agora, de cometermos o erro que o C.S. Lewis
chamava que era chronological snobbery, de facto sermos snobs cronologicamente. E é
nesse sentido que tu compreenderás que eu acho de uma grande pobreza
para a própria qualidade do diálogo, quando tu estás a falar, imagina,
sobre a existência de Deus ou não, que a pessoa que defende
que Deus não exista não conheça um mínimo sobre a discussão ao
longo da história. E pá, que compre daqueles livros, no outro dia
comprei um livro de 50 clássicos da psicologia, para saber, não é?
Não preciso ser de ler tudo, pá, mas compra um livro, uma
boa história
José Maria Pimentel
sobre o pensamento religioso. Não, e tu vais entrando devagar no tema,
eu tenho feito um bocado esse caminho, e o problema lá está.
Quando tu ouves alguém falar, Tu ouves o Christopher Hitchens falar, por
exemplo, e ele, no fundo, dá-te uma coisa pronta a consumir e
que pende para um lado. No caso dele, pende, claramente, para o
pendia, para o ateísmo. Mas, por trás daquilo, e ele se calhar
não é o melhor exemplo, mas por trás daquilo há um trabalho,
o Sam Harry talvez fosse o melhor exemplo nesse aspecto, há ali
um trabalho de conhecimento, de investigação, com os enviesamentos cognitivos que todos
temos, mas que depois dá aquilo. E o problema de nós consumirmos
só, e os debates na internet muitas vezes são pobres a esse
nível, e todos nós começamos por, quer dizer, olhar para isto e
pensar, não, que estupidez, claro que Deus não existe, acabou. E a
verdade é que a conversa tem coisas mais interessantes do que isso,
não é? E há um lado de... E quando começas a escavar,
começas a perceber que aquilo que eu tenho escavado não me converteu
propriamente, mas tem-me feito perceber algumas nuances que existem no nosso entendimento
da religião. Aquilo que eu penso, eu tenho sempre esta dúvida, que
é... Se calhar falta-me alguma sensibilidade. Ou seja... A mim também. Imagino,
mas se calhar falta-te menos, porque o meu exercício de humildade é
este, é dizer, eu se calhar sou pouco sensível E falta-me... Porque
eu vejo muitas vezes, nos crentes existe muitas vezes uma... E a
poesia, por exemplo, está muito presente na Bíblia, e não é por
acaso, existe um... Esse lado transcendental da metáfora e da sensibilidade estética.
Deus está muito associado à ideia, Deus está muito associado à arte,
por exemplo, seja à música, seja, por exemplo, à pintura, e eu
várias vezes penso se me faltará essa sensibilidade para... Não, não estou
a dizer isto, não
José Maria Pimentel
Estou a falar a sério, eu não acho que falta, atenção, ponho
a isso em dúvida, e penso sempre que eu não sinto falta
de Deus, ou seja, não sinto falta na minha vida, no dia
a dia, nas várias valências, seja na valência da pessoa ter ali
um amparo, seja na valência ética ou moral, não sinta essa falta.
Há muitas pessoas que dizem isto e parece uma espécie de cabarulice,
uma coisa de força. Ah, não preciso dessas coisas, não preciso dessas
ajudas, dessa espécie de batotas emocionais. Mas não é nesse sentido que
eu digo, até porque eu acho que aquilo que podemos chamar de
espiritualidade à falta de melhor palavra, é algo que nem toda a
gente tem, é algo que não precisas ter para viver, mas que
torna a tua vida mais interessante. É aquela coisa do... Já não
sei se era do Sócrates ou do Aristóteles, que a vida não
examinada não vale a pena viver. Ou seja, tu podes viver perfeitamente
sem falar sobre estes temas, sem analisar a tua própria consciência, sem
te maravilhares com as relações entre as pessoas. Tu podes perfeitamente viver
e, a certo sentido, pode também ser visto como uma fraqueza, tu
estás-te a debruçar sobre isso. E isso é em si mesmo uma
forma daquilo que se convenciona de chamar espiritualidade, independentemente de achares que
o que está por trás disso, e a consciência é o último,
cosmologicamente é o Big Bang, mas antropologicamente é a consciência o último
mistério, não é? O derradeiro mistério é a consciência, não é? O
Tiago Cavaco
que é que está por trás desta coisa estranha que nós... E,
por exemplo, no caso, tentando pegar aí na consciência, uma coisa que
eu estava... Um amigo, o Henrique Raposo, e Ele costuma dizer uma
coisa, já o disse-se algumas vezes, e até acho que já o
escreveu em alguns dos textos dele no Expresso, que é, tu pegas
no Dante, lês o Dante, eu só li a Divina Comédia, portanto,
mas... E costuma bastante porque de facto não é fácil de ler.
E repara, eu estou habituado a ler coisas antigas, porque a Bíblia
é mais antiga que o Dante, naturalmente. Mas o Henrique Raposo diz
com razão, assim. Ok, peguem o Dante, peguem a pessoa do século
XXI, e óbvio, um grande exercício de simplificação nisto. Quem é que
tu achas que psicologicamente é mais denso, mais profundo? E quando tu
lês o Dante, sobretudo a parte do inferno, que é a parte
mais interessante, mas isso é uma coisa fascinante, estamos a falar do
século XIII, coisas que curiosamente, nos últimos cem anos, com o desenvolvimento
da psicologia, tu depois regressas a elas com nomes diferentes, com roupa
nova, com contexto, vais entendê-las de um modo diferente, mas quando tu
te apercebes desse espaço para a complexidade numa obra como a Divina
Comédia, só a partir, repara, na parte do inferno, só a partir
da questão do pecado, tu depois de pensar, provavelmente aquele pessoal pensava,
pelo menos há esta possibilidade, Provavelmente aquele pessoal pensava mais sobre o
assunto do que nós hoje estamos a pensar. Ou também pode chegar
a uma conclusão que hoje no advento da psicologia e de tentarmos
tratar estas coisas não necessariamente à luz da religião, é uma maneira
de voltarmos a valorizar coisas que os antigos valorizavam com uma profundidade
que nós hoje, e agora meto eu aqui o grão na engrenagem,
mas que nós hoje, supostamente iluminados pela objetividade da verdade científica, não
chegamos lá. Ou pelo menos não temos uma voz com aquela ressonância
que tu, por exemplo, encontras quando lês o Dante e a Divina
Comédia. E eu acho que esse é um dos exemplos interessantes, que
é, é preciso, e não quero dizer em jeito de polémica, mas
repara, é preciso ler muito pouco dos antigos para a pessoa dizer
de uma maneira muito galopante que hoje sabemos muito mais. Eu acho
que tem mesmo a ver, por exemplo, nos autores cristãos que eu
costumo ler, um dos meus pastores preferidos chama-se John Piper e ele
diz sempre, nunca leias só apenas pessoas do teu século, Tens de
passar a vida sempre a ler pessoas realmente antigas. Porque é como
se tivesse... Olha, é como se houvesse um novo Big Bang a
acontecer quando os lês, porque tens uma maneira diferente de processar coisas
que hoje já são automaticamente processadas na tua cabeça. E isso, por
exemplo, é uma coisa que geralmente na polémica existência de Deus, acreditar
não acreditar, eu, claro, se calhar encontro ou se calhar tenho encontrado
os ateus errados, mas encontro muitas vezes, percebes, tem a ver com
isso que tu dizias e com humildade, que eu acho admirável que
é, até que ponto é que de facto não há aqui um
espaço para a sensibilidade, que por geralmente não ter uma configuração científica,
como é que configuras cientificamente a sensibilidade? De facto, se calhar não
dá para configurar facilmente. E talvez por não dar para configurar, olha,
essa parte nós podemos passar, isso não é relevante para a discussão,
mas a verdade é que quando tu ganhas sensibilidade para algumas coisas,
a tua maneira de pensar altera-se, portanto, e com isto eu não
estou a dizer que é um argumento que vai fazer as pessoas
crentes, mas a atenção ao passado impede-nos de alguma arrogância que possa
vir quando há a luz de uma qualquer descoberta ou de uma
teoria que de repente nós podemos sem querer atropelar a história, como
se ela não nos pudesse ensinar aí também.
José Maria Pimentel
Ah, então espera aí, só para fazer este ponto. Eu acho que
é possível quadrar esse círculo, ou estar nos dois lados, ou seja,
eu acho que tu podes ter... E eu quando discutiste com o
Ludwig falava dessa questão da humildade, porque ele é pouco humilde e
defende bem essa... É pouco humilde, na exceção que ele dá essa
palavra, e ele defende isso bem, eu acho que é possível ter...
Casar as duas coisas, ou seja, eu acho que tu podes ser
enfático, podes ser sincero, sem fazer aquilo que falávamos no início, que
é aquele tipo de discurso redondo e não discutir esse tipo de
questões, e ao mesmo tempo saberes que haverá sempre nuances que estão
a escapar. E a questão, por exemplo, a questão do passado, esse
discurso que tu estavas a fazer é algo que em relação a
que eu tenho sempre uma relação, uma posição um bocadinho ambivalente porque
faz-me um bocadinho de comissão quando ouço porque parece aquela coisa a
científica de dizer não, antigamente havia estas... Um bocado que é usado
também naqueles tratamentos alternativos Havia esta coisa que os chineses faziam e
não sei o quê, e isso resultava e o conhecimento perdeu-se. E
muitas vezes é exagerado. Agora, é um facto que quando tu progredes,
não há só... Existe um progresso e eu... E essa é uma
discussão filosófica, eu nesse campo estou claramente daqueles que acham que existe
progresso, que o progresso não é um relativismo, mas é evidente que
se perde sempre alguma coisa no progresso, ou seja, não há... No
tempo dante, por exemplo, ele sabia, tinha acesso a muito menos informação
do que nós temos, e a ausência desses inputs torna impossível que
ele pudesse fazer uma obra publicável hoje. Mas isso não quer dizer
que com os inputs que ele tinha na altura ele não tenha
passado muito mais tempo a cozinhá-los do que nós hoje em dia
temos disponibilidade para fazer e que, portanto, não tenha ali insights que
vale a pena
Tiago Cavaco
conhecer. Sim, mas depois entramos na questão que eu diria mais de
facto ontológica, que é, o que eu diria, o que eu te
responderia em relação a isso é que Eu serei mais cético em
achar que os maiores triunfos humanos são fundamentalmente triunfos cognitivos. E com
esta atenção. Sou um pastor evangélico que abre a bíblia e diz
estão a ler, portanto que acredita na importância da função cognitiva, ler,
saber, aprender, tudo isso. Mas é verdade que ontologicamente eu não acho
que nós sejamos fundamentalmente cognitivos, somos também cognitivos obviamente E aí eu
dar-te, só para voltar àquilo que eu te queria dizer, um dos
textos mais hostis em relação ao ateísmo é a carta que Paulo
escreve aos romanos, onde logo no primeiro e segundo capítulo ele diz
assim, a tese é esta, não está dita assim, mas a ideia
é esta, as pessoas só não acreditam em Deus porque não querem
acreditar em Deus, porque com a criação à volta é prova que
Deus existe, é a criação. Eu não estou agora a querer discutir
isso contigo, mas o argumento lá, nem é propriamente a discussão hoje
à Sam Harris vs. William Lane Craig, mas é o fundamental em
nós não é aquilo que nós fazemos com o nosso conhecimento, O
fundamental em nós é aquilo que nós fazemos com a nossa vontade.
E é a partir daí que tu tens um desenvolvimento, pois muito
à custa da Cristinho, mas que tens um desenvolvimento filosófico e uma
escola filosófica que privilegia a compreensão e o conhecimento do homem, não
tanto pela capacidade intelectual rigorosa que ele tem, mas pelas questões do
desejo. E a espiritualidade, eu não gosto do termo espiritualidade, mas aqui
esta, de facto, também se
aprecia. Depois, se eu também não sou, sou algo melhor, não é?
Tiago Cavaco
agostiniana é fundamental nos protestantes. É por isso que nós também somos
mais pessimistas em relação a nós próprios. Porque nós não acreditamos que
o conhecimento seja a coisa... Oh, se tivéssemos de estabelecer agora uma
dicotomia entre conhecimento e sentimento, eu não sei se ajudará muito, mas
nós não acreditamos que o conhecimento é o palco principal da tua
vida, da minha vida. Portanto, nós achamos que a vontade, de certa
maneira, é mais reveladora da realidade. Ou seja, tentando simplificar aqui coisas
que podem ser difíceis, mas se tu queres perceber a realidade a
sério, não precisas de... O sítio onde tu deves procurar não é
tanto no conhecimento, naquilo que conheces, naquilo que sabes, mas é no
teu coração, aquilo que tu fazes diante daquilo que tu sabes. Portanto,
isto não é para dizer santa ignorância, não é importante conhecermos coisas,
mas é para dizer que a fibra última, a célula última, a
nossa célula última enquanto seres humanos não é tanto o que nós
fazemos com o conhecimento, mas é aquilo que nós fazemos com o
coração a partir também do que sabemos, mas não só do que
sabemos. Daí que o apóstolo Paulo diz só não acreditem em Deus
porque... Quem não quer? Portanto, nesse sentido ele diz assim, o ateísmo
nem sequer é intelectualmente aceitável, de certa maneira. E por isso ele
diz, Deus vai pedir contas às pessoas por elas terem decidido não
acreditar nele. O que repara, é uma maneira polémica de pegar a
Tiago Cavaco
que é interessante fazer com um postor, que sabe muito mais que
eu. Não, mas sabes que uma das coisas que continua a ser
dito, aliás, nessas discussões mais iriçadas de existência de Deus, é que
as justificações que tu podes dar para enquanto ateu teres uma vida
preenchida, que em grande parte elas são... Bem, os mais polêmicos dirão
que elas são frutos da tua imaginação. Portanto, tendo em conta que
se objetivamente não existe nada, se Deus não existe, portanto o próprio
conceito de bem ou mal será um resultado de uma suposta evolução
e portanto aí... Essa é uma discussão interessante, sim. E portanto nada,
vamos dizer assim, eu lembro uma vez que estava a ter uma
conversa numa discussão parecida que ficou assim, era sobre cidade e ter
fé e estava eu, o Sheik Munir e o Ricardo Arocho Pereira.
E de repente aquilo teve um momento Dawkins, William Lane Craig entre
mim e o Ricardo. E é por isso que eu gosto do
Ricardo, porque o Ricardo é um ateu mais sério do que parece,
apesar de depois, como bom português que é, é um porreiro para
toda a gente, e portanto vai falar com toda a gente, e
é bem toda a gente, que é uma das desvantagens de ser
português. É até, vê lá tu, é até para mim ele é
amigo, mas... Descreveu-me muito fácil, mas só para te dizer isso. Em
determinada altura ele dizia, e falava, é engraçado que foi antes da
adaptação, antes do Scorsese ter feito o filme, porque como, esse é
o grande segredo. Aliás, é o nosso grande castigo enquanto país, é
que o nosso grande humorista é um grande intelectual, que eu acho
que é uma forma de Deus nos castigar. Vocês são tão maus,
que eu vos vou dar o melhor humorista é o intelectual, o
que não deveria ser assim se calhar, mas pronto, porque de facto
o Ricardo é um gajo muito inteligente e é um tipo muito
lido. Então, eu estava lá a dizer, olha, há um grande livro
de um tipo chamado Shusaku Endo, e na altura ninguém sabia quem
era o Shusaku Endo, chamado Silêncio, onde... Eu não sei se viste
o filme,
Tiago Cavaco
Eu gostei do filme, mas o livro ainda é melhor, apesar de
eu gostar muito de Scorsese. Mas... E ele diz... Depois... E o
debate do crente diante do disparate do sofrimento. Isto não serve de
nada. O que é que é a vida? As pessoas morrerem pela
fé? Isto é... E ele estava num momento quase... Estão a ver?
Deus não existe diante do problema do sofrimento. E na altura que
eu disse ao Ricardo, mas então não podes ter as duas coisas,
então não podes ter o... Eu não sei se falei na altura,
não sei se dei o exemplo do amor das filhas, mas então
também não podes ter o amor pelas tuas filhas, não podes dizer
que uma coisa não é objetiva, mas aplicá-la só numa direção. Se
tu dizes que morrer pela fé é absurdo, também depois não podes
defender, mas o amor que eu sinto pelas minhas filhas é concreto,
percebes? Portanto, é nesse sentido que algumas pessoas te vão dizer que
tu podes criar com o cérebro que tens, em 2018, nós com
o cérebro que temos em 2018, podemos criar as nossas razões de
existir, mas se nada disto houver, se não houver eternidade e não
houver Deus, é pointless, não é mesmo?
José Maria Pimentel
Então deixe-me dizer-te uma coisa... Duas coisas de sentido contrário em relação
a isso. Eu discordo racionalmente dessa tese, para mim essa é uma
das grandes dificuldades, eu percebo essa passagem do... Aquilo que tu dizias
há pouco, do conhecimento, que no fundo o conhecimento não é o
essencial, o essencial é aquilo que nós fazemos, claro, mas eu sinto
muito, eu tenho dificuldade, não posso ignorar o conhecimento que tenho, por
muito incompleto que seja. E o conhecimento que eu tenho é que
nós somos uma espécie de macaco, não é? Evoluído com base na
seleção natural, quer dizer, que é mais ou menos conhecido. Somos um
animal social e gregário por esses motivos todos e o nosso cérebro
tem as limitações e os envelhecimentos cognitivos que são conhecidos. Fomos... Nessa
evolução surgiu, por um mistério que tu atribuirás a Deus e eu
atribuo à evolução, um fenómeno chamado consciência, que é o único no
reino animal e que nos torna capazes de olhar sobre nós próprios.
E eu não sinto que... Esta é a tese do Sam Harris,
por exemplo, e há um desses debates com o Craig que o
ponto, e por isso é que o Craig ganha o debate, é
porque o Craig está... O ponto dele é dizer que é essencial
existir Deus. Ele não disse que é essencial existir Deus, ele disse,
por isso é que ele é muito hábil, ele diz eu não
sei se Deus existe ou não, mas para a moralidade ter uma
base tem que existir Deus, que era no fundo onde estavas a
querer chegar. E o Sam Harris diz que não e eu tendo
a concordar, acho que ele é demasiado infático porque não é obviamente
tão simples como outros problemas que nós fomos resolvendo com a razão,
mas não acho que Deus tenha que existir para nós conseguirmos estabelecer
uma moral. Deus, enquanto absoluto das qualidades, digamos assim, tenha que existir
para nós termos um referencial para a nossa moral e
José Maria Pimentel
Agora tocaste o ponto mais interessante de todos, que é, julgo, alguém
falava disso recentemente, não sei se era o Jóia da Pita, se
não que falava disso, que é, e eu reconheço que esse é
provavelmente o maior desafio dos ateus, é que uma vantagem que a
ecologia tem e o cristianismo tem é, tu tens aquele livro que
serve de referencial e é certo que ele será interpretado por pessoas
de maneiras radicalmente diferentes, esclavagistas e anti-esclavagistas a basear-se no mesmo livro,
para dar um exemplo clássico, mas para todos os efeitos aquilo passa
de geração em geração, enquanto a ética familiar ou ética até de
um país tem mais dificuldade. Eu reconheço que isso é um desafio.
Claramente isso é um desafio e um ateu ignorante pode fazer vista
grossa a esse desafio, que é evidente, é aquilo que estás a
dizer. Eu posso construir um edifício ético que resulte para mim e
para a comunidade em que eu vivo, mas depois como é que
ele vai passar para os seguintes? Não é? Quer dizer, no fundo,
qual é o referencial que existe para aquilo? Daí eu dizer que
é um desafio muito maior do que o Sam Harris faz parecer,
Mas eu não acho que seja impossível. Para mim, sobretudo, não há
alternativa. Quer dizer, para mim, a religião, para mim, por exemplo, do
ponto de vista evolutivo...
Tiago Cavaco
Mas aí, repara Zé Maria, aí novamente eu percebo, mas porque tu
continuas, deixa-me dizer desta maneira, continuas a apostar as tuas fichas mais
importantes no jogo, vamos dizer assim, no conhecimento que a pessoa tem.
Portanto, repara, tu estás a partir do princípio que... Estou a dizer...
Estou a exagerar, tu não disseste isto, eu estou a distorcer agora,
a meter um pedal de distorção para a
próxima cena.
Mas é um bocado... Quanto mais a pessoa sabe, mais consciente ela
se torna. E eu digo, não... Sim, mas não necessariamente. Imagina, uma
pessoa que não tem o conhecimento que tu tens, eu acredito que
ela, aceitando um princípio religioso, ela possa viver com tanto ou mais
consciência do que tu, tendo-te um conhecimento... Mas
José Maria Pimentel
eu não falava de escobinte, Roberto, eu não estava a falar de
conhecimento de facto, eu estava a falar de conhecimento e reflexão sobre
ti próprio e sobre o destino que queres dar à tua vida,
sobre os valores que queres que te guiem, não é? No fundo
é isso que eu quero dizer. Eu acho que a grande vantagem
da religião, e acho que os ateus muitas vezes ignoram essa vantagem
ou não pensam sobre ela é que quando tu falas com as
pessoas da tua congregação, não sei qual é a palavra certa, no
fundo vocês têm esse diálogo em que estão a examinar cada um
as vossas próprias vidas e a fazer um tipo de autoanálise espiritual,
lá está a falta de melhor palavra, que a pessoa se não
vier aqui se calhar não faz. Para mim o problema é, para
mim claramente é um desafio fazer isso fora da religião, é mais
difícil e há menos respaldo institucional, digamos assim. O problema da religião,
e o Dante era a que fala disto e eu concordo, que
é... E tu vais contrariar isto, mas para mim a religião é
sempre um teto à razão, ou seja, há sempre terrenos onde a
razão não irá, porque para todos os efeitos... Sem
Tiago Cavaco
Estou pronto. Está a ver, é nesse sentido que eu digo que
as tuas fichas estão no homocognoscène e alguma coisa assim para dar
um ar relativo, dar académica a isto. Nesse sentido, Sim, eu acredito
que tu serás mais otimista na medida em que acreditas que... Tu,
obviamente, não tens necessidade de exprimir desta maneira, mas de certa maneira,
há uma dignidade superior em viver no conhecimento mais objetivo possível das
coisas. Certo. Eu não discordei em absoluto, mas eu diria que não
é aí que o juízo se faz. E quando uso a palavra
juízo, uso-a intencionalmente com toda a carga religiosa que ela tem. Eu
acho que o juízo não é fundamentalmente uma questão do conhecimento. Repara
que uma das teses hoje em dia, eu acho que é, como
o Che Satan dizia, a mais fácil de provar no cristianismo, mas
das mais difíceis de acreditar na modernidade ou pós-modernidade, chamemos de preferirmos,
que é precisamente a crença no pecado original. Repara que a crença
no pecado original é chocante hoje, voltou a ser chocante, porque de
facto diz que o problema não tem a ver com aquilo com
que tu vais construir com a tua inteligência. Diz que o problema
está em ti. Ponto final. Existes,
já
tens o problema contigo. E isso é óbvio que é muito ofensivo,
porque retira-nos a possibilidade de nós dizermos, olha, atribua-me um problema se
eu de alguma maneira fizer à geneira que mereça que digam que
eu fiz um problema. É nesse sentido que o cristianismo, oferecendo importância
ao conhecimento, repara, o que é que eu acredito, o que é
que eu prego enquanto pastor e agora já é parte de sermão
isto, mas de facto aquilo que eu vivo, eu vivo para uma
espécie de busca de conhecimento, mas é um conhecimento qualificado pelo facto
de que aquilo que eu mais desejo é ver o rosto de
Jesus. Aquilo que na linguagem etiológica é a visão beatífica, que é
aquilo que os cristãos acreditam que vão ver, finalmente vão ver o
rosto de Jesus. E isso é uma maneira de sermos seres para
o conhecimento de alguma coisa. Mas é verdade que esse conhecimento é
um conhecimento nesse sentido que, vá lá, que invoca a vontade de
uma maneira, de um modo que o juízo não opera apenas naquilo
que tu construíste a partir de ti mesmo, mas o juízo opera
com muito mais além disso. Uma das ideias fortes no Velho Testamento
e que o Novo Testamento continua é que David, o salmista, o
rei David, diz-me, sonda-me, examina-me, mostra-me o pecado que nem eu sou
capaz de conhecer a mim próprio. Percebes? Portanto, é óbvio que tu
tens uma função do conhecimento no pensamento religioso judaico e cristão, mas
a função dele, repara, é nesse sentido que de facto, nesse sentido
eu serei epistemologicamente mais pessimista do que tu, Porque eu direi, epá,
se eu sou um ser cognitivo, certamente que sou, mas eu conheço-me
tão mal a mim próprio que eu vou ser, que eu provavelmente
vou ter pouca vontade de fazer afirmações que sejam depois muito, vá
lá, assertivas, além de mim. O que não quer dizer que não
tenha dogmas e que não acreditem em coisas e que vá afirmar
como absolutos morais e radicais. Mas percebes, a coisa, o juízo não
está tanto na construção intelectual que vais fazer sobre ti, mas está
precisamente numa construção moral. E o que eu acho difícil é essa
moralidade ser fundamentada depois, sobretudo, a partir de uma questão intelectual. E
é aí que eu acho mais difícil. Isso é giro, por acaso,
nós estamos a tocar no cerne da
José Maria Pimentel
questão em certo sentido. Esse lado epistemologicamente é uma postura diferente. Quer
dizer, aquilo, para mim, isso é um caminho. E não é... Lá
está, a pessoa não pode ser arrogante ao ponto de achar que
conhece tudo e não conhece, e há uma série de sombras, mas
se tu fizeres esse caminho por ti próprio não há sala onde
não possas entrar ou que não possas construir se quiseres e quando
tu fazes sobre um livro que já é a palavra de Deus
e está construído, já pré-construído e no fundo está a ensinar como
uma autoridade. Para mim essa é a grande dificuldade. É interessante falarmos
sobre isso porque isto não tem que ver com a discussão por
aí simples da existência de Deus ou não, mas sim quase com
a em que medida é que o ser humano é feito ou
não para a religião, digamos assim, ou a religião é feita para
o ser humano, ou seja, em que medida é que isso faz
parte de nós? Já agora deixa-me, vou-te dar uma sugestão, quando estava
a pensar sobre isto. Se eu estivesse do teu lado, numa conversa
deste janeiro, numa espécie de debate deste janeiro, fazia o seguinte argumento
que me ocorreu no outro dia e que eu acho que é
verdade e que é muito engraçado e que para mim é um
dos melhores argumentos a par dessa questão do Peterson que eu falava,
da questão de teres que ter um referencial moral, teres que no
fundo ter um absoluto em relação ao qual depois fazes os vários
relativos, Que é a questão de que toda a gente, se nós
pensarmos nisso, praticamente toda a gente vive implicitamente como se houvesse vida
para o lado da morte. Quando eu digo implicitamente, e estou a
incluir a mim próprio, se tu perguntares a alguém se lhe é
indiferente a memória que fica dela quando ela morre se perguntares a
um ateu, se perguntares ao Ricardo Ouropeira, como falávamos há pouco emocionalmente
não lhe é indiferente para lá existe um efeito que é o
efeito que a memória dele tem sobre a família e os amigos
que ficam. Mas vamos controlar para esse efeito, vamos fixar esse efeito
e admitir que ele não é alterável e que se trata simplesmente
da memória. E nós, como ser humano, estamos programados para agir como
se essa memória nos interessasse. Fazemos isso, por exemplo, um exemplo típico.
Quando se fala do controle de mandatos presidencial, por exemplo, nos Estados
Unidos, também é verdade aqui em Portugal, mas como o poder executivo
não está no presidente, não é tão relevante. Mas falas muitas vezes
Qual é o incentivo que controla, que no fundo que é o
freio para a ambição no primeiro mandato? Ok, isso seria eleito para
o segundo. Qual é o incentivo que joga no segundo mandato? É
ficar para a história. Ficar para a história pode interessar para o
resto do tempo que a pessoa viva, não é? Mas interessa é
numa espécie de presunção de imortalidade. E eu acho que qualquer ateu,
qualquer pessoa, quer dizer, isso faz parte do nosso ADN, lá está,
mas para mim isto não é uma razão para eu me tornar
crente, é uma razão para eu perceber as nossas limitações. Mas é
muito interessante isso. E por exemplo há uma frase do Woody Allen,
ultra engraçada, em que ele diz que I want to achieve immortality
through my work, I want to achieve immortality through not dying. Ou
seja, eu não quero tornar-me imortal pelo meu trabalho, eu quero é
não morrer. E isto é uma ótima piada, mas tem uma camada
por baixo desse humor que é isto é altamente contra a natura,
não é? Porque realmente o que ela está a pôr a nu
é que nós estamos programados para agir, ateus e crentes da mesma
forma, como se houvesse eternidade, como se houvesse imortalidade.
Tiago Cavaco
assim por acaso. Pois, exatamente. Aliás, repara, a ironia que tu podes,
às vezes, pode haver com tudo, imagina, e eu sei que novamente
continuo a simplificar coisas que estão muito além da minha capacidade sequer
de estudá-las. Sim. Mas quando falamos na ciência, que é de repente
a ciência funcionar não como uma libertação, mas como uma espécie de
programação. Aliás, a eterna questão, ok? Os sentimentos, são os químicos ou
não são? Eu estou a ler, estou a reler já ali há
uns anos, o Mano Masiado, o Mano do Nietzsche. E eu acho
que de facto nós, como crentes, eu acho que nós temos de
ler os ateus fortes. E para todos os efeitos, eu acho que
o Nietzsche continua a ser dos ateus fortes. E uma das coisas
que ele dizia, sim, ele reconhece, ele está no programa dele de
esmagar de uma vez por todas a metafísica, mas ele diz assim,
reconheço que um dos problemas que temos, é parecido com aquilo que
o Gustavo estava a dizer há pouco, é que...
Tiago Cavaco
a partir do momento em que as pessoas deixam de acreditar na
imortalidade, basicamente a tese dele era esta, ele não usava bem estas
palavras, mas é muito difícil que lutem por instituições duradouras, porque vão
pensar na sua própria existência. Aliás, de um modo geral, esse é
um dos problemas que tu tens hoje. Porquê é que as pessoas
não acreditam nas instituições? De certa maneira não acreditam em Deus. O
que é que eu quero dizer juntar as duas coisas? Não acreditam
em nada que não seja imediatamente verificável por elas próprias. Pronto. E
tens um problema que é, eu estou aqui mas amanhã não está,
não estou. Portanto, a vida são dois dias, o carnaval são três
e portanto não vai aqui ficar nada. E é difícil de facto,
quando tens uma cultura a fazer um percurso destes, que alguém diga
não, não, eu vou dar a minha vida, é o que tu
estavas a dizer, por alguma coisa que vai ficar depois de eu
partir. E também daí o problema em conseguir fundamentar moralmente uma vida
que não acredito num absoluto como Deus ou outro. Portanto, a questão
aqui, ela torna-se interessante porque aquilo que num momento pode parecer libertador,
sei lá, tudo o que a ciência supostamente agora nos vai mostrar,
num outro momento pode ser absolutamente... Não sais daqui, Zé Maria, só
vais viver este tempo, não há chance de ir além. E fazer
da ciência, não sei até que ponto é o que se faz
da ciência, uma espécie de determinismo, até quase de fatalismo. Fatalismo esse,
que como tu dizias com razão, não se verifica no cotidiano das
pessoas, de grande parte dos ateus. Outro exemplo que eu costumo dar,
que eu acho que é a família, é da família do que
tu deste, é tu quando, não sei se és pai,
Tiago Cavaco
estiveres com a tua criança na mão, eu acho difícil resistir à
tentação do maligno, que é o pensamento religioso, que é o valor
da vida desta pessoa vai além de mim próprio, que é uma
coisa pouco ateia de pensar, mas na maior... Por isso é que
eu dizia ao Ricardo naquela discussão, calma aí, se tu dizes que
o sofrimento retira o valor da vida, então também não podes ir
buscar o valor da vida à alegria que tens, por exemplo, com
as tuas filhas. Não podes escolher quando é que
José Maria Pimentel
aplicas valor e o que é que não é. Não, e esse
é o ponto interessante, por isso é que eu acho que os
ateus têm a obrigação de ser humildes, é que... E esse era
o argumento que eu faria se tivesse desse lado, é toda a
gente no fundo acredita um bocadinho em Deus, ou seja, nós estamos
de tal forma programados, o que quer que seja para isso, que
isso está presente de muitas formas, está nessa relação com os filhos,
termos uma vida que foi gerada por nós, não é? Que fica
depois de nós, quer dizer, toda a lógica se altera radicalmente, essa
questão da imortalidade, no sentido da vida pós-morte. Agora, para mim, isso
é ultra interessante e é um desafio, para mim é um desafio
adicional, não é uma razão para eu... Quer dizer, é uma razão
para ter mais humildade, mas para...
Para
escavar isso mais...
José Maria Pimentel
menos e é para perceber no fundo como é que tu resolves
isso, não é? E a resposta do que falámos há pouco do
Sam Harris, por isso é que eu digo, ele, eu acho que
ele é taxativo, porque um tipo quando quer vender livros e estar
num debate tem que ser taxativo, não pode, tem que ser um
ou zero, preto ou branco, não pode estar lá com... Se estiver
à europeia, aquele branco... Não pode estar no meu caminho, senão não,
exatamente, senão a coisa não... Senão não dá nas vistas. E claramente
é um desafio grande, mas não acho que nós não tínhamos as...
Por exemplo, o que é que serve muitas vezes de contrapeso a
isso? Quando não existe Deus, existe família, por exemplo, ou seja, ou
existem relações interpessoais, não é, no fundo, as pessoas que... Sim, mas
repara... Mas o que é que te impede, no fundo, o que
vais dizer? O que é que impede as pessoas de se comportarem
egoisticamente?
José Maria Pimentel
Bom, mas em relação a essa… Que é obviamente uma convicção religiosa.
Mas essa por acaso não me cria especial problema. Isto é uma
simplificação? Essa é uma conversa antiga? Aquela coisa do Pascal, que eu
lhe dizia, da aposta do Pascal. Mas o que eu penso, e
acho que faz sentido pensar, é que Deus a existir é omnisciente.
E, portanto, sabe aquilo que eu penso, sabe aquilo que tu pensas
e prefere alguém que é um ateu convicto e honesto do que
um hipócrita que se converte apenas a pensar no juízo final. Por
isso é que a aposta do Pascal não faz grande sentido. Concordo
contigo, só que lá está. Aí, voltando um pouco atrás
Tiago Cavaco
quando tens um professor muito exigente, ele não é um professor porreiro,
somente. Sim, sim. Ele vai dizer, pá, Zé Maria. Mas é justo.
Exatamente. Não, mas precisamente por ser justo. É que há um juízo
que se adequa. E, portanto, uma das coisas que eu acho que
os antigos, e é grande generalização que
eu vou fazer, mas
uma das coisas que eu acho que em grande parte os antigos,
os antigos ou pelo menos noutro tempo, também não sei porque isto
não dá para dividir o tempo. Às vezes eu reconheço que um
dos problemas de quem fala da religião dá uma ideia, desneifica assim
o passado, como antigamente as pessoas eram muito melhores, acreditavam em Deus,
o mundo era mais moral, mas não necessariamente. Aliás, há coisas inacreditáveis
que aconteceram com pessoas que acreditavam em Deus e...
Tiago Cavaco
Mas é verdade que uma das coisas que eu acho que era
interessante é que as pessoas acreditavam mais, olhavam com mais respeito para
a ideia de eu vou ser julgado, Eu se calhar devia pensar
nisto com seriedade. E hoje, aliás, porquê é que as pessoas não
estão nas igrejas também? Entre várias razões, ou porquê é que as
pessoas não acreditam em Deus? Porque deixaram de acreditar na justiça, deixaram
de acreditar na necessidade da salvação. Há um pastor que eu gosto
muito e ele diz, citando o outro, portanto essa frase não é
dele, este pastor chama-se Tim Keller, mas ele dizia, hoje a salvação
é a salvação não existir. O Nietzsche é um humano demasiado humano,
ele dizia assim, eu acredito que vamos chegar a uma época em
que um discurso, em que crenças como o anjo da guarda, ou
o pecado original, ou a salvação se vão tornar obsoletas. Eu tenho
fé que esse momento vai chegar. Chegou! Nesse aspecto ele era um
profeta e escreveu isto há 100 anos. Mas esse momento chegou. A
salvação é não existir necessidade de salvação. Mas também podemos dizer, mas
será que essa naturalidade com que se passou do tempo que o
Nietzsche gostava que chegasse e que efetivamente chegou para o tempo onde
ele estava, onde as pessoas ainda acreditavam, aparentemente ainda acreditavam mais nisso,
será que isso nos deve inspirar assim tanta segurança? Portanto, será que
a possibilidade de eu ser ajuizado não deve entrar ao barulho? E
eu, nesse aspecto, eu sou um pregador... Lá está, a vantagem dos
evangélicos aqui. Eu acredito no céu e no inferno. Portanto, eu não
peço desculpa... Quando tu acreditas em coisas assim, tu não pedes desculpa
para pregá-las. Para ti é verdade. Portanto, tu vais dizer, olha, pensa
bem porque faz lembrar quando andámos na escola primária, eu via, quem
mente vai para o inferno, e na altura acreditávamos todos naquilo, eu
continuo a acreditar. Portanto, alguém pode dizer, epá, isso é tática do
medo, quantas coisas é que tu na vida não vais ensinar precisamente
para livrar as pessoas de perigos. E portanto, isto é uma coisa
que entra na equação, que hoje, obviamente, não estou a dizer que
entra na equação naquelas discussões entre a existência de Deus ou não,
mas que eu acredito que entra para avaliar a questão da própria
imortalidade, se há um Deus, se existir um Deus, e se houver
uma diferença entre aquilo que é bem e aquilo que é mal,
então já está implícito aí algum tipo de juízo a separar uma
coisa da outra. E já estará implícito, aceitando, obviamente, aceitando essas permissões,
for the sake of the argument, mas já estará implícito a ideia
de que poderá haver destinos diferentes.
Tiago Cavaco
Mas daí a pedagogia de tu dizeres, olha, que isto mal pode-te
acontecer. Eu não vejo isto mal como pode-te acontecer, como uma violência,
se for realidade que pode acontecer. Certo. Imagina, quando tu tens um...
Este é um exemplo mais tosco, mas na minha opinião eficaz. Tu
tens um miúdo, apá, e há um sítio qualquer perigoso, tu vais
dizer, olha, tu que tens cuidado, não... Não vais para ali, há
uma ribanceira, podes te magoar. Ai, não, não, vou deixar ele descobrir
isso por si próprio. Percebes? Essa é uma... Eu não Sei até
que ponto às vezes não será uma espécie de vaidade da ideia,
como nós hoje subvalorizamos, a ideia da descoberta pessoal. Achamos que o
discurso moral só pode ser permitido desde que ele seja uma descoberta
pessoal. Eu sei que agora acabei por tornar isto retorno, mas como
se tu tivesse sempre dentro de ti a capacidade para solucionar todas
as coisas que estão em jogo. E eu acho que isso é
pouco humilde. Não, tu não tens. De facto, às vezes tu precisas
de ser assustado, às vezes precisas de… às vezes alguém precisa de
te abrir os olhos e tu dizes, epá, não estava a pensar
nisso, se não fosse aquela pessoa a avisar-me eu não iria ver.
Claro,
José Maria Pimentel
mas as minhas reservas em relação à ética religiosa é que é
uma ética, bem, primeiro, com uma variância gigantesca. Porque varia com todas
as regiões e mesmo dentro do cristianismo com todas as nominações. E
é prescritiva, ou seja, está até por escrever uma receita que pode
ser ou não incorreta. Quantas pessoas na história não morreram de consciência
semi-tranquila? Quer dizer, se fossem cristãos a sério nunca poderiam estar com
a consciência completamente tranquila, mas semi-tranquila a achar que tinham agido bem
quando tinham feito um monte de coisas que aos olhos de hoje
seriam pecados terríveis ou más ações, não é? E quando tu estás
a seguir a Bíblia enquanto... Claro que isto... Falando com alguém que
acha que a Bíblia é a palavra de Deus, obviamente que isto,
qualquer
José Maria Pimentel
O equivalente à carta de Paulo é provavelmente nesta espécie de pós-modernidade
um lado de complacência moral que eu acho que normalmente os crentes,
contra o qual os crentes, ou pronto, que os crentes identificam e
contra o qual se insurgem, e eu concordo parcialmente, ou seja, é
verdade, acho que nós há uma série de progressos morais que nós
fizemos, mas houve se calhar algum retrocesso na autoanálise. Porque no fundo
o que havia antes, no fundo o que existe é se eu
entrar aqui, se eu entrar lá embaixo na igreja, o que acontece
é que tu começas-me a perguntar se vai ser rapaz ou rapariga,
ou seja, começas a... No fundo estou-me a abrir e estou a
dar a hipótese de que uma autoridade externa faça, no fundo, essa
espécie de análise, quase como um psicanalista e um pastor ou um
padre que tem esse lado que não é irrelevante. E a pessoa,
se não fizer isso, qual o risco de passar a vida inteira
sem fazer esse exercício? E essa complacência eu concordo que existe. Agora,
qual é o problema? Eu acho que há uma coisa que nós
ainda não falámos, eu falei a passando isso há pouco, que para
mim é o grande problema de toda esta conversa, porque eu acho
a conversa sobre a existência de Deus fascinante, acho a conversa do
ponto de vista ontológico interessante, mas sobretudo do ponto de vista antropológico
e aquela... A questão de serem em grande medida as religiões que
permitem que os princípios éticos passem geracionalmente e a questão de nós
estarmos programados para agir na presunção da imortalidade e de muitos dos
nossos laços serem construídos dessa forma. Mas depois há aquela frase clássica
que eu já não sei quem é que dizia, que é o...
Tiago, se tu percebes... Quando tu percebes o motivo porque tu não
crees em todas as outras religiões, vais perceber porque é que eu
não acredito na tua. Ou seja, qual é a probabilidade de a
Bíblia de toda, de todos os livros ou o cristianismo de todas
as religiões e sobretudo o cristianismo de denominação
Tiago Cavaco
cultura específica e... Sim, deixa-me tentar responder, obviamente falando do cristianismo. Por
um lado eu voltaria a uma coisa que disse logo ao início
que é, porque tu colocaste, e bem, e bem, e até para
espicaçar a pergunta, colocaste em termos de probabilidade. E aí, se calhar
só para chatear, eu diria, se calhar a questão é mesmo a
improbabilidade, porque por um lado eu também não quero dar-te a ideia
de... Há a chamada teologia natural e a teologia... Em linguagem teológica
tu chamas a revelação natural e a revelação especial. A revelação natural
é o facto de existir um mundo, o tal argumento de Paulo
na primeira carta, na carta aos Romanos no capítulo 1, que diz
assim, o mundo está aí, tu a partir daquilo que observas consegues
chegar à conclusão que Deus existe. E os protestantes aceitam a importância
da revelação natural, mas enfatizam a importância da revelação especial, da escritura.
Portanto, eles acreditam que a revelação natural só não chega. Se a
revelação natural só chegar, são precisáveis de Jesus vir cá
para fazer a coisa dele,
porque as pessoas percebiam. E nesse sentido, Novamente, em termos da natureza
do ser, a nível da antropologia, o protestantismo novamente tende a ser
mais pessimista do que o catolicismo, porque o catolicismo hoje consegue abraçar,
nas questões da salvação, consegue abraçar que outras pessoas de outras religiões
façam parte e o Protestantismo... Também depende do Protestantismo, tens Protestantos liberais
que basicamente não acreditam em nada daquilo que está na Bíblia, mas
desses não falarei eu, porque não sou dessa família. Mas para te
dizer, o campo da revelação especial é um campo onde, de certa
maneira, a improbabilidade conta mais do que a probabilidade e que de
facto não há respostas para. Porque é que se Deus tem... Porque
é que se Deus criou um universo, na perspetiva teísta e na
perspetiva cristã, porque é que Deus criou um mundo em que o
mal existe? E porquê é que não passou logo para a parte
dos novos céus e da nova terra, da perfeição, da eternidade? Há
respostas que a Bíblia não se preocupa em dar e quanto vais
mais por este caminho tu entras mais no campo da improbabilidade do
que propriamente a probabilidade. E até recuperando um católico que gosto muito
e que tu já mencionaste, o próprio Pascal, que sublinhava o Deus
abescondito, o Deus que se oculta e não tanto o Deus que
se mostra, apesar de ele ser um homem da ciência e de
acreditar que através da ciência, que era a vida dele também, que
isso era um grande, uma grande razão para acreditar em Deus. Mas
portanto, isto só aqui para fazer uma questão, que leva a uma
coisa que já te disse algumas vezes, que é, por exemplo, para
um cristão evangélico, ou pelo menos um cristão como eu, a questão
novamente não é aquilo que tu fazes com a informação que te
é dada. E voltamos ao choque moderno com a questão do pecado
original. Por alguma razão, que eu não sei explicar porque a frase
que eu gosto de usar é da Agostinho, porque eu acho que
é a melhor frase para explicar uma coisa que a própria Bíblia
não se preocupa em explicar, e Agostinho diz assim, está mais de
acordo com a natureza de Deus tirar bem do mal do que
não permitir que o mal exista. E esta é a frase que
eu até aos meus filhos uso sempre para responder quando vêm as
questões difíceis. Porquê que Deus permite que haja mal? Porquê que se
é o inferno? Porquê que não só se é o céu? Portanto,
tudo isso. E de facto, acho que Agostinho percebeu o sumo bíblico
e resume-o bem nessa frase. Portanto, de facto, é por isso que
por exemplo muitos protestantes, como João Calvino, e Calvino é uma grande
influência para mim, porque apesar de eu ser batista, a minha linha
teológica é calvinista, eu sou um calvinista. É? Sim. O que depois
muda bastante as coisas, porque há evangélicos de todas as formas e
efetivos, e nem todos são calvinistas, naturalmente. Mas que, por exemplo, para
Calvino, Por causa disto, quando tu olhavas para o mundo, a maneira
mais objetiva de olhar para o mundo é dizer assim é um
teatro. Não um teatro no sentido do fingimento, mas é um teatro
no sentido da história. Aliás, é curioso que quando tu lês o
Jordan Peterson no 12 Rules for Life, ele começa com uma afirmação
parecida, que nesse sentido é bastante a Calvino, que é isto é
um drama, isto é alguma coisa que acontece. E a onda calvinista,
lidando com coisas para as quais não temos resposta, mas de facto
vai enfatizar mais isto. A maneira mais realista de tu olhares para
o mundo, não é necessariamente através daquilo da ciência, embora não despezes
a ciência, mas é tu percebes que isto é uma história, há
um arco, há aqui uma história que está a ser contada, portanto
há aqui um caráter absolutamente dramático, não é dramático, melodramático, um caráter
de drama que se tu não aceitas provavelmente ficas mais longe de
perceber a realidade como ela é. E é por isso que eu
diria, generalizando, mas que nós continuamos a sentirmos atraídos para boas histórias,
para arte, para bons filmes, ou seja, para o que for. Para
coisas que nos contem algum, que nos dêem algum sentido de finalidade.
E também daí que eu acho que seja mais difícil encontrar essa
finalidade quando não existem categorias definidas. Pronto, tendo isto em conta, se
a questão não for fundamentalmente uma questão de conhecimento, a religião não
é mais certa nem mais errada por questões de probabilidade, é de
facto mais certa e mais errada por questões de verdade. Claro que
eu não te sei responder o que é que eu seria se
nascesse nandia, mas isso não inviabiliza. Repara, o facto de poder haver
uma verdade não significa que não possa haver 300 mentiras.
Tiago Cavaco
Agora, a questão é de facto perceber aquela que me calhou. O
que eu acredito, claro que depois tu podes, em último grau eu
vou sempre dizer, em último grau, aquela que não daria muito mais
conversa porque eu diria que é uma questão de fé. Claro. E
eu acredito que é de facto uma questão sobrenatural. Eu acredito que
é de facto sobrenatural aquilo que Deus faz quando, através do Espírito
Santo, te convence que Jesus Cristo, sendo o Filho de Deus, é
Deus também e veio fazer uma coisa que foi morrer pelos teus
pecados e que nessa morte na cruz há uma transação em que
o mal que tu fizeste fica pago. Portanto, isto eu acredito que
é uma iluminação
Tiago Cavaco
do Corão, nem sou um conhecedor das religiões orientais, mas daquilo que
sei, eu acho difícil tu, diante da Bíblia, não dizeres isto é
um bocado de trabalho diferente. A Bíblia tem cerca de 1500 anos
de diferença, o intervalo cronológico. Portanto, são muitas vozes a dizerem coisas
diferentes que ainda assim, na minha opinião, sem qualquer tipo de susto
pós-moderno, te permitem teres uma visão, apesar de depois haver igrejas muito
diferentes, mas teres alguma coisa chamada cristianismo. Numa diversidade que tu não
vais encontrar em nenhuma outra religião. No caso do Corão, e com
respeito pelo Corão, mas é um homem a escrever aquilo do início
ao fim. Portanto, essa dimensão...
Tiago Cavaco
tu podes comparar objetivamente, quer dizer, por exemplo, quando tu olhas para...
Estou a falar até... Tendo em conta que são, vamos dizer, visões
em competição da verdade, eu Acho que se pode dizer objetivamente que
uma que tem 66 livros, até porque nós temos menos, porque o
canón católico mete mais alguns, mas uma que tem 66 livros diferentes,
escritos por várias pessoas diferentes, diante de uma que foi escrita só
por um, de certa maneira pode conquistar logo a nossa maior admiração,
no sentido em que tem uma, vamos dizer assim, tem um lastro,
tem uma força que é diferente. Tu dizes, olha, Deus disse-me isso
hoje. Também tens isso como hormonismo. O Joseph Smith também acrescentou-te uma
coisa. E logo aí eu acho impressionante. Depois há coisas que quando
tu lês o relato da Bíblia, claro, e agora estou a falar
como um crente, portanto já estou dentro da minha lógica circular, mas
que eu acho que são impressionantes. Quando tu tens, por exemplo, deixa-me
falar de um texto bíblico em particular. O apóstolo Paulo está a
escrever, para a priori, a igreja que existe no Novo Testamento, que
é a igreja de Corinto. Pá, que são uns devassos, fornicam uns
com os outros. De facto, é uma igreja que tu dirias. Aliás,
Corinto era aquilo que o Ocidente está a voltar a tornar-se bem
permissivo a nível de moral e tal. Mas aqueles cristãos estavam-se a
portar tão mal que até os pagãos, os descrentes, achavam que aquilo
era demais. E ainda há assim o apóstolo Paulo está lá a
falar, a corrigir, a dizer vocês têm de se portar bem, não
sei o quê. Mas a determinada altura, no capítulo 15, há um
problema que os corintios estão a levantar, que é aí que realmente
Paulo se eriça. O que eu acho que é uma boa fotografia
do que o cristianismo é, é quando eles colocam em causa que
Jesus ressuscitou. E é aí que tu te apercebes que o cristianismo
não é uma religião de moral. Atenção, uma religião da moral é
uma consequência, mas não é uma religião que tu salvas pela moral.
Porque aquele pessoal andava-se a portar mesmo mal. E Paulo tolera, no
sentido de os corrigir, diz-se que vocês têm de se portar bem,
mas onde ele diz, olha, não há chance, é quando eles colocam
em causa a ressurreição de Jesus. É quando ele diz, se Jesus
não ressuscitou, a nossa fé é vã e nós somos os mais
miseráveis de todos os homens. Como quem diz, nós estamos aqui, de
facto, completamente enganados. E nesse registro, quando ele está a fazer aquela
sua tour de força, a dizer assim, a nossa fé não depende
daquilo que nós construímos individualmente, mas da convicção que nós temos de
factos que nos são exteriores. E isto é bastante humilhante para uma
época que se valoriza a partir daquilo que constrói, a partir daquilo
que tu, como cidadão, és e contribuis. Nós temos muita dificuldade com
a ideia de uma solução vir de fora, resolver por nós uma
coisa que nós não conseguimos. É aí que Paulo se eriça e
diz assim, se vocês têm dúvidas acerca da ressurreição, olha, há pessoal
que viu isto acontecer. E basicamente, eu estou parafrasear, a dar uma
tradução muito moderna, mas é o que ele diz, se vocês têm
dúvidas vão falar com os testemunhas. O que eu acho um texto
incrível, porque está a dizer uma coisa, que é que os cristãos
aceitam como um milagre, como uma ação miraculosa de Deus, que é
Jesus morreu e ressuscitou, e no entanto o apóstolo Paulo não usa
a lógica de ou acreditas ou estás fora. Ele diz, se tens
dúvidas, vai falar com as testemunhas. E isso eu acho que é
uma coisa incrível que, por exemplo, nas outras religiões, não sendo eu
um conhecedor, não existe. Portanto, por um lado, não vou pela questão
da probabilidade, mas também por outro, quando vou pensar no Cristianismo, eu
encontro nele coisas que eu não encontro em mais lado nenhum.
Tiago Cavaco
agiram bem, no fundo é isso que estás a... Repara, religiões que
dizem, porta-te bem e tudo corre bem, isso é a forma, vamos
dizer, mais primária. E quando digo primária não digo no sentido negativo.
Primária é primário, é básico, faz sentido. Todas as religiões têm uma
forma de moralismo, não é? Porta-te bem para que depois na vida
não te corra mal. Mas o cristianismo não te vem falar nisto.
É nesse sentido que eu te falei na dimensão do teatro, na
dimensão de Calvino. O fundamental não está propriamente nos factos em si,
mas naquilo que os factos estão a construir por estarem num encadeamento,
percebes? Portanto, nesse sentido, o que o cristianismo vem dizer não é
que tu te salvas por seres bons. A mensagem em choque do
cristianismo é que tu podes ser mau, mas se aceitares um sacrifício
que é feito por causa dessa tua maldade, tu podes te salvar.
É nesse sentido que a palavra graça faz sentido. A graça só
faz sentido se houver maldade. Se tu não tiveres maldade não precisas
de graça para nada. Aliás, porque é que hoje as pessoas no
ocidente no geral não procuram Deus? Porque não acham que há nada
de errado com elas. Se tu achas que há alguma coisa intrinsecamente
má, tu vais te sentir à rasca e a precisar de algum
tipo de simpatia externa. E aí a mensagem do cristianismo é completamente
diferente. Deixa-me usar um cliché, que em alguns círculos evangélicos é um
clichê, mas a mensagem do Cristianismo nesse sentido, ela é antirreligiosa. Ela
não te diz que se tu te portares bem, tudo vai correr
bem para ti. Ela diz-te que Nem quando tu te portas bem,
essa é logo a parte má, nem quando tu te portas bem
tem chance. Isso só não chega porque o padrão de Deus está
acima. Mas, depois vem a parte boa, mas Deus é gracioso. Portanto,
e Ele trata do assunto para ti. Tu tens de acreditar que
ele trata do assunto para ti. Percebes? Portanto, há aqui um paradoxo
a acontecer. Por isso é que mesmo na expressão protestante, e agora
eu estou a exagerar, isto é a minha maneira, haverá muitos protestantes
que não concordarão comigo, mas nós Não temos santos nessa perspectiva, não
temos... Para já porque santos são todos aqueles que são crentes, mas
não temos heróis porque nós não acreditamos em heróis. De facto, nós...
Imagina... Isto se calhar já sou mais eu. Eu não tenho paciência
para pessoas boas, ok? Pessoas boas não me interessam porque são chatas,
e não precisam de ser salvas. E eu acredito em pessoas que
precisam de ser salvas. Eu sou mau mesmo, ok? Eu não me...
Agora pode dizer, epá, tu és mau porque te ensinaram isso desde
pequeno. Não! José Maria, acredita, eu com a quarentena não sei como
vivei comigo. Eu sou
ruim
mesmo, nas horas. Todos os dias que preciso de ser perdoado de
novas coisas, mas que penso ou que faço. Portanto, é nesse sentido
que o Cristianismo não é comparável com qualquer outra religião. Com todo
o respeito, O islamismo é uma forma de moralismo, as religiões orientais
são formas de moralismo, o cristianismo é a única religião que não
se limita a ser uma forma de moralismo.
José Maria Pimentel
Esse é um ponto interessante. Para mim a limitação mantém-se completamente, Embora
eu reconheça, mas eu acho que também estou a reconhecer isso enquanto
ocidental. Quer dizer, a Bíblia é claramente mais interessante, parece-me mais interessante
do que o Corão enquanto uma mini-improvisção literária. Não é por acaso
que já tenho falado várias vezes no podcast. Embora depois tenha vários
problemas, por exemplo, com o Federico Lourenço falava-se disso, da tradução, do
que é que entrou no canon, do que é que não entra
no canon, e o Mussoumano diria-nos-ia que estávamos completamente enganados porque o
Corão era melhor porque é um livro editado diretamente, enquanto a Bíblia
resulta de uma série de iterações e há muito mais a produção
humana. Agora, o que é facto é que todos eles são diferentes,
e não falando sequer aqui das religiões orientais, e depois temos a
questão do Antigo Testamento, que no fundo é aquilo, quer dizer, uma
versão diferente, não é? Sobre o que se faz é o judaísmo,
que dá-te logo uma uma versão diferente. Mas agora eu queria te
fazer uma pergunta, para terminar, até porque tens que ir pregar daqui
a bocadinho. Eu já estou perdido.
Tiago Cavaco
católico, E sobretudo os crentes de outra religião, qual é o destino
deles no juízo final? Bem, sabes que os protestantes são muito básicos.
Nós vamos da Bíblia para o mundo e não do mundo para
a Bíblia. Portanto, nós somos tão pessimistas em relação às nossas próprias
capacidades que nós achamos que é a Bíblia que tem de dar
as lentes para tu olhares para o mundo. Nesse sentido, e eu
sei que estou a ser intencionalmente bruto, mas o catolicismo, como dá
mais importância à teologia natural, é mais conciliador. Portanto, o catolicismo diz-me,
se tu fores cuidadoso, olhares para as coisas com cuidado, vais tirar
as conclusões certas. O protestantismo tende a enfatizar, nem assim, nem assim
te safas. Portanto, nesse
Tiago Cavaco
É nesse sentido que nós vamos da Bíblia para o mundo e
não do mundo para a vida. E é por isso que geralmente
somos acusados fundamentalistas e literalistas e por aí fora. Isso se dá
para outra conversa. Claro. Bem, mas em primeiro lugar o que eu
diria é que aquilo que eu acredito é de facto aquilo que
eu acredito, é aquilo que me chega através da verdade, a verdade
é essa que eu encontro no texto bíblico. Portanto, tudo aquilo em
que eu acredito, eu deposito à luz da Bíblia para poder ser
a Bíblia a iluminar, Porque a partir do momento, se eu acreditar,
como acredito, que de facto aquilo é a revelação de Deus, aquilo
tem primazia sobre qualquer outra perspectiva. A partir daí, tendo em conta
o que a Bíblia diz, o que eu acredito é que de
facto, que Jesus sendo Deus, sendo o Filho de Deus, Ele próprio
diz que não há outro caminho além dEle. Agora, eu acredito, não
te esqueças daquilo que também falámos, eu acredito que Deus é um
juiz justo, portanto que Ele consegue a juizar bem como nenhum de
nós consegue e que Ele não comete injustiças. Não te sei explicar
isso, mas eu acredito que quer a existência dos novos céus e
da nova terra, quer a existência do paraíso, da nova Jerusalém, quer
a existência do inferno, são consequências de Deus ser justo e não
de Deus não ser justo. Até porque, reparam, o pastor Tim Keller
cita um autor polaco, que eu não sei dizer o nome dele,
mas que ele dizia. O Marx disse que a religião é ópio
do povo. Parece-me que é mais ópio do povo tu dizeres que
podes viver de qualquer maneira, que isso não interessa, que no final
vais ter o mesmo fim de um homem bom ou de um
homem mau. E de facto, de certa maneira, eu acho que isso
é mais sedutor. Tu achas que se nada é existir, qual é
a tua diferença entre ti e o Jeffrey Dahmer? Vão os dois
acabar os dois inexistentes. Claro. Portanto, eu olho para uma eternidade de
comunhão com Deus e uma eternidade de castigo como consequências de haver
justiça, de Deus ser justo. E nesse sentido eu acredito naquilo que
a Bíblia diz, eu acredito que só há salvação diante da aceitação
da própria justiça feita a carne, que é Jesus. E nesse sentido
eu acredito, parece-me difícil que a pessoa se possa salvar se não
através da verdade. Agora eu não te sei explicar como é que
isto acontece no caso das pessoas, até porque eu próprio ainda não
passei por esse momento. Mas repara, eu não vou... Eu não... Eu
não... Não seria coerente eu dizer, eu acredito na verdade deste texto,
mas agora tendo em conta o quão complicado é defender isto num
ambiente secular... Não, pá, se tu fores bom toda a gente
vai
lá parar. Não é isso que eu
Tiago Cavaco
Aliás, quando Jesus... Uma das coisas que me toca quando eu leio
nos Evangelhos e novamente continuo a simplificar, porque são muitos textos, mas
Sempre que há uma divisão entre bons e maus, Jesus coloca-se no
lado dos maus, não se coloca no lado dos bons. E hoje
em dia uma das coisas irritantes é que tu tens um moralismo
antirreligioso, que é às vezes até mais perverso, que é avaliar o
juiz por o juiz achar que está no poder de julgar alguém,
que é uma maneira um bocado retorcida. Quer dizer, claro que você...
É como se disséssemos a Deus, saia lá daí, você não tem...
Você não precisa de nada disto. A justiça é isto ser como
é e todos nós estamos bem, vá... Aposente-se, faça alguma coisa com
a sua vida. E pá, e eu acredito no que o texto
bíblico diz, portanto eu acredito que o juiz é justo, que ele
é misericordioso. Eu próprio não sei encaixar as duas coisas, porque a
Bíblia não se preocupa em encaixá-las, ela apresenta-as. E só para terminar
em relação a isto, que é, Essa também é uma das coisas
que me fascina, é que a Bíblia não te resolve os problemas.
Tu, de facto, és chamado a dar um passo de fé, mas
a Bíblia não está a resolver os problemas. Tu vais ter de
viver com eles, tu vais ter de viver com textos que às
vezes até parecem contraditórios. E isso não tem de ser um impedimento,
porque o facto de tu viveres com divisões dentro de ti não
é um problema se tu não fores a pessoa que te salva
a ti mesmo. Percebes? Se a salvação não estiver dependente de ti
e o facto de tu carregares dúvidas, isso não é assim tão
problemático. Ou o facto de tu carregares angústias, isso não é problemático.
Ou pelo menos não é assim tão problemático.
Tiago Cavaco
um que, pá, porque eu acho que eu voltei a lê-lo agora.
Aliás, podia falar de dois, já falei no humano demasiado humano para
dar um shout-out aí a todos os ateus e que Eu gosto
de ler o Nietzsche porque obriga-me a pensar e ele diz tanta
coisa certa, muita coisa certa. Mas dava as confissões do Agostinho, porque
eu acho que é... Eu estou a voltar a lê-lo, li-o já
há uns anos valentes, e agora estou a voltar a lê-lo e
acho que é um livro obrigatório. Claro, it goes without saying, a
Bíblia.